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Arquivo do mês: agosto 2010

O dia da efêmera

Publicado em

Gabriel de Barcelos

É verão. À noite, milhares de mosquitos voam ao meu redor, gritam no meu ouvido e se interpõem entre eu e a televisão. Até tentaria exterminar todos eles, mas sei que é uma briga desigual. Eles são muitos!

Gosto de insetos, na verdade. Gosto de observá-los, examinar seu comportamento, ainda mais quando posso alimentar um prazer mórbido de ver um predador dar cabo de outro bicho. Na verdade, é triste. Mas o que posso fazer?

Internet: lar da inutilidade, da superficialidade. Com algumas informações. Na verdade muitas delas. Informações para preguiçosos, principalmente. Ao mesmo tempo em que são formados intelectuais de almanaque (como eu), destrói um pouco a torre de marfim onde moravam apenas umas vinte e sete pessoas. Mas não vou discutir isso agora. Os oráculos da rede estão aí para quem quiser saber mais sobre estas contradições. Eu gostaria de falar sobre o dia em que resolvi procurar mais sobre alguns invertebrados que me perturbavam, além de outros. Não pensem que fiquei apenas na Wikipédia, meus caros! Sites acadêmicos e pesquisas de senhoras e senhores sérios. Foram papers, teses, artigos renomados…

Provavelmente esta seria mais uma pesquisa que acabaria logo, em poucos dias. Da mesma forma como foi com meu repentino interesse por armas medievais, pelas artes plásticas russas do século XIX ou pela jardinagem zen-budista. Toda esta curiosidade poderia se concluir rápido se não fosse ela: a ephemeroptera. Ou, como digo com mais intimidade: a efêmera.

A efêmera constitui o grupo mais antigo entre os insetos alados. Mas não é esta a característica mais fascinante dela. As ephemeropteras vivem apenas um dia. Na verdade é um dia de fase adulta, chegando até a dois. Podem sobreviver bem menos, cerca de duas horas. Igualmente interessante é o fato delas alcançarem até três anos de vida na fase de larva (ou ninfa).

Ou seja, vivem três anos aguardando o grande dia. Realizam a metamorfose e partem para a luta. Elas não se alimentam na fase adulta e a sua curta vida é dedicada à reprodução e à postura de ovos para a próxima geração.

A coisa começou a ficar séria. Aventurei-me a ler livros, procurar professores, conferências. Ninguém na Academia entendia o que aquele técnico em informática fazia ali. Comecei a perturbar a paciência dos pesquisadores, querer freqüentar os laboratórios.

O motivo desta obsessão parece óbvio. Efemeridade, sentido da existência, morte… Quando escrevemos sobre estes temas a semelhança com a auto-ajuda parece evidente. Difícil falar sobre isso sem cair nos clichês. Mas, mesmo assim, estas malditas questões que infernizam nossas cabeças desconhecem as críticas literárias e seus modelos.

Como poderia algum ser vivo existir apenas por um dia? Trazia-me grande melancolia, no princípio. A finitude da vida é algo bem invisível, embora seja cada vez mais visível com a idade. Observando a efêmera posso ter uma noção ampla disso. Ela e outros invertebrados de tempo limitado me destroem! Jogam-me na cara o real. Muito embora eles sejam muito mais bem resolvidos do que eu em relação a estes problemas.

Mas estudá-las teoricamente já não era  suficiente para mim. Decidi que o sentido de minha existência poderia ser encontrado quando acompanhasse o dia da efêmera, pudesse ver como ela se desenvolveria durante a sua existência adulta. A única maneira que encontrei de viabilizar este projeto foi tentar realizar um documentário. Não seria uma produção aos modos de Discovery Chanel, é claro. O filme seria sobre todas estas grandes questões da existência a partir do registro da ephemeroptera.

Comecei a buscar auxílio, procurando os acadêmicos que eu já havia torrado a paciência antes. Sou um narrador em primeira pessoa e não uma voz onisciente que conhece os pensamentos dos personagens. Mas posso-lhes garantir que todos eles pensaram o mesmo quando me viram: “De novo aquele chato das efêmeras!” Precisava de informações, acompanhamento, material e ajuda institucional (principalmente dinheiro). Foram unânimes em me apontar a inviabilidade, ou mesmo o absurdo da minha idéia. Procurei documentaristas, cinegrafistas, canais de televisão. Toda esta luta durou cerca de dois anos.  Foi quando encontrei um maluco, (talvez quase tanto quanto eu), que desenvolvia projetos parecidos no Pará. Ele me conseguiu vasta estrutura para concretizar o documentário.

Depois de um tempo de preparação lá fui eu. O dia da efêmera seria 14 de novembro, um sábado- dia sagrado, evidentemente. Não sou religioso, mas esta experiência começou a alcançar um caráter profundamente místico. Cerquei-me de uma série de regras e compromissos comigo mesmo e entre eu e a efêmera. Precisava ser um ritual puro, onde me encontraria, de verdade com o ser que daria sentido a toda a minha vida. É claro que isto não estava claro para a pequena equipe que me acompanhava, imaginando ser aquele mais um documentário cabo ou institucional.

Filmamos alguns dias da ephemeroptera na sua forma de ninfa, além do seu estágio intermediário, de subimago, quando ela já adquire asas. Tudo isso até chegar o grande dia: a metamorfose, quando deixa de repousar sobre os corpos d’água, levanta vôo e segue em frente.

