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Arquivo do mês: abril 2010

Bandeira Branca

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Conto de verão nº 2: Bandeira Branca

Luís Fernando Verissimo

Ele: tirolês. Ela: odalisca; Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.

Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.Só no terceiro Carnaval se falaram.- Como é teu nome?

– Janice. E o teu?
– Píndaro.
– O quê?!
– Píndaro.
– Que nome!

Ele de legionário romano, ela de índia americana.

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.

– Ah.

Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse -Até o Carnaval que vem- e saiu correndo.

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

– Me dá alguma coisa.
– O quê?
– Qualquer coisa.
– O leque. O leque da bailarina.

Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?

– Você vomitou a alma – disse a mãe.

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube – e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

– Sei lá. Bávara tropical – disse ela, rindo.

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.

– E aquela bailarina espanhola? – Nem me fala. E o toureiro? – Aposentado.

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse -Píndaro?!- e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi -pelo menos o meu tirolês era autêntico- e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo -não vale, você cresceu mais do que eu- e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse -quase não reconheci você sem fantasias-. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora -preciso te dizer uma coisa-, e ela dissera -no Carnaval que vem, no Carnaval que vem- e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara-

– O que você ia me dizer, no outro Carnaval? – perguntou ela. – Esqueci – mentiu ele.

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil- E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu.

Uma amizade sincera

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Não vou aqui falar tudo o que sinto em relação a Clarice Lispector. Vou deixar para uma postagem futura, com mais tempo e inspiração. Mas adianto que ela é uma das maiores influências não só desta tentativa de escrever alguma coisa, como em algo que vai para além disso.  

O meu conto favorito é Os desastres de Sofia. Mas ele é um pouco grande, não sei se seria legal colocá-lo aqui. Mas de qualquer maneira, o link está aí.

Vou pôr outro que me toca bastante, menos pela estilística e mais pelos afetos trazidos por ele:

 

Uma amizade sincera

Clarice Lispector

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados — mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.

Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto — eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.

Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.

Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.

Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.

Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.

Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.

É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tomamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade — posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.

Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.

Encerrada a questão com a Prefeitura — seja dito de passagem, com vitória nossa — continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? Mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.

Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.”

(do livro Felicidade Clandestina)

O plebiscito

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O filho pergunta ao pai o que é “plebiscito”, este, apesar de fingir dormir, é obrigado a responder. Isso é o início do conflito numa casa de família.

O plebiscito, fantástico conto de Arthur Azevedo, interpretado por Antônio Abujamra. Programa “Contos da meia-noite”, da TV Cultura, dirigido por Eder Santos:

Maria do Socorro e Roberto sentados no bar

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Gabriel de Barcelos

Eles se amaram muito, não há dúvida! E, de certa forma, ainda se amam. Maria do Socorro e Roberto estão sentados no bar daquele fim de domingo. Quando olho para eles, a primeira coisa que me lembro é da pintura de Degas. Mas é só permanecer mais um pouco para entender que se trata de algo bem diferente. Ao contrário daquele casal entorpecido pelo absinto, no século XIX, não vejo a tristeza profunda nos olhos destes dois sentados no Bar do Pedrão. Infelizmente, o sentimento parece um pouco pior, algo como uma indiferença em relação ao cônjuge e em relação ao mundo. Eles ficam mudos, trocando umas seis palavras a cada cinco minutos, raramente com a coincidência do olhar.

Cerveja, lingüiça e mandioca na mesa. O local está cheio hoje. Homens velhos se abraçam, depois de várias doses de 51, celebrando a fraternidade masculina que existe em cada bar de esquina. Jovens jogam sinuca e se provocam por causa do futebol, enquanto alguém escolhe Zeca Pagodinho na Jukebox.

