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Corpo e contracultura: Dzi Croquettes

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Está acontecendo (agora em São Paulo e em abril no Rio) o segundo In Edit Brasil- Festival Internacional de Documentário Musical. É uma grande oportunidade de conhecer títulos de diferentes lugares do mundo, deste subgênero que tem feito cada vez mais sucesso nas salas de cinema brasileiras.

Eu destaco Dzi Croquettes, ótimo filme de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que assisti na Mostra de Tiradentes. Ele narra a história do grupo de teatro, música e dança do título, que, no auge na ditadura, colaborou para anarquizar a cultura vigente. Formado apenas de homens, com seus corpos semi-desnudos pintados, muita androgenia, ironia, criatividade e poder performático, eles não só foram um sucesso de público, como influenciaram centenas de artistas. Aliás, esta influência é um dos pontos-chaves da obra, através dos depoimentos de figuras como Betty Faria e as Frenéticas, que constroem a rede de penetração do “movimento” Dzi Croquetes em parte da sociedade brasileira e internacional (como vemos na fala de Liza Minelli).

Uma das coisas que sempre é ressaltada neste documentário (com mais destaque, aliás, na ótima reflexão de Elke Maravilha) é a importância política do grupo. Num contexto de repressão (anos 70), o Dzi Croquettes zomba de tudo e todos, afirma a liberdade total do corpo e da expressão artística, além, claro, da afirmação das orientações sexuais, que se dá pela brincadeira entre a masculinidade e a feminilidade. Naquele período, vivíamos a ascensão da performance como ato de resistência, do corpo como objeto e ao mesmo tempo obra, dos limites extremos que a corporalidade chega em seus experimentos estéticos e na luta pela libertação contra as opressões. De forma semelhante fizeram Secos e Molhados, Helio Oiticica, o movimento tropicalista, além de outros.

É bem difícil compreender, hoje, a coragem de um grupo que foi vanguarda, no sentido primordial da palavra, avant garde, “guarda avante”. Ou seja, aqueles que saem na frente da tropa, dando sua cara a bater. Obviamente, esta ousadia teria um preço, em conseqüências que são mostradas ao longo do filme. Mas a tristeza da conclusão, apresentada através do fim inexplicável e da perda dos amigos, de forma alguma apaga a energia do legado do Dzi Croquettes. Pelo contrário, o documentário chega num momento de retrocesso conservador, onde universitários lincham moralmente pelo tamanho da saia e religiosos fazem campanha contra leis anti-homofobia. O filme pode ser visto como um manifesto de liberdade, arte e alegria menos até do que como um mero registro histórico. Acho que seus próprios integrantes prefeririam que assim fosse. Infelizmente, a importância do grupo ainda não mereceu o seu devido reconhecimento. Acredito que o filme colaborará muito para isso

Ele traz, ainda, uma característica bem constante no documentário contemporâneo: a presença da primeira pessoa do realizador e de uma “busca” que se realiza no processo. Neste caso, é exposta, inicialmente, a motivação da diretora Tatiana Issa, filha do cenógrafo Américo Issa, que participou, ativamente, do grupo. A vontade de buscar aquele grupo de “palhacinhos” (como ela via os artistas), que ajudavam a cuidar dela e marcaram sua infância, dá um tom pessoal, que não perpassa o filme, mas está na introdução e na conclusão.

Para compreender a cultura (ou contracultura) brasileira, Dzi Croquettes se torna, hoje, material essencial. Imperdível! Que se tornem imortais Lennie Dale, Wagner Ribeiro, Ciro Barcelos, Cláudio Gaya, Reginaldo de Poli, Rogério de Poli, Cláudio Tovar, Paulo Bacellar, Carlinhos Machado, Benedictus Lacerda, Eloy Simões e Bayard Tonelli!

Bezerra

Um outro destaque do In Edit Brasil é Bezerra da Silva- Onde a coruja dorme, de Márcia Derraik e Simplício Neto. O documentário conta a história do grande músico e, mais especificamente, dos compositores anônimos que ele lançou. Trabalhadores das favelas e periferias, como pedreiros, trocadores de ônibus e carteiros, que contaram como ninguém, as crônicas desta realidade carioca.

Dzi Croquetes– 25/03, 19 horas, Galeria Olido (São Paulo)

Bezerra da SilvaOnde a coruja dorme– 24/03, 17 horas Galeria Olido (São Paulo);

25/03, 18 horas, MIS-SP

No Rio, será em abril e não tem ainda a programação.

Para saber a programação completa, acessem o site do evento: http://in-edit-brasil.com/2010/

Gabriel de Barcelos

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