Assinatura RSS

Arquivo do mês: fevereiro 2013

Perguntas sobre Solitário Anônimo

 

Eu estava um tanto triste e decidi caminhar. A locadora ficava no caminho e foi, como de costume, uma parada inevitável. Gosto de percorrer as prateleiras e observar os filmes, mesmo que não alugue nada e tenha que sair meio sem graça perante o olhar da atendente. Naquele dia eu não procurava nenhuma coisa indicada por amigos ou sucesso de críticas. A necessidade era descobrir algo diferente, que me falaria sobre o momento vivido por mim. Gosto de descobrir coisas ao acaso, em locadoras, sebos, bancas de jornal, livrarias, feiras… Algo que escapa à internet e ao que circula nas demais mídias e nos meios que frequento de amigos e ideias.

Descobri, então, que a sessão de documentários (campo/gênero cinematográfico que é foco de minhas pesquisas e trabalhos) estava agora numa sala a parte, semelhante aos filmes pornôs. Um nome me chamou a atenção durante a busca: Solitário anônimo, de Debora Diniz.

Assim dizia a sinopse:

Um idoso deitado na grama à espera da morte. No bolso, um bilhete anunciava ser de terras distantes. Não havia documentos ou posses. Seu desejo era morrer solitário e anônimo. Esse é o início do documentário que conta a impressionante história de um homem obstinado a planejar e controlar sua morte. É um filme sobre a liberdade, a vida e a morte.

Não percebi, portanto, que se tratava de um curta-metragem, nem poderia imaginar que era um filme disponível no You Tube. Mas valeu a pena.

Terminei o filme maravilhado. Impossível não se afeiçoar por aquele senhor que só quer morrer em paz, anônimo. Mas fiquei com várias perguntas na cabeça. Como estou disponibilizando o vídeo e acho chato escrever a parte descritiva, vou passar para algumas delas, que dizem um pouco das impressões que tive:

– Há alguma chance de sermos anônimos hoje?

– Há alguma chance de sermos sozinhos hoje?

– Se o documentário que acabamos de ver (junto com a maciça presença da imprensa) impede a possibilidade de anonimato somos, então, cúmplices? Cúmplices em transformar alguém que exigia morrer sozinho num “personagem”? 

– Seria ilógico fazer a pergunta acima, visto que essa discussão inexistiria se não tivéssemos assistido ao filme?

– Há, então, certos temas que não deveriam se tornar documentários? Como o de um homem em luta pelo anonimato?

– Ao filmar a violenta cena da sonda, onde o Anônimo estava vulnerável e lutava contra a vida, o documentário também comete uma violência?

– A luta pelo direito ao seu próprio corpo que o filme pode sugerir é algo que faz o filme valer a pena?

– Se o “passado é um monte de lixo”, o “presente é o real” e “o futuro é uma hipótese”, o que é o filme que vimos? Esta obra que guarda a resistência do Anônimo em viver?

Campinas

Campinas

relâmpago sem chuva

anúncio

do que não será

Hostilidade

(Talvez a grande paixão dos boêmios seja a possibilidade da noite. Campo livre para quem busca pessoas interessantes, com histórias de vida incríveis, alguém que falará sobre um livro ou um filme que você não conhece ou topará partir junto com você bêbado para algum lugar inusitado. A noite pode ser banal, onde você terminará no mesmo lugar onde começou, fumando, bebendo e pensando sobre você mesmo, mas pode transmutar-se  numa demonstração entrópica que lhe tirará dos eixos e o fará acordar numa casa estranha)

Eu a conheci por acaso, no bar. Ela vinha pela primeira vez à cidade, para fazer uma entrevista de emprego. Conversamos muito- tínhamos gostos e sonhos parecidos. Aos sair do bar, dispensei uma carona pra poder caminhar mais com ela e deixá-la em casa. Me despedi com aquela esperança curiosa, que articula probabilidades mil na cabeça de quem é bobo de verdade.

Uma semana depois recebo a notícia do êxito com o emprego. Começaria no outro semestre. Passamos a trocar mensagens e iniciamos uma relativa intimidade repleta de carinhos e planos. Tentei ajudá-la com questões burocráticas e logísticas para a sua chegada, além de aliviar as inevitáveis preocupações com o desconhecido. Eu prometia mostrar os melhores lugares da cidade e ela prometia me fazer entender Hilda Hilst, depois de tomarmos algumas taças de vinho.

A minha expectativa era grande e eu pensava nela quando estava triste.

Bem… não lembro como foi nosso primeiro encontro depois da sua chegada ou  talvez não saiba hoje descrever, exigindo ao texto uma elipse necessária. Mas posso dizer que algo estava diferente.

Entre nós passou a existir uma estranha hostilidade. Olhávamos com desconfiança e nossas conversas se aproximavam mais de provocações, afastando-se de qualquer possibilidade de afeto. Eu tentava ler a mente dela através de seu olhar cético e triste, adivinhando julgamentos sobre mim: “estereotipado” “desinteressante” “caricato” “chato” “vazio”. Como de fato ela apresentou uma imensa resistência à cidade, aliada a uma saudade de casa e de um antigo amor, eu representaria tudo o que ela odiaria naquele momento.