Maria do Socorro e Roberto continuam sentados, observam o movimento, mas sem grande interesse. Ela lembra da grande revelação que acontecerá segunda, na novela, da prima que vai se casar, da patroa que ela odeia e da chuva que poderá molhar toda a roupa no varal, pois o tempo começa a fechar. Roberto pensa no empréstimo que deve pagar, na revelação da novela, na filha que saiu de casa e na tinta que usará na reforma da casa. Apenas preocupações, lembretes, opiniões, nunca aspirações, projetos de vida ou algo que mude radicalmente o rumo dos acontecimentos.

Ele esconde um caso com outra mulher e já teve várias amantes durantes os 27 anos. Ela só o traiu duas vezes. Ambas durante o tempo em que Roberto trabalhou na Bahia, dando-lhes poucas notícias. Foi com o primo Sílvio, em seu orgasmo inesquecível.

Mas, se os filhos já saíram de casa, se ambos trabalhavam e podiam se sustentar, por que continuar juntos? Por que não partir para outra? Sem dúvida é difícil entender motivos e razões tão íntimas. É custoso compreender a necessidade da casa, da vida e do chão já conhecidos. Eles preferiram ficar juntos, morrer juntos.

Não sei por que, mas aquele casal me fascinava cada vez mais. Não conseguia tirar os olhos dos rostos que miravam o vácuo. Queria ser um grande amigo e ouvir, secretamente, as confissões de cada um. Saberia seus segredos mais guardados e daria conselhos inúteis, porém bem intencionados. Mas eu, com idéias modernas sobre liberdade, não conseguiria entender seus motivos, suas decisões. Nada a acrecentar para a experiência posta à mesa.

Comecei a me conformar em ser apenas um observador, indo, alguns domingos, ao mesmo lugar. Encontraria, no Bar do Pedrão, pessoas alegres e companheiras. Situações engraçadas ou comoventes. Interessantes histórias de vida e lamentações, contadas na dor diante o copo de cachaça. E, principalmente, espiava o mesmo casal que não se olhava, nem se falava, mas guardava um amor que só eles entenderiam, só eles poderiam viver.

Já estava ficando tarde. Roberto levanta, sai da mesa e vai em direção ao balcão para pagar a conta. Os dois levantam e saem aguardando a rotina da segunda-feira. Já é tarde e o Fantástico vai começar. Não se atrasem!

Respeitem esta estrela!

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Esperar pacientemente, com humildade não é para poucos. Isso é virtude dos grandes de espírito, daqueles que têm a grandeza de uma tradição e de uma história bela e honrada. Aos que me falavam que já sabiam o final, que seríamos vice novamente (como a faixa da loja do Menguinho) dizia que aguardaria, pois sabia quem levantaria a taça e que o gosto seria muito melhor. Meus parabéns para aqueles que compartilham das alegrias, dores, emoções, supertições, injustiças, surpresas e amores por esta estrela que deve ser respeitada!

Parabéns ao Joel a ao time campeão estadual de 2010 (prefiro não citar um ou outro, para não ser injusto). E a todos os que conhecem a mística dessa camisa e aos que respeitam e possuem a humildade de saber que apenas no apito final existe um campeão.

Engolimos as palavras e as deixamos para o final, para soltar na hora certa:

E ninguém cala
Esse nosso amor
E é por isso
Que eu canto assim
É por ti Fogo

Só para não esquecer.. ainda somos os únicos tetra!

Monty Python- Always look on the bright side of life

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Sua vida está uma merda? Tudo parece ruim? Você esta sendo crucificado agora? Esqueça tudo, dê um assobio e veja o lado bom da vida!

Genial parte de “A vida de Brian”, de Monty Python, numa música inesquecível, lembrando o melhor dos musicais “a vida é ótima”.

O mundo do Twitter

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Confesso que eu paguei a língua sobre o Twitter. Eu vivia falando mal, que era ridículo este lance de ficar dizendo se está cagando ou almoçando na casa do sogro. Ainda acho isso, mas criei uma conta para o blog, como uma ferramenta legal de divulgá-lo http://twitter.com/blogsessao

Este vídeo é engraçadíssimo, mostra bem este espírito twitteiro…