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Arquivo do mês: setembro 2012

Eu tenho a minha dor

De mais ninguém- Arnaldo Antunes

Se ela me deixou a dor,
É minha só, não é de mais ninguém
Aos outros eu devolvo a dó
Eu tenho a minha dor
Se ela preferiu ficar sozinha,
Ou já tem um outro bem
Se ela me deixou,
A dor é minha,

A dor é de quem tem…

É meu troféu, é o que restou
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor,
Eu tenho a minha dor
A sala, o quarto,
A casa está vazia,
A cozinha, o corredor.
Se nos meus braços,
Ela não se aninha,
A dor é minha, a dor.

Poema que inspirou a letra da música acima

Dor Elegante- Paulo Leminski

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Versão da música do Arnaldo Antunes,  com a Marisa Monte:

Fra Leminski

ANCH’IO SON PITTORE

fra angélico

quando pintava
uma madona col bambino
se ajoelhava e rezava
como se fosse um menino

 orava diante da obra

como se fosse pecado
pintar aquela senhora
sem estar ajoelhado

 orava como se a obra

fosse de deus não do homem

 

Paulo Leminski

 

 

(Juízo Final- Fra Angélico)

O vômito

Certo domingo, Fenelon acordou mal. Lembrava vagamente de ter bebido muito e sentia cheiros estranhos em todo o seu corpo e roupa de cama. Sua cabeça girava e recebia, como numa marcha militar, tiros simetricamente espaçados em meio a esmagamentos torturantes. Localizava cada parte de seu cérebro, assim como cada pulsação, cada sinapse, que gritava a sua existência ao arrotar movimentos que poderiam ser telegrafados numa câmera lenta, percebidos em seu peso. Se agarrou mais uma vez ao lençol, ao travesseiro. Começou a chorar por sua desgraça, mas olhando o seu próprio ridículo, gargalhou alto. Tão alto que até a vizinha escutou. Repleto de suor e outros fluidos, arrancou a sua roupa com força e tentou, raivosamente, se masturbar. Sem sucesso, seu pau mole lhe olhava. Fenelon gostaria de se separar dele, mas aquela deveria ser a prova de sua impotência metafísica.

Não conseguia levantar, assistiu programas esportivos com jornalistas imbecis engraçadinhos, entrou na internet e, já no fim da tarde, louco para mijar, beber água e tomar banho, ele acordou. Sentia um cheiro podre e, depois de abrir a geladeira e tomar sua água, percebeu que a sua pia estava toda coberta de vômito. Não se lembrava de ter vomitado, mas eles todos estavam lá: o feijão, o arroz, o espinafre, o tomate, o bife. Todos boiando no molho rosa de um vinho barato, de texturas e formas diversas.

Depois de comer, beber e se lavar, resolveu voltar para a cama. Não conseguiu limpar a sujeira. Não possuía forças. A preguiça da ressaca se juntava a certa imobilidade de existir e à vergonha do que fez. Precisava arrumar a casa, mas não conseguia. Precisava voltar a estudar para o concurso, mas não queria. Preferia dormir e se entorpecer em sonhos vividos através de fragmentos cochilados.

Acordou na segunda-feira e se dirigiu novamente à cozinha. Depois de pegar água sanitária, sabão e pano, percebeu algo estranho. Estava com a ligeira impressão de que o vômito havia aumentado. Aquilo parecia absurdo! Novamente não conseguiu limpar e rastejou até a TV, onde viu um filme de cachorro na Sessão da Tarde. Pediu uma pizza, leu duas páginas da sua apostila e dormiu novamente.

