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Silas em São Dimas de Dentro (parte II)

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(Parte I- https://sessao.wordpress.com/2010/02/23/silas-em-sao-dimas-de-dentro-parte-1/)

Silas acorda. Ainda está meio tonto e não lembra direito onde está, o que está fazendo e por que está fazendo. Na verdade sonhava segundos atrás. Ele estava numa bela cerimônia, onde todos trajavam black tie. Os vestidos longos e as jóias das damas eram belíssimos! Todos sentavam-se em mesas e um senhor com voz grave estava ao microfone. Ele falava sobre a importância do Prêmio Nobel. Peraí! Estamos na entrega do Nobel de Literatura! E acho que serei o vencedor! O primeiro vencedor, por minhas memórias mineiras. Estou pronto para receber. Quanta honra! Que realização! Mas quem é aquele que está subindo para receber? Quem é este? É o Thiaguinho, aquele menino que me batia e era o mais burro da sala? Meu Deus! Como isso é possível! Parabéns a Thiago das Neves, o primeiro brasileiro a vencer um Nobel! Não! Isso não é possível!

Em meio a tudo isso Silas acorda. Está perdido e não sabe o que fazer. Aos poucos vai rememorando a sua estratégia para escrever o livro para o concurso. Salta na graciosa rodoviária da cidade, uma antiga estação de trem, como em outras cidades por que passou no caminho.

Tem reserva no único hotel na cidade, mas resolve andar a esmo, um pouquinho. Passa por aposentados, carroceiros vendendo leite, carros tocando funk carioca que balançam como num terremoto. Até avistar a imagem que queria: um grupo de meninos andando de bicicleta animadamente, rindo e fazendo brincadeiras e manobras com o vento no rosto. Estes são os meus amigos de infância e eu sou um deles! Tenho que ir atrás destes símbolos da infância que passará a existir, agora!

Silas assim o faz. Vai atrás dos jovens e quer, desesperadamente, saber o que eles conversarão, para onde vão, como é a vida deles. Apesar de eles correrem bem, o grupo sempre para e faz alguma coisa, como dar um tapa na nuca de um, ou catar uma fruta numa árvore. Silas adora isso, e só não anota no bloco que trouxe por medo de perdê-los de vista.

Para onde eles estão indo? Para uma cachoeira? Observar as meninas trocando de roupa por um buraco? A busca continua por uns dez minutos. Até que eles chegam numa casa movimentada. Meninos cheios de espinha estacionam suas bicicletas e vão entrando, agitados. No lugar escapam gritos de empolgação e palavrões. Ao se aproximar melhor, Silas vê o que se trata. É uma lan house! Como assim uma lan house? Isso não pode fazer parte das memórias de Silas! Na época dele nem existia isso e em nada se relaciona com a bucólica memorialística que estava criando.

É verdade que na sua adolescência Silas foi muitas vezes no fliperama próximo a sua casa. Ele se identifica, um pouco, mas se recusa a aceitar que seu livro poderia se alimentar disso. Mas não desiste e continua a procurar seus personagens.

Silas anda pela praça, pelas ruas, observa as senhoras, os camponeses, os pedreiros, o padeiro, a carroça de algodão doce. Ele se cansa e resolve sentar no banco mais próximo.

Um vento gélido sopra no rosto de Silas, marcando o fim do dia. Depois de passados uns dez minutos aproxima-se um menino de uns 10 anos. Ele é franzino, calça um chinelo Havaianas branco, short azul e uma camisa do Barcelona falsificada e bem velha, provavelmente comprada nos idos de 1993, época em que Romário lá jogava. Foi comprada em alguma lojinha da cidade, para um primo seu, pode-se imaginar, visto que o jovem que estava ali nem imaginava nascer. Os dedos do menino eras cheios de barro e seus finos bracinhos sumiam perto de uma manga de camisa um tanto quanto grande para seu tamanho. Seu olhar era sério e concentrado. Não exatamente de tristeza, mas de curiosidade e tranqüilidade.

– Moço, cê pode me dá dinheiro para comprar um biscoito?

– Biscoito de quê?

– Recheado, de limão.

– Como você se chama?

– Matheus, cê vai me dar?

– Vou sim.

– Quem é você? Ta fazendo o quê em São Dimas?

– Passeando.

– De onde cê é?

