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Um escritor

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Fenelon nasceu para ser escritor. Pelo menos era o que dizia a sua mãe, Maria do Céu, além do tio, um funcionário do Banco do Brasil que apreciava muito José de Alencar e Olavo Bilac. Nas festas de família recitava belos versinhos metrificados. Ganhou todos os concursos de redação na escola, sendo, é claro, escolhido o orador da turma.

Mas, no último ano do ensino médio, o tom de seus textos havia mudado consideravelmente. Podemos atribuir isto a uma série de fatores. Seus estudos em história trouxeram uma visão bastante crítica e pessimista da realidade. A exclusão, realizada pelo grupo dos mais ricos e populares, era muito cruel. Fenelon, assim como os garotos nerds e as moças gordas desajeitadas, ficava de fora das festinhas e sofria constantes humilhações. Mas as sucessivas frustrações amorosas talvez tenham sido o motivo mais decisivo da mudança temática e estilística. Primeiro foi Julieta: ruiva, pintada, sorridente. Depois Maria Izabel: baixinha, falante e com grandes seios. Por fim, seu grande amor, Selma: morena índia, olhar sensual, inteligente e com covinhas. Amores que geraram belas poesias, mas nenhum contato carnal.

O cenário da formatura estava armado e o orador preparado. O texto previamente aprovado pela turma era belíssimo e emocionante. Falava de coisas edificantes como o trabalho em grupo, a amizade e a importância dos estudos. Quando subiu ao palco, os formandos, assim como Dona Maria do Céu e a família de Fenelon, imaginavam o mais lindo dos discursos já proferidos numa formatura escolar.

O rapaz chegou reluzente e orgulhoso, começando logo a falar, o que de imediato acabou com a alegria das comemorações. Podemos citar alguns trechos do texto lido pelo orador, algo bem diferente do que todos esperavam:

“Parabéns aos que se comprometeram firmemente ao culto dedicado do próprio umbigo, conseguindo ser cegos para a maioria das pessoas à sua volta. (…) Parabéns ao autoritarismo escolar, que se não formou bons alunos, ao menos produziu bons soldados. Ou seriam ovelhas? (…) Parabéns aos professores, que fingiram ensinar alguma coisa e a todos nós, que fingimos aprender. (…)

Fenelon teve que ser escoltado pelos seguranças até a saída. Foi a maior vergonha que Dona Maria do Céu passou em sua sofrida vida. O mesmo pode-se dizer de toda a família Gomes presente.

Com dificuldades em prestar um vestibular depois da escola, Fenelon acabou trabalhando como empacotador de supermercado, para ajudar em casa. Nunca deixou de escrever seus textos: contos, artigos e poemas cheios de tristeza e revolta, que representavam toda a frustração dele em relação às pessoas, à sua vida e à existência como um todo. Por suas linhas passavam bêbados, personagens deslocados e sem rumo, lugares desoladores e desesperança total.

Sempre mandava seus trabalhos para revistas, jornais e editoras, mas nunca obtinha respostas. Depois de alguns anos recebeu o email elogioso de um jornal independente, propondo a colaboração voluntária. Passou a ter uma coluna semanal, algo que lhe deu bastante orgulho. Seus textos eram um sucesso, apesar da limitada circulação do periódico. Universitários e adolescentes depressivos, além de donas-de-casa frustradas formavam grande parte de um pequeno, mas fiel grupo de leitores.

Logo chamou a atenção de revistas descoladas, que pagavam um preço satisfatório por seus textos. Tornou-se conhecido no meio alternativo, especialmente na internet. Não demorou a chegar às grandes publicações, contratado como colunista de um importante jornal diário, quando finalmente pôde abandonar o supermercado.

Sua ironia e pessimismo tornaram-se conhecidos e temas de muitos comentários. Os leitores se identificavam e Fenelon passou a ser conhecido como representante de certo espírito contemporâneo. Agora tinha amigos, saía de casa e era assediado por algumas mulheres. Mas uma delas era especial. Certa noite reencontrou a morena Selma, aquela mesma com covinhas, hoje arquiteta. Conversaram a noite inteira numa festa e acordaram abraçados no quarto dela, exatamente como sonhara Fenelon nos cochilos das aulas de matemática. Casaram-se seis meses depois.

A vida do jovem escritor mudava consideravelmente. Estava casado com a mulher que tanto amava, dois romances haviam sido publicados, seus textos foram traduzidos para sete idiomas e estavam em importantes jornais e revistas internacionais. Ele recebeu uma ótima proposta de Hollywood e também de um cineasta francês para vender os direitos para uma adaptação. Fenelon e Selma estavam bem de vida e viajavam pelo mundo. Ele se considerava realizado como artista, pessoa e profissional.

O bom estado de espírito redundou numa considerável mudança nos textos. Escrevia de forma mais leve, alegre e engraçada. Não havia motivos para aquelas lamentações do passado. Falava sobre esperanças, pequenos e grandes sorrisos, a grandeza de uma existência feliz.

A mudança foi logo notada por todos. Os críticos o acusavam de piegas, clichê e sentimentalista, dizendo que tudo aquilo era sub-literatura e seus fãs o chamavam de traidor e vendido. As publicações, aos poucos, foram rompendo os contratos e dispensando seu serviço. O novo romance ficou mofando nas estantes das livrarias.

O dinheiro foi faltando e a vida ficando mais difícil. Selma sustentava a casa, Fenelon se revoltava com a falta de trabalho e as brigas eram constantes. Não demorou para se separarem e o rapaz cair em profunda melancolia. Meses depois, voltou a trabalhar no mesmo supermercado.

*

Para escrever este artigo precisava achar Fenelon Gomes. Gostaria de encontrá-lo para uma entrevista e saber melhor sobre aquela fascinante história. Depois de muito pular de fonte em fonte, acabei sabendo do lugar onde possivelmente poderia achá-lo: um boteco na periferia da cidade.

De longe já reconheço o escritor. Lá está ele, com um copo de cachaça em cima da mesa. Muito simpático, nos sentamos e conversamos por muito tempo. De maneira intensa, fala sobre o que pensa dos relacionamentos, da literatura, da mídia, da política e de vários outros assuntos. Conta que largou o emprego de empacotador e escreve, sob pseudônimo, contos eróticos para três revisas masculinas. Ganha uma mixaria, mas considera o suficiente para o pouco que come e o muito que bebe: cachaças baratas, sempre com o desconto e a compreensão de Roberval, o dono do bar.

Sempre muito bêbado e com um bloquinho na mão, ele passa os dias escrevendo histórias de amor e putaria, com todas as traições, mecânicos, enfermeiras e casas com lareiras a que tem direito. Trabalhos que ele considera, sem falsa modéstia, suas grandes obras-primas.

Ali no bar do Roberval, bem próximo da quitinete em que mora, tem amigos sinceros, ali conversa, pensa na vida e enche a cara todos os dias. Ali mesmo se encontra com Marília, uma bêbada um tanto suja, um tanto nervosa, mas que cede de maneira carinhosa aos seus afetos.

 

 

Gabriel de Barcelos

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  1. Gabriel, gostei muito de sua crônica, já não é de hoje que acompanho seu blog, mas hoje resolvi comentar, sensacional sua escrita. Curto muito seu jeito de escrever, você tem uma técnica, que eu como amador busco sempre, e sinceramente, acredito que nunca vou encontrar. Mas, parabéns, fantástico… sou fã do blog sessão…

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  2. Adorei a crônicca, dá vontade de ler! Com certeza você conquistou mais uma leitora para acompanhar seu blog. Parabéns

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