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A maleta de couro

Publicado em

Gabriel de Barcelos

Dentro da pequena cidade em que morava, sua figura se destacava. Mesmo com o calor seco e a eterna sensação de abafamento lá estava ele, com seu grosso e elegante terno preto e os sapatos eficientemente polidos. Um senhor de seus 65 anos, de leves gestos e andar cuidadoso. Seus parcos cabelos lisos estavam sempre bem penteados e pintados de castanho. Os óculos grandes, de aros dourados, completavam o figurino.

Carregava uma maleta de couro, sempre. Instrumento indispensável de seu trabalho. Lá dentro estavam as dores, as desilusões e o desespero de grande parte da cidade. Aquela figura pitoresca não era tão inofensiva quanto poderia parecer. Ele emprestava dinheiro a juros, conhecido popularmente como agiota. Mas esta denominação ele não suportava ouvir. No lugar, citava os mais diversos eufemismos, como “agente financeiro” ou “corretor de investimentos”.

Mais ou menos na mesma hora em que o velho acordava naquela manhã, levantava, também, Donizete, o pedreiro que sonhara casar-se com Marlene. Ela o abandonou por volta de agosto do ano passado, época da Festa de São Raimundo. Mas ele já havia arcado com a lua-de-mel no litoral, a Igreja, o salão de festas, a geladeira e a televisão para Marlene assistir a sua novela. Ficou com a tristeza e as dívidas. Trabalhava como um cão para pagar os juros que estavam anotados detalhadamente na maleta de couro do agiota.

O sonho de Maria do Carmo era ter um salão de beleza só dela. Acreditava que o baixo salário de cabeleireira recebido de Dona Josefa, onde trabalha há 23 anos, pudesse ser suficiente para pagar o investimento feito. Deu entrada no terreno, começou a levantar a casa que já imaginava ser cor-de-rosa e com plantas na entrada. Mas o dinheiro não deu para completar o projeto e a dependência daquele velho que tanto maldizia parecia ser eterna.

Roberto, também conhecido como Grace Kelly, queria mesmo era dar o pé dali. Sabia de algumas grandes chances na Itália, Espanha ou Portugal. Algumas amigas já sabiam do esquema, só faltava o dinheiro. Pegou emprestado para pagar a primeira parcela, mas só poderia deixar a cidade depois de conseguir quitar sua dívida, conforme alertou o agiota. Grace já não suportava mais viver naquele lugar, com as agressões, as noites escondidas com os figurões do município e as beatas que a hostilizavam à luz do dia. A necessidade de pagar os juros anotados nas cadernetas, dentro da mesma maleta de couro, deixava o sonho mais longe.

Mas, apesar de tudo, lá ia andando o velho pela cidade. Não se importava se sujaria seus sapatos lustrosos na poeira, ou se o seu terno contrastava com os shorts e Havaianas que cruzavam o caminho. Seu cotidiano seguia com a maleta e as habituais cobranças. Mas achou estranho o novo cliente e o endereço marcado, numa distante localidade, seguindo dois quilômetros de estrada de terra. Mas como ainda tinha muito fôlego e não gostaria de perder um bom negócio, seguiu firme.

Chegando ao local combinado, viu uma suspeita aglomeração. Lá estavam Maria do Carmo, Donizete, Grace Kelly, mas também Juliana, Sebastião, Francisco, Jorge da Padaria, Tomás, Maria, Fernando e Andrezinho Borracheiro. Num primeiro momento, o velho não entendeu o que se passava, mas, esperto como só ele, não tardou a ver que ali estaria selado o seu destino. Os rostos que o cercaram eram sérios, mas temerosos. A decisão era inevitável, mas a ação final dependia de coragem. Quem gostaria de ficar para sempre marcado pelo tiro de misericórdia?

Para o agiota, isso pouco importava. Lamentava que o seu fim pudesse ser numa situação tão absurda e ridícula. Mas a face orgulhosa não poderia transparecer isso. Não tinha filhos nem parentes próximos, portanto, ninguém lamentaria sua partida. Pelo contrário, aquela morte aliviaria o sofrimento de uma cidade inteira.

E assim foi feito. Não importa de onde veio o tiro, nem em que momento decidiu-se pelo principal assassino. A verdade é que a culpa por matar existiu, é verdade, mas foi menor que a felicidade de uma vida sem juros a pagar.

Grace conseguiu ir para a Itália, hoje vive feliz e espera o dia em que voltará para a sua cidade de maneira triunfal: rica e poderosa. Donizete casou-se com a Joana, filha do leiteiro, aproveitando o que já havia comprado. Porém nunca mais se esqueceu de Marlene. Maria do Carmo não conseguiu montar seu salão, mas abandonou a profissão de cabeleireira e ganha mais dinheiro vendendo Avon.

O agiota não teve nem flores, homenagens, choros, nem mesmo cerimônias. Enterrado como indigente, foi lembrado (mal lembrado) por uns e esquecido pela maioria. Sua casa foi declarada de interesse social pela Prefeitura e tornou-se o canil da cidade. Já o seu terno e a sua maleta de couro pararam num bazar beneficente e foram comprados por um senhor alto que passava, por acaso, naquelas imediações. -Foi uma bagatela!- pensou ele.

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  1. Muito legal mas bem melancólico….
    Gostei bastante…

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  2. Valeu pelo comentário!

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  3. muito bom, gabriel. dá vontade de que esse tipo de matança seja realizado, rs.

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  4. Pingback: Crônicas do Sessão « Sessão

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