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O debate entre as três rosas

Gabriel de Barcelos

Estavam juntas as três rosas. Não sei ao certo como elas acabaram naquele lugar, mas o fato é que estavam ali.

Iniciou-se o assunto. A primeira rosa era original de outro planeta. Vaidosa, contava como seu dono, um príncipe menino de cabelos dourados, a amava e sempre a elogiava. Estas afirmações levaram à reação indignada da rosa branca, vinda da casa de um diplomata e poeta boêmio chamado Vinícius. Já a terceira rosa, proveniente do morro da Mangueira, de outro talentoso poeta conhecido como Cartola, nada falou. Era muda, a coitada!

Disse a primeira rosa:

– Meu principezinho sempre exclamava: “Como és bonita!”, ao que eu confirmava, “Não é? Nasci ao mesmo tempo que o sol…”

A rosa branca logo respondeu:

– Não entendo por que tantos elogios! Certa vez o poeta quis cantar minha beleza e discordei no mesmo momento, chamando-o de calhorda. Exigi que olhasse melhor tudo aos seus pés. E observasse a criança faminta comendo um torrão de terra, da mesma terra que me sustentava. Igual aquela havia milhões e, com muita vaidade, ele ousara usar meu nome para fazer poesia sobre superficialidades.

Muito ofendida, a rosa do príncipe retrucou:

– Tenho alguém muito especial, que cuida de mim, limpa os matos à minha volta e coloca uma redoma de vidro, protegendo-me de ventos e do ataque dos tigres. Mas, cansado de minhas exigências e das minhas mentiras, ele resolveu conhecer outros destinos, viajando pelo universo. Isso deixou-me profundamente sentida. Até comecei a secar. No entanto, me conformei e deixei-o ir. Para minha grata surpresa, meu príncipe aprendeu muito com a jornada.

Inicialmente, ficou decepcionado ao descobrir a existência, no planeta Terra, de milhares de rosas iguais a mim. Eu havia garantido ser a única existente. Mas, com a ajuda de uma esperta raposa, compreendeu o motivo que me fazia especial e realmente única. Havia sido eu a rosa cativada por ele, aquela cujos cuidados e amores me difeririam de uma flor qualquer, em determinado lugar da Terra ou do universo. Ao voltar, percebeu a responsabilidade em relação a mim e desde então dispensa-me cuidados e me tece lindas palavras.

A rosa branca, já rubra de raiva, não tinha como concordar:

– Se o seu príncipe conheceu a Terra, viu todas as injustiças, a pobreza, a desigualdade, a exploração e a guerra. No lugar de ficar falando de nós, que temos todas as condições naturais de viver em paz e harmonia, eles deveriam dedicar o tempo deles para mudar a vida daqueles que realmente sofrem.

O debate continuou quente. Réplicas, tréplicas, poucos pontos em comum, apenas discordâncias… Em meio às exposições antagônicas das duas rosas, a atenção foi desviada quando um odor totalmente diferente invadiu o recinto. Não era cheiro de flor, mas de mulher. Um fascinante cheiro de mulher.

Os boatos falam sobre uma bela mulher de olhos tristonhos amada por Cartola, que deixou o poeta abandonado e entregue à solidão. Ele implorou pela volta da moça linda, ouvindo apenas negativas impassíveis e duras. Com medo de nunca mais sentir aquele cheiro feminino, Cartola aplicou-lhe um feitiço e roubou o aroma tão adorado, deslocando tudo para uma rosa, que guardou com muito carinho.

Constantemente Cartola esquecia da mudez da flor e se queixava sobre a paixão perdida, sem ouvir respostas. A rosa não fazia senão exalar o cheiro que reavivava a memória do grande amor.

Foi esse mesmo cheiro espalhado naquele instante, na presença das outras duas colegas. Agora a rosa branca e a rosa do príncipe permaneciam caladas diante de tal êxtase olfativo. Aquela era a participação incontestável da rosa muda no debate, discussão que ali mesmo deu-se por encerrada.

Imagem: Johana Svoboda

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  1. Muito bom! Super criativo, filosófico e literariamente falando.

    Responder
  2. Que criativo Ga, uma leitura muito gostosa, de uma escrita muito sensível. Ótimo desfecho, genial.
    Se me permite, acho que você poderia ter extrapolado (no lugar filosófico de cada rosa) um pouco além do que já trás cada história…
    Bem, é só um pensamento, não sou escritora ahuahuahua
    um abraço

    Responder
  3. Poxa! Quem bom que vc gostou. Quando eu terminei, senti que poderia ter explorado mais o tema. Na verdade, esta questão sobre a obra de arte, o belo e o engajamento, é algo que me interessa muito, até em termos de pesquisa. Quis passar isto de forma literária.

    Eu não me alonguei mais para não transbordar a visão de cada autor. Mas acho que pode ser mais trabalhado. Talvez eu reescreva um dia.

    grande abraço!

    Responder

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