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A dança

Pierre Verger

A dança

Ele tem seus 65 anos, mestiço, de um tom de pele indiano. Baixinho, magrinho, simpático e feliz. A cachaça o acompanha desde as boas boemias da juventude, assim como o espesso bigode, que hoje é grisalho. Aposentado, vive a conversar com seus grandes amigos de copo: aposentados, pedreiros, operários e alguns vagabundos. Se eu passo de manhã para comprar pão, bem cedo, lá está ele no bar ao lado, na sua profissão de fé. Chegou agora, será? Ou será que essa é apenas a continuação de mais uma noite de bebedeira?

Ele mora sozinho e faz suas refeições na casa da filha. Já foi meia-colher, padeiro, faxineiro e frentista. Hoje apenas se diverte. Sofre, às vezes, com a solidão. Mas, logo esquece e vai atrás do líquido que lhe traz a salvação.

Mas hoje é um dia especial: é Carnaval! O bloco sai pelas ruas com as mesmas marchinhas do tempo de sua juventude, que ele canta com paixão e nostalgia. A felicidade toma a sua alma. Bêbados velhos se juntam a bêbados universitários. Crianças dançam no colo de pais trajando mini-saias e sutiãs.

E ali, no meio de confetes e latinhas de cerveja, avista aquela bela morena. É jovem, dos seus vinte anos e bem maior que ele. Tem cabelos cacheados, olhos pretíssimos. Usava um lindo decote e um short branco, de pano.

A música que começa a tocar sugere uma dança. Sem pestanejar, a tira para o bailado. A moça, prontamente, aceita. O exímio dançarino deixa a moça encantada. Ele a conduz com uma leveza e cavalheirismo que ela pouco estava acostumada. Os jovens de hoje não sabem, provavelmente o que é isso. Mas o dono daquele bigode cinzento já passou por muitos bailes, muitas namoradas e várias amantes. Nas pistas e cabarés, sempre foi um rei. Passa, então, a reviver aqueles dias. De forma sensual, encosta, levemente naquele corpo macio. Suas mãos tocam aquela pequena cintura, uma aproximação possível, que para ele era algo totalmente sexual. O possível para ele diante de tão formosa jovem.

Os três minutos da música foram seu gozo máximo, seu encontro com o passado e com todas as mulheres que já teve. Hoje, tolhido de sua vida de aventuras com as moças, mostrar aqueles passos e conduzir a dama foi a sua redenção. Queria ele poder continuar aquele momento para sempre. Mas não era possível. A morena mostrou seus branquíssimos dentes num sorriso agradecido, virou as costas, e foi ao encontro das amigas e, talvez, dos beijos de um rapaz que mal sabe tratar uma mulher.

Era o fim. Ele agradeceu também e baixou, levemente, a sua cabeça. Mas a festa continuou e a morena sumiu naquela noite que acabou junto com os restos da quarta-feira de cinzas. E ele acordou no meio do lixo e dos cachorros, naquela mistura de colorido e sujeira, de fantasias e sonhos perdidos.

Gabriel de Barcelos

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  1. Hi, this is a comment.
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  2. Pingback: Crônicas do Sessão « Sessão

  3. Eu termino de ler seus textos e a primeira coisa que me vem a cabeça é: “Que lindo”.

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  4. Muito obrigado mesmo! por esse e o comentário no outro conto! Você escreve também? passe o contato..

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