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A ordem e o caos: anotações sobre tempos interessantes

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“E com o bucho mais cheio comecei a pensar

Que eu me organizando posso desorganizar

Que eu desorganizando posso me organizar”

Da Lama ao Caos (Nação Zumbi)

 

Num texto anterior, eu refleti sobre algumas das características presentes no Movimento Passe-Livre. Suas origens nas manifestações sobre transporte no início dos 2000,  as influências do Zapatismo e dos Movimentos de Resistência Global, as suas formas horizontalizadas, as potencialidades e conflitos atuais dos movimentos horizontalizados. Contudo, as conversas com os amigos, a participação nos espaços criados pelas grandes manifestações e a leitura de alguns textos me suscitaram outras questões, que estão me inquietando. Isso me levou à vontade de tentar fazer algumas reflexões sobre alguns elementos centrais nestes processos atuais.

Ordem ou caos?

Muitos comentários recentes, da  direita à esquerda, do senso-comum ao aprofundamento teórico mais sofisticado, apontam para a falta de “direção”, “foco”, “pautas claras” e “organização” do movimento nas ruas. Enquanto uma parte da direita teme a perturbação da ordem capitalista, parte da esquerda alerta para a perda de uma direção progressista ou revolucionária.

Para pensar estes problemas, temos que ter em vista a existência de uma dicotomia existente fortemente em nossa cultura (ou nosso paradigma): a oposição ordem e caos. São associadas ao caos coisas como: uma manifestação sem o controle de dirigentes, o “descontrole” rumo à ação direta contra a propriedade material (“vandalismo”, para a mídia comercial), espaços organizativos aparentemente confusos, repletos da diversidade e visões sobre método, etc… O “caos” está presente mesmo quando são usadas outras palavras como “espontaneísmo”, “desorganização”, “esquerdismo”, “vandalismo”, “baderna”,  “desordem” e outras. Mas, podemos refletir: o que é o caos e o que é a ordem?

A ordem e o caos foram concepções criadas por nós, através de um sistema político, econômico, cultural e filosófico. Se formos mais longe no tempo, o Caos da mitologia grega (segundo Hesíodo) é a divindade primordial, representando a cisão, o imponderável, a confusão… A contraposição imediata (porém complementar) é seu filho Eros:  a unificação, a organização, a ordem. Não é difícil notar que esta narrativa está presente em grande parte da cosmogonia (teoria sobre as origens) das religiões conhecidas.

O que representaria, então, a ideia de ordem, dentro de nossa sociedade atual? Podemos citar alguns elementos para pensar, como a hierarquia e verticalidade nas relações, a separação clara do poder e a divisão social do trabalho, a democracia representativa, o lucro e a exploração, o pretenso bom andamento da rotina nas cidades e harmonia do dia-a-dia, o direito à propriedade, o privilégio do conhecimento aos intelectuais, as decisões tomadas apenas por líderes, etc…. O que concebemos hoje como ordem é, portanto, fruto das transformações históricas,  consolidando-se no sistema capitalista que existe há quase 300 anos e vem se sofisticando em seus instrumentos. Tudo o que consideramos como “caos”, existe em relação a uma “ordem”. E esta ordem é definida nestes termos.

Como estamos inseridos nestas referências, neste caldo cultural, está claro que há uma limitação discursiva e racional para pensarmos ordem e caos fora de uma concepção sobre o que é bom e o que é ruim. Mesmo a maioria das iniciativas mais anárquicas apressam-se em deixar claro que suas propostas não são uma mera “bagunça” e “desordem” (o que é perfeitamente legítimo e compreensível).

O que penso, por outro lado, é uma proposta de ruptura política e econômica que tente desconstruir essa prisão binária e limitadora. Acredito que não existe revolução sem o rompimento com a ordem. Contudo, não falo de uma ordem genérica (que não existe), mas sim dessa ordem historicamente construída (citada acima), responsável diretamente pela sociedade opressiva e desigual que conhecemos. A quebra da ordem pode ganhar muitos nomes (e muitos ainda a chamarão de caos), mas se coloca como princípio necessário para pensarmos e agirmos em termos verdadeiramente revolucionários.

As diferentes formas de ação direta e outros métodos (fechar avenidas, quebrar edificações do capitalismo, fazer greves, piquetes, ocupar terras, fábricas e prédios, etc…) geram uma perturbação da ordem (mesmo que temporária, na maioria dos casos). Elas atacam o lucro, a propriedade, o luxo, a propaganda, a circulação de mercadorias. Como fala Ned Ludd em A urgência das ruas, somente a recusa às expectativas e às exigências disciplinares dos indivíduos, gera o potencial subversivo e reivindicatório das lutas. Da mesma forma,  a organização política horizontalizada, auto-gestionária e livre quebra a ordem estabelecida dos senhores das decisões e do conhecimento. Ali, o diálogo, a comunicação e a troca substituem a pregação, a imposição, o depósito de ideias (leia a obra de Paulo Freire). As rupturas com a democracia representativa questionam nosso modelo político sistemicamente corrompido e a alienação das pessoas comuns da vida política (embora a exploração do trabalho, através das longas jornadas de trabalho, também seja um dos maiores impeditivos para a participação).