Discordávamos de tudo, de cinema à política. Eu falava sobre se abrir para o lugar e para as pessoas e ela dizia que aqui nós nos divertíamos com muito pouco. Nossos encontros foram ficando cada vez mais rápidos e raros. Se no início vivíamos brigando, no final compartilhávamos o silêncio num restaurante qualquer e eu me sentia intimidado pela sua inteligência e criticidade.

Resolvi não mais procurá-la quando percebi que a minha vontade de estar com ela atrapalhava a sua intenção de estar só e terminar suas obrigações. Mesmo com a decepção por tudo o que ela representou, retirando de mim aquela esperança de noites inteiras de conversas plenas, eu mantinha uma estranha curiosidade. Me conformei em tê-la como hipótese, até que a memória naturalmente tratasse de desfocar a imagem.

*

Ontem nos encontramos, por acaso, no supermercado. Trocamos os obrigatórios assuntos, o que você está fazendo da vida e coisas correlatas. Pensei em falar sobre a noite que vivi ontem e tudo o que conheci da cidade, talvez sobre o livro que li e saber se ela estava feliz, se encontrou um novo amor ou se tinha ido ao cinema… Falaria sobre as esperanças que tinha inicialmente e sobre as promessas que poderíamos agora cumprir.

Mas só perguntei sobre o emprego. E nos despedimos na fila do caixa.

Argumento 1: Cinema

Cena 1– Durante um festival de cinema começa uma discussão sobre a inclusão de experiências como vídeo-instalações e outras obras de arte contemporânea. Debates sobre os limites do audiovisual. (abertura para o improviso). Cortes rápidos. Sentado na platéia, nosso personagem principal está de mãos dadas com uma moça e vê tudo com olhos atentos.

Cena 2– um artista apresenta num auditório o seu trabalho: o “cine-venal”. É uma droga, injetável, que possibilita a intensa experiência cinematográfica dentro da mente.

Cena 3- O personagem injeta a droga. Câmera subjetiva de um vestiário de luta de box. Em off uma locução de rádio falando que esta é a última luta de  x (personagem sem nome), grande lutador consagrado. Entrada no ringue, câmera lenta.. Ainda em câmera subjetiva, o lutador recebe um nocaute.

Cena 4- Quatro pessoa discutem na praia. Um deles pergunta o motivo de estar ali. Os outros argumentam a favor de uma incrível experiência cinematográfica. Um deles pergunta como saberá se está ou não esquizofrênico. (abertura para o improviso)

Cena 5– O mesmo homem da cena anterior anda na rua e observa as pessoas.

Cena 6– Um âncora de telejornal informa que o cine-venal foi proibido pelas autoridades.

Cena 7- Um protesto de rua com uma faixa: “Marcha do cine-venal”

Cena 8- Num debate de TV, especialistas discutem a criminalização do cine-venal e as possibilidades estéticas e filosóficas da droga/instalação. (abertura para o improviso)

Cena 9- O personagem conversa na internet com uma mulher. Convida pra ir no cinema e ela diz que não pode, pois não está na cidade. Sozinho, o personagem assiste a um filme (provavelmente O som ao redor, de Kleber Mendonça). Na saída, encontra a mesma moça da cena 1. Eles se olham constrangidos e ela diz: “Eu voltei mais cedo. Achei que você iria em outra sessão”. Vê um rapaz chegando e se aproximando a partir da porta da galeria do cinema (provavelmente o atual caso amoroso dela). O personagem diz rapidamente: “tenho que ir” e sai andando rápido.

Cena 10- Na cama, se remexe como se estivesse num pesadelo. Acorda e começa a escrever o roteiro deste mesmo filme descrito neste post.

Cena 11– Novamente no cinema, o personagem sozinho observa as pessoas e em especial uma mulher grávida desconhecida sentando na poltrona.

Cena 12- O personagem observa o perfil no Facebook (ou de uma rede social fictícia) de um cineasta X. Ele pega seu email e manda o roteiro. Ele continua atualizando o email e não recebe respostas. Anda nervosamente pela casa e toma café.

Cena 13– O personagem vê uma matéria num portal de notícias, anunciando o novo filme do cineasta X. Ele abre e vê o trailer com a mesma história sua (mesmas situações, com outros atores).

Cena 14– Numa cerimônia de entrega de prêmio, durante um festival de cinema, o cineasta X se levanta pra pegar a estatueta. O personagem entra com uma arma, faz um discurso sobre a hipocrisia do cinema atual e do universo dos cineastas. Grita: “Viva Glauber Rocha!”- Dá um tiro no cineasta X e depois se mata.

FIM

Verdade

Parece que o tempo não sobrou pra olhar. Hoje o que era céu

é polo

e inverte-se segundo o que você diz fortemente convicta de tudo o que é relativo sobre ser em cima e ser em baixo.

