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Trincheiras virtuais para contradições reais

Publicado em

bambole

Em junho vi algo inédito dentro de minha experiência militante: uma espécie de unidade nas ruas de todo o país, levando milhões às manifestações. Não podemos negar que estas mobilizações foram de uma complexidade e tensão enormes e que o conflito entre diferentes posições políticas e táticas sempre esteve presente. Mas, para quem cresceu vendo uma esquerda e movimentos de luta sempre fragmentadados, o que aconteceu foi algo sem precedentes. Houve certa tentativa de diálogos possíveis inclusive nos espaços como assembleias e reuniões ampliadas e uma visão otimista com o processo em termos gerais.

Contudo, não era de se entranhar que as mobilizações diminuíssem seu ritmo (embora não tenham parado, muito pelo contrário). E como só é possível unidade e mobilização popular a partir da rua, as contradições dentro dessa relativa unidade apareceram cada vez mais. Foram trocados ataques entre grupos políticos e as discussões se acaloraram nessa grande rede de comentadores que é a internet. Mas, se antes tínhamos um debate mais rico sobre avanços sociais e organização popular, tivemos que nos deparar com a inevitável contradição das diferenças (PT, PSTU, Black Bloc, MPL, LER-QI, Mídia Ninja/Fora do Eixo, PSOL, anarquistas, pacifistas, independentes, etc..). Não que os conflitos não existissem antes, mas se acirram, hoje, claramente. E podem caminhar para algo mais artificial e menos orgânico.

Discordâncias, críticas e debates geraram historicamente ótimos frutos para a teoria e a prática política. Hoje a internet possibilita um importante espaço para a discussão. Contudo, muita coisa acaba ficando na análise superficial e no mero ataque sem embasamento, tanto nos textos individuais como nos produzidos por organizações. A facilidade em “postar” um conteúdo com um clique traz possibilidades interessantíssimas e transformadoras na construção coletiva de sentido. Por outro lado, a palavra reflete agora o primeiro pensamento, não passando por uma construção mais depurada de textos e ideias.  Embora a internet tenha uma importância inevitável hoje, podemos concluir que a dialética das ruas e a relação prática e orgânica na vida são bem mais mais ricas.

A motivação para escrever esse texto foi o fato de eu também ter participado dessas discussões online,  paralelo a todo o processo interessante nas ruas, que ainda segue. Olhar ceticamente para a minha própria prática e a de vários outros sujeitos me fez chegar a algumas conclusões (como as que expus acima) além de muitas perguntas:

– Se há tanta diferença de concepções políticas, como articular isso tudo? Concessão ou consenso?

– Os rumos tomados pelas mobilizações serão construídos a partir de uma síntese dos debates populares e das ações políticas ou serão uma “disputa” entre diferentes posições?

– Como se darão os espaços onde essas posições se colocarão? E como se encaminharão essas decisões?

– Grupos e indivíduos são diferentes e discordantes, mas para ir para as ruas e avançar, devemos ser muitos: como agir diante disso?

– Os rumos tomados virão de concepções e horizontes políticos bem definidos ou serão construídos no próprio processo? Ou ambos?

Responderemos juntos, na vida.

 

Gabriel de Barcelos

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