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Para encontrarmos nossos eixos!

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Fiquei um tempo sem entrar nessa polêmica sobre o Fora do Eixo, para evitar conflitos desgastantes. Mas sinto que é importante me posicionar não para continuar brigas intermináveis, mas para tentar pensar debates que nos faça avançar. Acho que o grupo levanta questões muito importantes e que venho discutindo muito nos coletivos que participo: como financiar projetos de cultura e comunicação popular, livre, alternativa, independente? Como podemos viver desse nosso trabalho e sustentar estes projetos tão importantes na luta contra a hegemonia da classe dominante e o seu discurso único?

O vídeo acima, com o depoimento do Capilé me ajudou a concluir a minha opinião sobre o assunto. Além de todo o debate e acusações, me parece que ali está grande parte da estratégia do Fora do Eixo, (que tendo a discordar). Falo a partir do seu depoimento, para evitar acusações de calúnias e evitar a simplificação do debate.

Já participei de muitos rolês de cultura e comunicação onde todo mundo trampava de graça. Eram todas iniciativas sinceras. A diferença é que em nenhuma delas tínhamos orçamentos grandiosos, vindas de incentivo público e privado. Se houvesse, todos envolvidos teriam acesso de forma democrática a esta grana. Acredito que devemos sim criar iniciativas alternativas e independentes onde poderemos viver do nosso trabalho. E construir redes neste sentido, fora da grande indústria da comunicação e da cultura. Contudo, não vejo sentido em projetos onde há muita grana rolando (suficiente pra pagar todo mundo, como diz Capilé, no vídeo) e, mesmo assim, o artista ser desvalorizado e ter que trabalhar de graça. Façamos sim algo que é verdadeiro não só pela nossa vontade de transformar, romper, incomodar, mas que seja sincero e digno para cada indivíduo que esteja presente no mesmo trabalho.

No entanto, acho válidas as provocações feitas pelo Fora do Eixo sobre a posição conservadora de muitos artistas, que pensam muito mais no fetiche de suas obras do que no processo cultural-social como um todo. Da mesma forma, apontam que a maioria dos que criticam o Fora do Eixo não querem sair de seus empregos formais e construir algo diferente. Infelizmente, acabou-se construindo um maniqueísmo entre um sistema “fordista” cultural predominante atualmente, onde há relações tradicionais de trabalho e um “pós-fordista” (defendido pelo Fora do Eixo), onde se constituiria outros tipos de relação, baseado nas trocas, afetos e construção coletiva. Mas, o grande problema é que na forma como o Fora do Eixo opera, a estrutura alegada como “pós-fordista” deles mantém (e exacerba) as relações de exploração tipicamente “fordistas” (como bem apontou um post de Pablo Ortellado no FB)

Prefiro acreditar que uma luta de resistência não se dá apenas na ponta, no resultado, (e o o Mídia Ninja é uma iniciativa fenomenal e importantíssima para nosso momento atual), mas entendendo os próprios processos como parte constitutiva das transformações sociais. Se a provocação do FDE sobre estar “dentro” do sistema tem sentido, também é verdade que muita gente está criando formas de lutar pelo que acredita na cultura e na comunicação. Basta ver o trabalho de diferentes coletivos com cooperativas de cultura, editoras populares, produtoras de vídeo popular e outras.. Estes processos forjam a auto-organização popular e constroem outros sentidos de resistência à hegemonia cultural dominante.

Mas, devemos crescer dentro dessa luta com toda a verdade em relação a cada sujeito envolvido. Para combater a sociedade do espetáculo, não podemos nos tornar um espetáculo de sinal trocado. Ao invés de “concorrer” com o poder como iguais, devemos romper, questionar, destruir. Ser baderneiros culturais como foi a grande dançarina Maria Baderna. Devemos avançar na medida em que podemos, respeitando sempre cada pessoa e sem cair na moral do trabalho do capitalismo.

Enfim.. que as críticas sirvam para que todas as partes repensem e juntos avancemos na unidade para construir processos livres contra a hegemonia cultural-ideológica daqueles que dominam a produção de discursos e o poder econômico. No lugar de considerar o FDE inimigo, prefiro pensar que tanto eles, como os seus críticos podem entropicamente sair desse debate modificados, em ações coletivas para repensarmos nossos processos. E que venham mais coletivos de mídia livre, comunicação popular, música,, teatro e cinema independentes, coletivos de intervenção urbana e muito mais! Junho de 2013 mostrou todo o nosso poder de luta e auto-organização. Que os sonhos das ruas passem a escrever a nossa história!

Gabriel de Barcelos

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