O que conseguiríamos ver é a verdade:

a nuvem.

É a verdade,

não a realidade.

Ela é o movimento que me impressiona, vindo de nuvens tão belas quanto o ato de não sê-las mais. A verdade que não se reproduz, nem se aproxima.

Ê vem a chuva!

Fico leve, amando o que passou. Odiando o tempo que eu perdi

você morre em mim.

Eu pego o ônibus

eu sorrio sozinho.

– Primeira sessão: Medianeiras

-Última sessão: No

FIM

Créditos sobem

 

Adeus.

Para João Zinclar

Há alguns dias faleceu nosso companheiro João Zinclar. Fotógrafo e militante, ele estava conosco no Coletivo de Comunicadores Populares e em várias lutas na região de Campinas e em todo o Brasil. Como não estava por lá, acompanhei a triste notícia de longe e até agora não soube muito bem o que dizer. Até que ontem eu li um lindo poema da minha amiga Sofia Aguiar, dedicado à Victoria Ferraro, filha do João, me inspirando a escrever também, um poema.

Nos últimos anos tenho convivido com pessoas maravilhosas, que muito me ensinaram, me formaram e me levaram a querer ir além de todas essa merda em que estamos enterrados. Companheiros que hoje não estão mais fora de mim: São eles mesmos o que sou. João fez parte desta história e a ele dedico esse poema (em seguida o poema da Sofia).

O cartunista Carlos Latuff, João Zinclair, o cineasta Carlos Pronzatto e o cartunista João da Silva

O cartunista Carlos Latuff, João Zinclar, o cineasta Carlos Pronzatto e o cartunista João da Silva, Foto: Denis Forigo

 

Os olhos de João

Gabriel de Barcelos

O neném

quando descola as pálpebras

começa a existir

pela primeira vez

fora dele mesmo.

Observa o mundo

encara a todos com seus olhos arregalados

desafiando a tudo.

E nós

passamos a vida inteira a olhar as coisas.

Espectadores sentados

numa cadeira

infestada de pragas.

Assistimos a este mundo

de cercas e fomes

medos e dores.

Ser observadores da nossa tragédia parecia ser o nosso legado.

Mas João olhou diferente.

Olhou com olhos de sonho.

Olhos de ver.

E nós

olhamos junto com ele.

Junto com João

continuamos a ver a barbárie

que finge ser a ordem natural

de um mundo que nasceu para a vida.

Contudo, a sua fotografia é nossa história

nossa luta

e recusa-se a se separar da vida

e ser fetiche de galeria

ou artigo de decoração.

Estão juntos

em seu clique

os que seguram faixas

e erguem foices.

O menino sem-terra

de braços erguidos

nunca morrerá

assim como nunca morrerá João.

A fotografia é o tempo que para

pra continuar sempre andando.

A história que se congela

pra existir sempre.

No instante de João

continuamos seu movimento.

E ao pensar em João

e em todos aqueles com que lutei e aprendi

me envergonho

de pensar

em desistir.

Obrigado companheiro João Zinclar!

Até a vitória

 

Um partido no seu coração

Sofia Aguiar

Seu partido é o do coração
Nele esta embutido
O que é proibido nessa nação.

As suas regras são claras
As suas regras são coesas
As suas regras são essas:

Nada de papelagem
Nada de burguesia
Nada de falsa camaradagem

O seu partido do coração
É o partir para um destino
Partir para outros corações

Os que estão partidos
Pela fome
Pela miséria
Pela injustiça e ingratidão

Essa não-organização
É organizada
Para aceitar todos os tipos de membros

Sem classificar os cacos em ordem numérica
Mas sim juntá-los na ideia e na matéria
Que é o vaso inteiro

O seu partido do coração
Não é utópico
É trabalhador
Braços
Mãos
Pernas
Suor da dor

O seu partido do coração
Não quer partir a sociedade
Em nomes
Em muros
Em ruas
Ele quer juntar
Em uma
O que foi quebrado por eles
Em duas

Evangelistas Pagãos
Mulatos Loiros
Ateus Cristãos
Negros Pardos
Olhos puxados ou não

Só fica um requisito
Para entrar nesse partido:
Tem de ser
Simples de espírito

Porque na rachadura
Na pequena fresta do
coração
Não cabe egos
Grandes demais

Alguns tentam levar o carro
Alguns tentam levar o dinheiro
Roupas
Enlatados
Um puteiro inteiro

E tudo isso não cabe
Não passa
No partido do seu coração

Só cabe as palavras de paz
O amor das palavras certas
Aquelas que unem
As que reconstroem
Tantos corações partidos

As que tocam o profundo
Âmago da liberdade
Da igualdade
Por uma nova civilização

outro poema, do cineasta militante Carlos Pronzatto- http://africas.com.br/portal/carlos-pronzato-hasta-siempre-joao-zinclair/#.UQv1uB1QQiU

joao