Eis que se inicia a curta, porém fundamental, missão dela. Vi a sua infância ao final da noite, sua adolescência pela manhã, sua meia-idade durante a tarde e seu envelhecimento ao cair a noite. A efêmera fugiu dos predadores, conviveu com outros insetos, plantas, águas e conheceu o amor, deixando o seu legado para a posteridade na forma de ovos. É desnecessário falar da tristeza que foi ver a morte de alguém que acompanhei durante sua existência inteira.

Registramos, vimos e revimos o material. Sem dúvida, nunca me senti tão completo. O documentário ficou fantástico!

Mas num dia voltei para casa e sentei na minha velha poltrona furada. Naquele minuto passei a pensar de forma totalmente contrária ao que vivenciara até então. Passei a achar que tudo o que tinha feito era parte de um grande projeto narcisista, que eu pouco me importava com a efêmera e a usava para satisfazer meu ego. Naquele momento desejei ser um religioso fundamentalista para poder me auto-flagelar. Mas, certamente, eu era um grande covarde até para fazer isto.

Invejei a efêmera e a sua irritante perfeição. Como pode a existência de um dia constituir algo tão harmônico? E vi que minha experiência fracassou.

Não quis mais saber do filme, muito embora alguns produtores o tenham levado para festivais e disponibilizado na internet. Por alto soube de algum sucesso de crítica, dos elogios de um certo escritor chamado Fenelon Gomes.

Poderia ficar rodando festivais, freqüentar coquetéis na Europa, vestir black tie. Começar a fazer documentários pessoais cheios destas “idéias originais”. Não quis.

Mas, por outro lado, não desejei enlouquecer verdadeiramente com meu fracasso, ficar na rua (ou num sanatório) esperando a morte inevitável. Continuei sendo técnico em informática, fazendo exatamente a mesma coisa que fazia antes. Talvez esperando a morte por aqui mesmo.

Outros interesses menos arrebatadores surgiram: povos pré-colombianos, nanotecnologia, culinária mexicana, poesia parnasiana. Não quis saber mais de invertebrados e contratei um competente serviço de dedetização. Finalmente poderia ver televisão em paz.

Fontes consultadas:

As espécies de ephemeropteras (insecta) registradas para o Brasil

Ordem Ephemeroptera (Arthropoda: Insecta)

Wikipedia

Poltrona 21

Publicado em

Gabriel de Barcelos

Escolho a poltrona 21. Bem no meio. Aqui corro menos riscos de acidentes no ônibus. Posso evitar a morte tanto numa colisão de frente como numa batida na traseira

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Sento.

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A janela não abre. Ônibus com ar-condicionado.

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Pessoas choram a despedida e acenam. Não sei quem são.

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O sol está lá na frente, morrendo. Mas não vou passá-lo só por que o ônibus se movimenta. Isso sempre me intrigou!

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Bem vindo animais na pista. Voltem sempre, mas, cuidado! São Paulo a 100 km e a velocidade máxima é de 80 km por hora.

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Barrigudo toca para moreno esperto e ágil, que faz lindo lançamento para baixinho com topetinho. Ele parte e fica cara a cara com o goleiro, se prepara para chutar e……

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A cidade de Campo das Matas convida a todos para a grande festa da Exposição Agropecuária, que será realizada no dia…..

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Saiba como ganhar dinheiro em casa. É muito fácil! Você só precisa de…..

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Bela moça olha para mim com rosto de interesse. Acho que é o grande amor da minha vida, que nunca mais verei. Ahhh! A quem quero enganar? Este vidro é fumê!

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Que cidade é esta que estamos passando? Quantos habitantes tem? Qual sua a sua principal atividade econômica? Para onde vão as meninas de 16 anos quando estão tristes?

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Imaginação erótica da madrugada. No curral um casal trepa violentamente. Tudo antes das cinco, quando já chegam os primeiros retireiros.

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Amanhece na nova cidade desconhecida. A padaria abre, o bar fecha. A moça põe o pão na cestinha da bicicleta, o moço bêbado sai empurrado do boteco.

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Cheiro ruim de bicho morto. Urubus. Penso que gostaria mais de ser comido por urubus do que por vermes no caixão.

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Acidente na estrada. Todos os passageiros olham para um lado. Eu olho para o outro.

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Moça com cabelos castanhos tira o retrato do rapaz da bolsa. No próximo ponto estará seu namorado com flores. Eles brigaram, mais vão fazer as pazes. Finalmente ficarão juntos. Tudo se resolverá e eu assistirei de camarote!

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Ãh? Chegou? Cadê a moça castanha? Meu Deus! Meu Deus, ela saltou! Eu estava dormindo e não vi a conclusão desta história! E agora? Como poderei viver?

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Será que tem ônibus circular a esta hora? Como será que ficou a classificação do Brasileirão nesta rodada? A minha mala é aquela marrom. Obrigado.

Gog

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Um grande poeta brasileiro da atualidade:

MIS- Campinas corre perigo

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Estamos vivendo uma era de destruição dos Espaços Públicos. Demolição das discussões, da convivência, da arte, da educação, do passado, da política num sentido mais amplo. A tentativa da prefeitura acabar com o MIS (Museu da Imagem e do Som) de Campinas é um sintoma disso.

Veja a matéria completa no site do Coletivo de Comunicadores Populares:

http://comunicadorespopulares.org/?p=2007

Miséria 4

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Chegou às ruas a Revista  Miséria 4, dos quadrinistas João da Silva, Batata e Floc. O negócio ta bonito (quer dizer….bonito é algo que não se pode dizer da Miséria). O conteúdo está muito bom e diversificado. Neste número colaborei com o conto “O bicho e a celebridade”.

Em breve escreverei mais..

http://miseriahq.blogspot.com/2010/08/agora-sim.html

Pereio

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Sugestão para capa da Época

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Montagem de Rogério Marcus