Assinatura RSS

Arquivo do mês: fevereiro 2011

Deixa para lá

Leci Brandão canta Cartola

“Não perturbe a sua vida. Carnaval já vem aí”

Ato contra a privatização dos serviços públicos em Campinas

Assine e saiba mais:

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=plo2911

Quino… genial!

Os desastres de Sofia

Clarice Lispector

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.

O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. (…)


Ler o conto inteiro

Rosto e palavra

Gabriel de Barcelos


Era uma praia…. vazia, no fim da tarde

Seu texto é horrível e meloso! Uma sucessão de clichês. Não vou publicar esta porcaria!

O editor condenava o novo conto. Eu não entendia. Sim, é verdade, parecia uma romance água-com-açúcar da Sesão da Tarde. Tenho plena consciência disso. Mas que culpa eu tinha se buscava relatar o acontecido nas minhas férias? O que deveria fazer quando a realidade parece algo belo e inocente que vemos na TV? Será que nossa vida tem que ser como um filme alternativo, cheio de vazios existenciais e silêncios?

Ela estava sentada, sozinha. Chupava um picolé de uva.

Eu estava bem. O caso longo com Marcela já estava quase virando namoro. Tinha dois empregos e conseguia pagar a quitinete. Minha vida parecia caminhar para a estabilidade. Por que ficar lembrando daquele único dia de férias?

Eu estava fazendo a caminhada diária na praia. No mesmo horário, todos os dias, buscando inspiração para continuar o livro. Passei por ela e não disse nada.

Qual a racionalidade em pensar o tempo todo num rosto que só vi um dia? Por que não pensar nas mulheres que conheço por inteiro? Por que querer criar um personagem, se conheço pessoas reais?

Não tive a coragem de falar com ela e fui até ao final da praia. Prometi para mim mesmo… se eu voltar e ela estiver lá, perguntarei as horas ou qualquer coisa assim.

Praia vazia? Fim da tarde? Ah, vá se foder Maurício!!! Cadê aquela sua criatividade que me fez te contratar?

Por que eu estava pondo em risco meu emprego? Por que escrever aquele conto me deixava mais vivo?

Eu meio que torcia por não encontrá-la ao voltar, pois minha vergonha era imensa. Ficava vermelho só de pensar em abordá-la. Por outro lado, torcia para ela estar, pois talvez nunca mais a veria.

Escrevi o conto em minutos, num caderno. Letras tremidas pelo coração agitado e pelas freadas do ônibus que me levada de volta à minha cidade. Aquilo era a única coisa que tinha vontade de escrever. Todos os outros assuntos eram supérfluos.

Mas lá estava ela. O picolé já havia acabado. Agora olhava o mar com uma cara de criança. O que eu direi?

Já estava sem concentração. Peguei Marcela em casa e fui jantar na casa de meu pai. Ele falava dos assuntos de sempre: impostos, bandidos, imoralidade na televisão… Temas que se tornaram ainda mais monótonos que de costume.

Você sabe até que horas fica aberta a peixaria da praia?

Deve estar fechando, eu acho. Ou já fechou.

Será que vale a pena correr lá? Acho que vou deixar para comprar o peixe amanhã.

Isso! Está com pressa? Senta aí um pouco para ver o pôr-do-sol também.

Obrigado. Como é seu nome?

As palavras, em alguns casos, aperfeiçoam o fato vivido. Muitas vezes inventam o real, melhorando-o. Mas, geralmente, são impotentes para descrever as sensações materiais. Existem, como na matemática, na frustração da mera aproximação. Nada do que eu escrevesse poderia representar aquela nossa conversa de duas horas, nossa caminhada até a pedra, nosso beijo de despedida. Nem mesmo a tristeza dela ter ido embora no dia seguinte.

