Assinatura RSS

Rosto e palavra

Gabriel de Barcelos


Era uma praia…. vazia, no fim da tarde

Seu texto é horrível e meloso! Uma sucessão de clichês. Não vou publicar esta porcaria!

O editor condenava o novo conto. Eu não entendia. Sim, é verdade, parecia uma romance água-com-açúcar da Sesão da Tarde. Tenho plena consciência disso. Mas que culpa eu tinha se buscava relatar o acontecido nas minhas férias? O que deveria fazer quando a realidade parece algo belo e inocente que vemos na TV? Será que nossa vida tem que ser como um filme alternativo, cheio de vazios existenciais e silêncios?

Ela estava sentada, sozinha. Chupava um picolé de uva.

Eu estava bem. O caso longo com Marcela já estava quase virando namoro. Tinha dois empregos e conseguia pagar a quitinete. Minha vida parecia caminhar para a estabilidade. Por que ficar lembrando daquele único dia de férias?

Eu estava fazendo a caminhada diária na praia. No mesmo horário, todos os dias, buscando inspiração para continuar o livro. Passei por ela e não disse nada.

Qual a racionalidade em pensar o tempo todo num rosto que só vi um dia? Por que não pensar nas mulheres que conheço por inteiro? Por que querer criar um personagem, se conheço pessoas reais?

Não tive a coragem de falar com ela e fui até ao final da praia. Prometi para mim mesmo… se eu voltar e ela estiver lá, perguntarei as horas ou qualquer coisa assim.

Praia vazia? Fim da tarde? Ah, vá se foder Maurício!!! Cadê aquela sua criatividade que me fez te contratar?

Por que eu estava pondo em risco meu emprego? Por que escrever aquele conto me deixava mais vivo?

Eu meio que torcia por não encontrá-la ao voltar, pois minha vergonha era imensa. Ficava vermelho só de pensar em abordá-la. Por outro lado, torcia para ela estar, pois talvez nunca mais a veria.

Escrevi o conto em minutos, num caderno. Letras tremidas pelo coração agitado e pelas freadas do ônibus que me levada de volta à minha cidade. Aquilo era a única coisa que tinha vontade de escrever. Todos os outros assuntos eram supérfluos.

Mas lá estava ela. O picolé já havia acabado. Agora olhava o mar com uma cara de criança. O que eu direi?

Já estava sem concentração. Peguei Marcela em casa e fui jantar na casa de meu pai. Ele falava dos assuntos de sempre: impostos, bandidos, imoralidade na televisão… Temas que se tornaram ainda mais monótonos que de costume.

Você sabe até que horas fica aberta a peixaria da praia?

Deve estar fechando, eu acho. Ou já fechou.

Será que vale a pena correr lá? Acho que vou deixar para comprar o peixe amanhã.

Isso! Está com pressa? Senta aí um pouco para ver o pôr-do-sol também.

Obrigado. Como é seu nome?

As palavras, em alguns casos, aperfeiçoam o fato vivido. Muitas vezes inventam o real, melhorando-o. Mas, geralmente, são impotentes para descrever as sensações materiais. Existem, como na matemática, na frustração da mera aproximação. Nada do que eu escrevesse poderia representar aquela nossa conversa de duas horas, nossa caminhada até a pedra, nosso beijo de despedida. Nem mesmo a tristeza dela ter ido embora no dia seguinte.

Hoje, com sessenta anos, dois casamentos e três filhos depois, tenho um ódio profundo em não ter certeza se esta é uma história real, ou apenas um conto inocente que eu gostaria de ter vivido. Quando voltei uma vez na mesma praia, a procurava em todos os rostos. Sim, ela tinha um rosto. Olhos grandes, pretos e intensos e um sorriso que misturava inocência e malícia.

Abro a caixa com meus arquivos e o texto está lá. O único, naquele período em que escrevi para o jornal, que nunca foi publicado.

 

 

 

 

Para conhecer outros contos:

https://sessao.wordpress.com/2010/12/18/breve-resumo-da-breve-historia-do-sessao/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: