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Arquivo do mês: setembro 2011

“Embranquecendo” a História

Essa semana uma polêmica foi gerada pela veiculação de um comercial da Caixa Econômica Federal, onde Machado de Assis é interpretado por um ator branco como pó-de-arroz. Essa prática remete aos antigos shows americanos onde brancos pintavam o rosto para interpretar negros, em espetáculos repletos de estereótipos (ver mais no filme A Hora do Show). Distante décadas no tempo, o ridículo se torna verdade. Na hora lembrei de outros dois casos recentes, onde a Rede Globo “embranqueceu” Chiquinha Gonzaga e Dolores Duran (na minissérie homônima e no programa Por toda minha vida, respectivamente). Justamente duas das maiores compositoras da Música Brasileira.

Já vou avisando aos leitores, que estou sendo cotado para fazer a cinebiografia do grande ídolo Mussum. Não deixem de assistir!

Vejam os três casos:

Machado de Assis

Machado da Caixa Econômica

*

Chiquinha Gonzaga

Regina e Gabriela Duarte

*

Dolores Duran

Nanda Costa

Patty Pimentinha

Jodie

Sei bem o que não é…

O casal vem junto, alinhado na ciclovia, veloz e constante como um exercício de física. Ele sério, ela chorando de dobrar as maçãs do rosto. Estou triste pra caramba por uma bobeira aí, algo que poderia ter evitado e que me deixou o coração afastado de qualquer braço de bondade. Daquelas bondades que podem ser a única segurança possível. Ela deve ter motivos de verdade para chorar, eu penso. Rezo por ela, mesmo sem acreditar em muita coisa hoje, mesmo sabendo que nada atualmente se faz muito acreditável. O que se passou comigo talvez sare amanhã. Com ela, não sei. Vivo um momento de cumplicidade, mesmo que falso, mesmo que imaginado. Talvez ela, (que eu não conheço e que parará de chorar algum dia), seja a única coisa acreditável, a velocidade constante e o braço de bondade. Talvez ela fique bem. Talvez chore sozinha na bicicleta, ou talvez sorria junto com seu namorado num passeio não planejado. E eu seja devoto, não mais cético. E concorde com tudo, sem brigar com ninguém. E acorde de novo. Mas só amanhã.

Literatura

Para quem quiser conhecer o que cometi por aí…

https://sessao.wordpress.com/2010/12/18/breve-resumo-da-breve-historia-do-sessao/

Ótimas tiras sobre tecnologias e redes sociais

Resolvi aqui reunir algumas das ótimas tiras recentes (e mais umas coisinhas) que eu vi sobre este estranho mundo em que estamos vivendo, com suas redes, maquininhas, comunicações (ou falta delas). Melhor que qualquer tese de doutorado.

 

Marco Oliveira- http://www.overdosehomeopatica.com/

 

Ricardo Coimbra- http://vidaeobrademimmesmo.blogspot.com/

 

André Dahmer http://www.malvados.com.br/

 

Raphael Salimena– http://www.linhadotrem.com.br/

 

João Montanaro– http://joaomontanaro.blogspot.com/

 

Bruno Maron http://dinamicadebruto.interbarney.com/

 

Bônus: Essa ótima animação sobre o Twitter, do Supernews

 

Bônus 2: Não é HQ nem animação, mas teve que entrar nessa lista!

“Mas nós não ouvimos”

Gabriel de Barcelos

Uma prática comum do mal Jornalismo, amplamente difundido pelo mundo, é fazer uma pergunta já direcionando a resposta que pretende ouvir. Na verdade há pouco interesse em conhecer, aprender, descobrir. Muito pelo contrário, a grande mídia e sua série de regras caretas e cristalizadas pretende apenas confirmar uma tese que já sai pronta da redação. Foi exatamente o que fez a âncora Fiona Armstrong, da emissora inglesa BBC. Ao entrevistar o escritor Darcus Howe, durante os protestos acontecidos em Londres no início de Agosto, ela perguntou:

Você está chocado com o que viu na última noite?

A resposta vem:

“Não, não estou. Vivo em Londres há 50 anos e vi muitos momentos diferentes. O que eu sei, ouvindo meus filhos e meu neto é que alguma coisa muito, muito séria estava para acontecer neste país. Os nossos líderes políticos não tinham ideia, a polícia não tinha ideia. Mas, se você olhar os jovens negros e os jovens brancos e prestar atenção no que eles estão nos dizendo… Mas nós não ouvimos o que está acontecendo neste país, com eles, não…”

Não satisfeita, a âncora insiste, interrompendo o entrevistado…

“Sr. Howe, se eu puder interromper você por um momento, você está dizendo que não está chocado nem que não condena o que aconteceu em sua comunidade ontem a noite?”

O escritor continua firme em sua posição:

“Claro que não. Por que eu condenaria? O que me preocupa acima de tudo é que havia um jovem chamado Mark Duggan, que tinha uma casa, irmãos, irmãs e a poucos metros de casa um policial estourou a cabeça dele, estourou a cabeça dele…”

Logo depois ele relata casos de repressão policial acontecidos na sua família, como seu neto, descrito como um anjo, mas constantemente revistado. Quando a jornalista afirma que isso

“não é motivo para sair promovendo tumultos e quebrando tudo como vimos nos últimos dias,”

ele rebate:

“Eu não chamo isso de tumulto, eu chamo isso de insurreição popular. Está acontecendo na Síria, está acontecendo em Clapton, está acontecendo em Liverpool, está acontecendo em Port-of-Spain, em Trinidad e esta é a natureza desse momento histórico.”

O articulista da Folha de São Paulo Contardo Calligaris, por outro lado, faz uma análise bem diferente dos acontecimentos. No última quinta-feira (dia primeiro) ele escreveu o texto “Saques, arrastões e ‘resssentiment’. (leia aqui) Também comentando os acontecimentos de Londres, chama atenção para os saques ocorridos em lojas de produtos eletrônicos e roupas de marca. Para Calligaris, os jovens não podem ser condenados por não desejarem produtos de “primeira necessidade”. Na nossa época, para o articulista

“as futilidades são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789.”(Revolução Francesa)

Veja o que ele argumenta:

“‘Quem somos’ depende de como conduzimos nossa vida e (indissociavelmente) de como ela é avaliada pelos outros. Para obter o reconhecimento de nossos semelhantes (sem o qual não somos nada), os objetos que nos circundam ajudam mais do que a barriga cheia; eles têm uma função parecida com a dos paramentos das antigas castas: declaram e mostram nosso status -se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados.”

Calligaris fala coisas pertinentes e está claro, para mim, que o consumo possui hoje uma indiscutível influência social e identitária. Mas, por algum motivo, ele resolveu ignorar os motivos das manifestações, como os altos índices de desemprego e o assassinato de um jovem negro pela Polícia, em Tottenham. Ao ler o seu texto, imaginamos que toda a ação se baseia na vontade de ter alguns bens de consumo. Para ele não há necessidade de historicizar o assunto, observar o contexto social, mas apenas usar a situação para uma reflexão sobre a contemporaneidade, onde existiriam outras motivações e esvaziamento político.

Ao ler esses absurdos, escrevi algumas críticas via Twitter, que foram respondidas na coluna do dia 8 de setembro (veja aqui). Calligaris escreve:

“Alguns leitores entenderam que eu desaprovava a revolta pela futilidade de seus motivos, um pouco como Luiz Felipe Pondé ao apresentar a turba como um recém-nascido MSI, Movimento dos sem iPad (na Folha de 22 de agosto).

Os mesmos leitores atribuíram aos manifestantes uma motivação “mais nobre”. Por exemplo, @blogsessao, no Twitter, afirmou que os jovens não arriscariam suas vidas por bugiganga: eles deviam estar protestando contra desemprego, violência policial etc. -coisas mais sérias.

Pois bem, contrariamente a @blogsessao, acho que os jovens queriam mesmo os objetos que roubaram. E, contrariamente a Pondé (e também a @blogsessao), acho que os objetos que eles roubaram não têm nada de fútil: na modernidade, as aparências e os objetos de consumo são atributos constitutivos da subjetividade e da liberdade.”

Primeiramente, gostaria de esclarecer algo importante, pois acho que foram distorcidas minhas palavras: não pretendo fazer qualquer juízo de valor, afirmando se é mais ou menos “nobre”, mais ou menos “fútil” saquear um IPad. O que eu contesto é outra coisa. Para mim, Calligaris desenvolve uma retórica baseada em premissas falsas. Óbvio que o jovem saquedor realmente quer aquilo. Mas me parece um tanto absurdo considerar o objeto vendido nas lojas como bandeira de uma insurreição deste tamanho. É o mesmo que tratar esse fato histórico como uma vontade incontrolável de queimar carros. Estamos falando de algo muito mais complexo.

É impossível saber o que pensa toda a juventude, quais são seus sonhos, suas vontades e o que pensa da sociedade. Mas é possível saber sim e seria bem mais satisfatório estar no texto, a história dos acontecimentos. Quem sabe tentar ouvir pessoas como Darcus Howe? Tentar compreender a partir da cronologia das ações? Pensar mais em motivações claras e objetivas do que em palpites abstratos? Mas, como afirmou o escritor nascido em Trinidad, não quisemos ouvir, não tivemos vontade de entender o que os jovens diziam, da mesma forma que muitos se recusam a compreender o que está ocorrendo.

Se nas periferias do mundo os jovens, em especial os negros, sofrem diariamente a repressão policial, torturas e assassinatos; se a crise do Capitalismo tem gerado cada vez mais problemas sociais, desemprego e miséria; se a Inglaterra cortou verbas sociais… não importa! É mais fácil resumir tudo numa fome de Smart Phones, ou um belo texto comparando roupas e castas do passado à posse de bugigangas atuais. Ou apenas condenar os “tumultos”, tentando colocar palavras na boca de quem participou das ações, como fez a jornalista da BBC.

Acho bem mais plausível ver as semelhanças deste protestos, com outros, como os de Los Angeles- 1992, quando a Justiça absolveu os Policiais torturadores do taxista negro Rodney King, gerando um ódio coletivo e um saldo de 58 mortos e 2800 feridos. Ou o caso de Paris, onde as manifestações ocorreram em 2005  como reação à morte de três jovens eletrocutados ao fugir da Polícia.

Desejo, firmemente, que escutemos o alerta de Howe. Parar de ficarmos surdos e cegos ao que acontece, ao chamamento desses jovens que estão nas ruas de todo o mundo e “à natureza do momento histórico” (como chama a atenção o escritor de Trinidad). Vamos tentar ouvir algumas pessoas que podem, de maneira muito significativa, nos fazer entender para onde caminha esse bonde.

Veja mais:

Atualizando: Hoje (14/09/2011)  foi publicado o meu texto-resposta na Folha Online- http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/975389-blogueiro-responde-ao-colunista-contardo-calligaris.shtml

 

 

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