– Moro em São Paulo, capital.

– E veio para cá pra quê?

– Já disse, passear, descansar.

– Mas moço, não tem nada pra fazer aqui!

– Tem sim. O que você faz?

– Jogo bola, empino pipa, essas coisas.

– O quê mais?

– Sei lá! Ando de bicicleta, jogo vídeo-game…

– Sei…

– E você?

– Sou funcionário público, auxiliar administrativo.

– Quê isso?

– Trabalho para o Governo, no escritório.

– A tá. Deve ser chato. Não tinha nada como piloto de jato?

– Não tinha não. Tinha só esse. Mas eu queria ser escritor.

– E por que não foi?

– É uma longa história.

– Quero ser piloto. E também motorista de caminhão.

– Para quê?

– Para achar umas coisas por aí.

– Por aí onde?

– Depois de São Dimas de Fora, depois do Açude dos Costas.

– O que tem lá?

– Nada demais, mas é o lugar mais longe que fui. Queria ver o que tem depois.

– Rodar o mundo?

– O mundo não, só saber o que tem depois.

– Entendo.

– O senhor sabe, né?

– O quê?

– O que tem para lá de São Dimas.

– Sei pouco, menos do que eu queria.

– Tem como me levar?

– Veja bem….. acho que não.

– Tudo bem. Acho que minha mãe ia ficar preocupada.

– É verdade.

– E o biscoito?

– Quanto é?

– Um real na venda ali.

– Tome.

– Obrigado.

– Você está sempre por aí Matheus?

– Tô sempre por aí…

Silas voltou para o Hotel Livramento, tomou um banho, leu o jornal e dormiu. No domingo acordou esperançoso, com muita vontade de encontrar Matheus. No seu pensamento suas conversas seriam incríveis! Quem sabe se tornariam amigos de verdade e ele levaria Silas para andar de bicicleta, empinar pipa e jogar vídeo-game? Quem sabe ele poderia ser como seu filho, ou irmão mais novo? Seriam inseparáveis!

O servidor de nosso Estado foi lá para o mesmo banco, onde se sentou e esperou, esperou e esperou. Passaram 62 crianças por lá até às 13 horas da tarde. E esse não era um número aproximado. Silas, que nada tinha para fazer contava uma a uma. Contou também os pássaros (46) e os carros (23 brancos, 82 no total). Foi numa pensão almoçar. Moço, já acabou! Aqui a gente almoça cedo! Mas arranjamo um prato procê!

Decidiu rodar São Dimas, perguntando sobre Matheus. Olhou em todos os lugares. Percorreu todas as ruas (tarefa que levou cerca de 45 minutos). Nada de encontrar aquela criatura de canelas finas! A noite chegou e Silas começou a sentir aquele ar de melancolia que vinha da barriga. O último ônibus para Horizonte Formoso era às 19 horas. De lá sairia seu ônibus para São Paulo.

Com a mala na mão, sofreu de quinze para as sete até cinco para as sete, a hora que finalmente tomou lugar na sua poltrona 25. Nestes seus 10 minutos na rodoviária, com uma água mineral na mão, pensou que pudesse ver Matheus pelo menos pela última vez. Os pastos que passavam pela sua janela eram acompanhados de uma trilha triste e nostálgica, que tocava em seu MP3.

A melancolia continuou em outra janela, na repartição, segunda-feira. Era uma janela que dava para um jardinzinho, usado agora de fumódromo pelos funcionários. Ao despachar os papéis, criou toda a história de suas memórias, por uma inspiração vinda da imagem de Matheus. Todos os capítulos já estavam em sua cabeça. Deixando a sua modéstia de lado, tinha certeza que aquele seria o livro vendedor do concurso. Mas, por algum motivo difícil de explicar, ele não sentiu nenhuma vontade de escrever, de compartilhar com o mundo aquela grande obra. Era sua vingança contra todos.

Às dez horas foi a sua habitual sessão no cinema velho. Encontrou seus velhos companheiros de cinefilia. Pegou o mesmo caminho para casa. Sua vida continuou a mesma e sua infância continuou como era antes, no mesmo apartamento, brincando com o mesmo playmobil. E assim continuou sendo Silas, o funcionário público, que faz lanches nos fins de-semana e que vai sempre naquela sessão das dez.

Gabriel de Barcelos

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