Hoje, quando nos deparamos com um cenário diferente e sujeito à dúvidas tanto em relação às diferentes formas de organização política, como sobre a radicalidade das ações, temos mais perguntas do que respostas. Mas algumas reflexões poder ser feitas no calor dos acontecimentos e as desenvolverei a seguir:

 

 

Quer quer manter a ordem?

Onde isso tudo vai dar? Essa pergunta é feita todos os dias, em tempos de ruas tomadas por manifestações e de espaços de organização política que se formam a partir delas. Palpiteiros (como o que vos fala) fazem análises diversas, se contradizem e se surpreendem. O texto escrito na semana passada já está velho, sujeito a novos elementos, pois em tempos conturbados, uma semana parece um ano, o relógio parece se mover mais depressa. O que vai acontecer? O movimento vai estancar? Vai morrer?Vai avançar em outros espaços organizativos? Retornará a “vanguarda” de entidades burocratizadas? Haverá uma unidade das diferentes esquerdas? O movimento vai partir para cima dos grandes eventos esportivos? Vai ganhar força nas periferias e movimentos sociais?

Os atos, as diferentes ações e os espaços organizativos (como reuniões, assembleias) refletem essa incerteza. Como chegar à uma síntese de todas essa diversidade? Como construir uma unidade de todas as propostas, análises políticas, interesses e métodos?

Ao ir num ato onde há manifestantes mais radicais, nunca se sabe o que vai acontecer. O conflito entre os radicais e os militantes de entidades defensoras de métodos mais moderados é uma constante, assim como todas as diferenças geradas pelas discordâncias sobre como deve ser uma manifestação. Este impasse está longe de ser resolvido.

Voltemos, então, ao tema da dicotomia caos/ordem. Se continuarmos tendo como referência à ideia burguesa sobre ordem, de fato estaríamos caminhando para algo ruim. Mas, se retirarmos os juízos de valor absolutos e pensarmos estas formas de organização e ação como propostas políticas diferentes do estabelecido pela ordem atual, poderemos percebê-las em sua potencialidade.

Porém,  é importante nunca romantizar qualquer método de ação política e de organização. O que está sendo feito, ainda de forma nebulosa, é experimental, está sendo construído. E o medo sobre os rumos do processo podem ser o reflexo de um conforto com a ordem estabelecida. Tanto o conforto do sistema capitalista de forma mais assumida, como de suas estruturas refletidas em muitos movimentos de esquerda.

Os jovens da periferia que jogam pedras na polícia já apanham constantemente por serem negros, pobres. O oprimido radicalizado sente apenas o ódio de um sistema que lhes oprime todo dia. (Basta conversar com a galera nas manifestações para perceber isso). Os que têm muito a perder (materialmente, simbolicamente) com a perturbação da ordem, sentem, naturalmente, mais medo. Enquanto muitos não querem perder seu privilégio de classe, outros não querem perder suas sólidas estruturas de poder, seus monopólios da verdade, sua burocracia, seus valores, seu prestígio.

Não seria, então, justamente a perturbação da segurança daqueles que já possuem seu quinhão neste sistema, o elemento provocador de mudança?

 

 

Acaso e revolução

Momentos conturbados como os de hoje dirigem-se rumo às incertezas da história. E devemos ter a clareza de que quanto mais provocarmos a ordem, maior será a indefinição do futuro. Quem tem medo, quer conservar o que acredita estar bom no presente. A revolução não virá, porém, senão do risco. O caos, desde à mitologia, é o imponderável, o incerto. E o acaso, assim como a ordem e o caos, não existe em si, ele é justamente o que não conhecemos, o que não existe. E se defendemos um mundo que está para além do Capital e do poder, devemos tentar perder nosso chão agora mesmo.

O “acaso”, portanto, é o risco de buscar algo diferente da ordem, algo que supere o capitalismo. Por não existir hoje, é imponderável. E por ser imponderável, podemos reconstruir, repensar, tendo a consciência de que nada é natural e sim inventado por indivíduos, grupos, sistemas. Formas diferentes de organização, de propostas econômicas, políticas e culturais sempre serão mal vistas dentro de nosso presente, nosso paradigma. A luta revolucionária deve sim tentar garantir direitos básicos dentro dos espaços públicos que conseguir alcançar. Porém, tentar pensar outra sociedade repetindo os padrões da ordem atual é apenas uma ação de legitimá-la.