Nos dias seguintes se negava a ir até à cozinha. Sofria com aquele cheiro ao lado que, mesmo com a porta fechada, anunciava seu fracasso como gente. Tentar começar a arrumação já era impossível e ele vivia com aquele transtorno, onde assumir a inércia para que tendia, de forma retilínea,  era algo necessário. A crise entre “vontade” e “ação” invadia, de forma profunda, a sua reflexão. Imaginava a limpeza da cozinha e a sua casa toda arrumada. Depois o concurso que faria e passaria, a mulher com que se casaria, sua casa e crianças. Viveria feliz e com dinheiro. Tudo faria sentido. Faria muito sentido mesmo! E ali ficaria tranquilo, deitado e pensaria. Pensaria no cachorro que lambia seus pés enquanto a menina gritava: “paieeee! o Felipe tá mordendo minha orelha!” E pensaria novamente em tudo que fez. E pensaria no que lutou. E que tudo começou pela faxina da cozinha. E sentiria que estava cagando e andando para tudo aquilo. E não conseguiria mais sair da cama. E voltaria para onde estava.

Acordou novamente com um som estranho, de borbulhares. Correu para a cozinha e viu um cenário estranho e interessante. O vômito havia se espalhado por todo o cômodo e diversas bolhas se acumulavam, movimentando-se e estourando. Predominava um vermelho amarronzado, mas com alguns tons de verde, dos fungos e do amarelo geral. O cheiro era insuportável, quase como um soco no nariz. Mas Fenelon foi se acostumando até ficar viciado e gostar de estar somente na cozinha. Os dias foram se passando e a comida acabando. Fenelon percebeu que aquela gosma espalhada poderia se comestível. A sua vida foi se resolvendo e ficando retroalimentada. Cagava, mijava, bebia e comia, tudo no mesmo local. Sentia a totalidade de uma vida interligada, onde a sujeira já não importava mais.

O vômito foi se espalhando pela casa, grudando nas paredes, chão, teto. Sua casa parecia uma instalação artística, com cores psicodélicas, desenhos dos mais diversos. Fenelon sorria e se admirava. Abraçava o macio daquelas gosmas e ria de uma desgraça feliz.

Eis que um dia uma parte do vômito foi se descolando e tomando forma. Uma figura humanóide apareceu e se apresentou como Jarbas. Ele era baixinho e rosa, muito simpático, acabando por se tornar amigo de Fenelon. Eles jogavam vídeo-game, falavam mal das reportagens do Fantástico e batiam papos sobre as estranhices da vida.

Três semanas depois, no mesmo lugar, surgiu Félix. Bem maior e de cor verde, ele era uma  bonita e vistosa gosma. Era mais sério e discursava sobre política e filosofia. Fenelon adorava as suas palestras e se fascinava por aquela figura. Como não poderia deixar de ser, Jarbas sentia ciúmes e desdenhava. Tentava sabotar seu semelhante e, dizem por aí, tentou afogá-lo num pequeno laguinho alaranjado, ao lado do criado-mudo.

Mas a surpresa maior aguardava Fenelon numa quarta-feira. Ele acordou com uma voz feminina conhecida, que o chamava gritando. Sentada numa mesa da cozinha estava a sua ex-esposa, Dora. Ela parecia um zumbi mutante, formada por todo aquele vômito, mas, com certeza, era Dora! Lembrava da última vez que a havia visto, justamente naquele triste dia de rompimento..  foi a  viagem para Porto Seguro.

Agora ela estava lá!  Abraçou-lhe e disse que agora era a hora de recomeçar tudo. Com nojo inicial de beijar aquela boca fedida, logo cedeu e os dois passaram a viver uma nova lua-de-mel.

Uma quarta figura iria aparecer. Era terça de madrugada e Fenelon, Dora, Félix e Jarbas assistiam a um musical antigo no Corujão. Um pedaço de vômito grande caiu do teto, gerando grande susto. Os quatro observaram aquela metamorfose lenta, mas bela. Fenelon abraçou, quase como num transe, aquela pessoa que se formava. Intuía estar ali algo muito importante, que lhe encaminharia para algo parecido com a felicidade. Ele tinha razão. Era Thaíssa, seu grande amor!

(Após o divórcio de Dora e a solidão, Fenelon havia vivido um estado semi-letárgico na cama. Conseguiu tirar forças sabe-se lá de onde foi para uma sessão durante a tarde, onde conheceu uma menina de apenas 19 anos chamada Thaíssa. De olhos tristes e voz mansa, se apaixonou perdidamente e entendeu seu universo antes mesmo de conhecê-la. Viveu um intenso romance de dois meses, onde ele tinha a certeza do fim próximo, da óbvia efemeridade da situação. Parecia claro que Thaíssa iria embora sem avisar, mais cedo ou mais tarde. Um triste óbvio de aceitação impossível!)