Hoje, com sessenta anos, dois casamentos e três filhos depois, tenho um ódio profundo em não ter certeza se esta é uma história real, ou apenas um conto inocente que eu gostaria de ter vivido. Quando voltei uma vez na mesma praia, a procurava em todos os rostos. Sim, ela tinha um rosto. Olhos grandes, pretos e intensos e um sorriso que misturava inocência e malícia.

Abro a caixa com meus arquivos e o texto está lá. O único, naquele período em que escrevi para o jornal, que nunca foi publicado.

 

 

 

 

Para conhecer outros contos:

https://sessao.wordpress.com/2010/12/18/breve-resumo-da-breve-historia-do-sessao/

Verdades sobre Valquíria

Gabriel de Barcelos


Daniel, quero ser por você fiel.

Quero provar todo este mel

quero viver contigo este céu


Sinto algo dentro de meu ventre

sinto que tudo será bonito daqui para frente

E que vamos nos amar para sempre


Douglas,

não quero mais sentir tanta tristeza e saudade

nem viver neste mundo cheio de perigo e maldade

quero te amar e viver ao seu lado com liberdade


Tiaguinho,

quero ser seu carinho

quero ser seu caminho


  • Valquíria era gordinha.
  • Valquíria usava roupas justas, que destacavam sua gordura.
  • Valquíria não era bonita.
  • Valquíria ajudava seu pai a entregar leite.
  • O pai de Valquíria adorava a Cavalgada das Valquírias, apesar de não lembrar do nome do compositor.
  • Valquíria usava roupas velhas, muito coloridas e fora de moda.
  • Daniel, Douglas e Tiaguinho perderam a virgindade em 1993, no primeiro ano de ensino médio.
  • Daniel, Douglas e Tiaguinho perderam a virgindade com Valquíria.
  • Valquíria se apaixonou por Daniel, depois por Douglas, depois por Tiaguinho.
  • Tanto Daniel, como Douglas e Tiaguinho prometeram amar Valquíria para sempre.
  • Tanto Daniel, como Douglas e Tiaguinho disseram que para amar, era preciso transar.
  • Daniel, Douglas e Tiaguinho tinham namoradas bonitas, magras, de boa família, que usavam roupas da moda.
  • Daniel, Douglas e Tiaguinho passeavam com suas namoradas na pracinha, depois da missa, aos domingos.
  • Daniel, Douglas e Tiaguinho tinham vergonha de serem vistos ao lado de Valquíria.
  • As namorados de Daniel, Douglas e Tiaguinho eram virgens.
  • As namorados de Daniel, Douglas e Tiaguinho não deixavam nem passar a mão na bunda.
  • Valquíria transou outras vezes com Daniel, Douglas e Tiaguinho.
  • Valquíria escrevia poesia.
  • Valquíria mandava os poeminhas para Daniel, Douglas e Tiaguinho.
  • Valquíria desenhava coraçõezinhos no papel que mandava a poesia.
  • Valquíria escrevia versos na parede do banheiro da escola.
  • Valquíria chorava.
  • Valquíria se perguntava por que a vida não podia ser como a novela.
  • Valquíria tentou se suicidar com o carrapaticida que tinha no trabalho do seu pai.
  • Valquíria apanhou depois que saiu do hospital.
  • Valquíria repetiu o primeiro ano.
  • Valquíria não conseguiu concluir o ensino médio.
  • Valquíria foi trabalhar na venda do Seu Ademar.
  • Seu Ademar passava a mão em Valquíria.
  • O pai de Valquíria disse que era preciso aguentar, para não perder o emprego.
  • Na venda, Valquíria conheceu Dorival, cliente fiel.
  • Valquíria começou a namorar com Dorival.
  • Valquíria ficou noiva e se casou com Dorival.
  • Valquíria e Dorival fizeram um empréstimo e conseguiram comprar uma pequena venda.
  • Valquíria e Dorival construíram uma casa.
  • Valquíria e Dorival tiveram cinco filhos.
  • Valquíria, de vez em quando, procura um muro ou uma parede e escreve um poema.
  • Dorival acha lindo ter esposa poetiza.