Me parece equivocado o posicionamento de alguns grupos de esquerda em apenas substituir o topo do poder para uma orientação mais progressista ou revolucionária. Trata-se da manutenção das relações verticais, da divisão intelectual e do poder político de alguns. Isso pode acontecer tanto na presença de especialistas do saber iluminado e nas divisões burocráticas e hierárquicas atuais, como na ideia de que o Estado Burguês tal como existe deve apenas ser tomado e redirecionado por um outro grupo. Essa concepção apenas repete a lógica da ordem burguesa.

Mas ressalto que o acaso e o imponderável citados não são o relativismo cínico dos intelectuais que lavaram as mãos perante o mundo. Por outro lado,  dentro deste processo, acredito firmemente que devemos fazer propostas para nos organizar,  lutar pela derrubada do sistema em que vivemos e pensar outros tipo de sociedade. Para mim e outros grupos de afinidade, por exemplo, a proposta se baseia no constante confronto com o Estado e o Capital, junto à organização popular, tendo como horizonte a derrubada/rompimento da ordem estabelecida (econômica, política, cultural) e a construção do poder popular e do socialismo. (Não haverá espaço aqui para desenvolver o assunto, que voltarei em outro texto). Mas é claro que existirão também outras propostas políticas diferentes da que citei, que deveremos confrontar em espaços abertos, nas trocas e no debate político. As ideias são apenas um ponto de partida necessário, mas se moldam na prática cotidiana, na relação orgânica, na dialética, num processo aberto e indefinível. Olhar o mundo a partir de algo totalmente fechado, é colocar a humanidade inteira dentro de uma gaiola de laboratório, apenas para confirmar a sua tese.

Ao conversar com uma militante de uma entidade de esquerda, ouvi que minha análise sobre os fatos desse momento histórico, baseada no tête-à-tête na rua, era “impressionista” e a da entidade dela era “científica”. Eu sei que ela queria me desqualificar e criar uma hierarquia autoritária sobre os discursos. Então lembrei de uma citação do Monet: “Quero o inapreensível. É espantosa essa luz que escapa, levando a cor consigo.” Acho que minha vontade é bem mais captar esse instante que é movimento, que se transforma. Hoje não é mais o que era ontem. E nesse processo vamos construindo algo diferente do que existe. Prefiro isso do que numa análise mítica, estática, baseada em pressupostos sólidos e não numa relação orgânica com o real. O que era uma desqualificação arrogante, me fez pensar mais ainda no assunto.

E é justamente a indefinição que possibilita qualquer potencial revolucionário. Quando me perguntam se eu “acredito” na revolução ou no socialismo, eu me recuso a responder. “Acreditar”, para mim,  é algo da ordem da religião, da futurologia, ou da simplificação otimismo/pessimismo. Haverá um mundo socialista? Poderíamos responder: “Pode acontecer” ou “Pode não acontecer”. A simples dúvida, junto à necessidade de assumir como necessário o rompimento com o nosso sistema, traz uma grande abertura para todos nós partirmos para a luta e tentarmos construir a revolução. Se é indefinível,  se não aceitamos o discurso de que o capitalismo é o fim da história, podemos ser agentes da mudança. Não trata-se nem de uma escolha individual, nem de uma estrutura/sistema que paira  sobre nós, inalcançável. É uma ação coletiva, composta de ações, decisões, vidas, experiências, trocas, lutas, que não podem ser negadas em sua diversidade, mas devem se articular em unidades possíveis.

Ordem e Progresso

Por fim, gostaria de lembrar um símbolo que apareceu muito nas manifestações: a bandeira do Brasil. Quando os atos do Passe-Livre se massificaram, a presença de símbolos nacionalistas se fez presente de maneira ampla. Não vou entrar no mérito da complexidade desse tema tão debatido (que falo um pouco aqui). Mas a frase “Ordem e Progresso” não poderia sem mais simbólica para o momento. “Progresso” é o que estamos percebendo neste projeto desenvolvimentista do Estado, de extermínio indígena e grandes obras, latifúndio, devastação ambiental, grandes eventos destruidores, políticas higienistas nas cidades e outros. Este progresso é aquele que pensa apenas no desenvolvimento de um sistema econômico e no benefício de poucos. E a ordem é a defesa destes mesmos interesses.

A frase positivista, inspiração para nossa bandeira, é a defesa de nossa violência, nossa miséria, da crueldade da nossa história. Por isso não podemos ter medo de dizer que negaremos essa ordem. E, mais do que isso, queremos destruí-la, superá-la. Afinal, “Ordem e Progresso” é só algo que alguém escreveu numa bandeira. Nada mais do que isso.

 

 

Gabriel de Barcelos

com a colaboração de conversas com vários amigos, como João da Silva, Maisa Calazans e das ideias surgidas na elaboração do fanzine Poder Popular, com os amigos Batata sem Umbigo, Guga Chaves, Arthur Prado e Gustavo Zullo.

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