Mas agora ela estava lá. Ela havia voltado! Ele a abraçou tão profundamente,  que esqueceu de uma Dora agora chorosa. Imersos naquela bolha, Fenelon e Thaíssa se fundiam, misturavam-se numa dança melada em meio ao vômito. Dora tentou ir embora, mas não conseguiu.

Dias depois, quando saíram os dois do casulo, não havia mais possibilidade de harmonia. A guerra se apoderara da casa. Brigavam Thaíssa, Dora, mas também Félix e Jarbas. O sangue e a violência foram extremos, intensificados pela possibilidade regenerativa dos órgãos dos habitantes da casa. Fenelon, que era exceção nestas qualidades mutantes e que não gostaria de se misturar, se isolava e falava com os outras pessoas pela internet. Procurava antigos amigos, lia sites de notícias e esquecia as quatro aberrações.

O ódio entre eles era tão intenso, mas tão intenso, que se transformou em orgia. Ao finalmente levantar da cadeira, Fenelon viu aquela cena bizarra, onde Félix enfiava seu pé e mãos modificados dentro da buceta de Dora. Enquanto isso, era chupado por Thaíssa. Eles se revezavam nas mais diferentes posições permitidas permitidas pela maleabilidade do material constituinte de seus corpos. Corado de inveja e ciúmes, Fenelon tentava desesperadamente entrar na brincadeira, mas não conseguia andar, pois o chão o impedia totalmente de chegar mais perto. Desesperado, gritava, pedia  socorro, mas não era ouvido. Foi, então até à cozinha e resolveu pegar uma batedeira, depois de muito mergulhar na confusão de pratos, eletrodomésticos e melecas. Conseguiu ligá-la e cortou toda a gosma, assassinando, sem dó, todos os quatro mutantes. Depois de consumada a chacina, resolveu ir dormir em cima dos escombros.

Tudo era calmo agora. Mas às quatro horas as consequências do ato libidinoso começaram a aparecer. Centenas de ovos surgiram espalhados pela casa e Fenelon, ensandecido, tentava quebrar e comer todos. Os filhotes horríveis iam irrompendo as cascas e se deslocando por banheiro, sala, quarto… Os bebês demoníacos começaram a atacá-lo com mordidas e arranhadas. Fenelon, sangrando, chorava alto, mas juntou forças para matá-los com a batedeira. Minutos depois dessa batalha, só havia restos mortais e vômito.

Fenelon caiu exausto, olhando todos os restos. Respirou fundo e tomou uma decisão. De forma surpreendente, Fenelon finalmente resolvia sair de casa. Enfrentava, depois de meses, a brisa e o frio sutil do sereno.

Deu um meio sorriso e foi mancando, todo cagado de vômito e ferimentos até o supermercado da esquina. Causando horror nas famílias e nos caixas, pegou o carrinho de supermercado e colocou todas as bebidas que caberiam. Espalhou as garrafas e começou a beber, num ritual que lhe deu toda a força para viver. Bebeu vidros grandes e pequenos, coloridos e transparentes, arrotou sentindo o cheiro do álcool que se misturava no sangue.

Depois de muitas e muitas horas, seu corpo foi ficando leve, como nunca antes havia experienciado. Estava confortável e pleno. Pensamentos eram esvaziados e ele finalmente vivia o presente, sem nada além. É quando finalmente se sente à vontade para expelir seu maior vômito, este agora inesquecível. Ele se mistura com todo o vômito da casa e, numa reação química não explicável pela ciência, todo o material flui em movimentos virulentos. A gosma o cerca e o acolhe, num último aperto.

Sorrindo, dá seu último gole, que esquenta a garganta. Ao terminar e fazer uma cara de satisfação, recebe o abraço final do mar de vômito, caminhando tranquilamente para a mais doce eternidade.

Gabriel de Barcelos