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Estou errado, não tenho carro

Publicado em

Gabriel de Barcelos

Estou errado, não tenho carro. Não existe lugar nas cidades para quem não tem carro. Hoje o natural é ter um automóvel. Se você não conseguiu comprar o seu, provavelmente é um incompetente. Você, então, está contra a maré. Está errado!

Quando falamos de um parque, imaginamos um local público, para diversão, prática de esportes, sociabilização, caminhadas para pensar, um pouquinho de natureza… Acima de tudo, um espaço público. Em Campinas, no Parque Portugal (Lagoa do Taquaral), você terá bastante dificuldade para transitar a pé no entorno. Com uma série de cruzamentos, rotatórias e um grande fluxo de veículos em alta velocidade, é muito arriscado atravessar. Imagine com uma criança! Não existe sinal, passarela e, como em quase todas as ruas, os carros não respeitam a prioridade do pedestre na faixa.

Isso se repete em toda a cidade de Campinas. Num cruzamento onde passo todos os dias (Avenida Santa Izabel com Gilberto Pattaro- Barão Geraldo), o sinal nunca está aberto para o pedestre. Quando fecha uma mão, abre imediatamente outra para os carros. Resta ao pedestre a corrida para tentar chegar vivo do outro lado.

Não quero fazer disso uma reclamação pessoal. Acho bem chato o uso da internet para isso. Só coloquei estas observações, pois penso que fazem parte de uma questão bem mais ampla, que pretendo escrever melhor depois. Sabemos a situação caótica das cidades, todo o trânsito, mortes e outros problemas gerados pelos automóveis. Isso sem falar dos danos ambientais, um dos mais graves delitos cometidos por estas máquinas.

Obviamente não estou aqui falando da extinção dos carros, mas sim de uma mudança de paradigma. Não sou simpatizante das soluções individuais, do tipo “faça a sua parte”. Isso é idealista e nunca resolverá o problema. Lutemos, então, por políticas públicas que repensem a cidade, os espaços e pense nos pedestres, ciclistas, deficientes, crianças, além de outros. E que, se necessário, limite a quantidade de automóveis transitando nas ruas, pois não há mais espaço para todos eles.    

Mas estamos bem longe disso. Infelizmente, as pessoas ainda acham que a luta ecológica é resumida a um monte de gente abraçando árvores e mico-leões. Na verdade, trata-se de algo bem maior. É a construção de uma outra sociedade, sócio-ambiental, onde repensaremos a relação entre o indivíduo e o meio-ambiente, o espaço urbano, a produção industrial, a agricultura, o comércio. Um lugar onde contestaremos o determinismo e evolucionismo do desenvolvimento tecnológico (ele é sempre bom?) e haverá outro tipo de relação coletiva.

Vivemos uma tendência contrária, cada dia mais. A candidata Dilma Roussef e seu desenvolvimentismo destruidor é o maior símbolo disso. A destruição do Código Florestal está, também, neste sentido. Estamos colocando em prática um projeto fracassado, desde a Ditadura Militar (talvez antes). Mais carros, hidrelétricas, poluição, latifúndios, mecanização. Mais povos expulsos, como indígenas, ribeirinhos, camponeses e quilombolas, mais gente indo viver marginalizada nos grandes centros. Mais pobreza, destruição, poluição, caos…

Enquanto isso nós, incompetentes que não conseguimos ter um carro, andamos por estas cidades sem planejamento, sem emprego, com violência, tentando nos esquivar dos carros, perdidos num lugar onde não ter a sua máquina particular constitui-se como crime. Já chegamos ao dia em que andar a pé tornou-se algo anti-natural, onde pessoas valem menos do que números do PIB na manchete do jornal e onde se torna mais seguro caminhar parado numa esteira da academia (com ar condicionado e segurança) do que andar simplesmente na rua, ver pessoas e participar do mundo.

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  1. “Mais carros, hidrelétricas, poluição, latifúndios, mecanização, indígenas, ribeirinhos, camponeses e quilombolas expulsos, mais gente indo viver marginalizada nos grandes centros.”
    Gabriel, há uma ambiguidade na frase, parece que o desenvolvimentismo resulta em mais indígenas (de certa forma é verdade… rs), mais camponeses e ribeirinhos, só os quilombolas expulsos. Reformula a frase. E sobre a extinção dos carros, sou favorável, se você permite que eles continuem existindo, como vai decidir quem pode ou não pode ter carro? A única solução é radicalizar (no sentido original).

    Responder
    • Você tem toda a razão sobre a ambiguidade da frase. Quando eu escrevi pela primeira vez, já havia percebido que estava estranho. Mas escrevi meio com sono e não revisei. Vou dar uma arrumada.

      Quanto aos carros, defendo uma limitação para os carros transitarem na cidade. Um tempo em que podem permanecer no centro, por exemplo. Temos tecnologia para isso. Não vai ser escolher quem vai poder, mas sim limitar o uso.

      obrigado..

      Gabriel de Barcelos
      abr

      Responder

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