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Arquivo do mês: outubro 2012

Caco Galhardo

Caco Galhardo

Hobsbawm

“O movimento operário proporcionou uma resposta ao grito do homem pobre. Ela não deve ser confundida com a mera reação coletiva contra o sofrimento intolerável, que ocorreu em outros momentos da história, nem sequem com a pratica da greve e outras formas de militância histórica, nem sequer com a prática da greve e outras formas de militância que se tornaram características da classe trabalhadora. Estes acontecimentos também têm a sua própria história que começa muito antes da revolução industrial. O verdadeiro novo no movimento operário do princípio do século XIX era a consciência de classe e a ambição de classe. Os “pobres não mais se defrontavam com os “ricos”. Uma classe específica, a classe operária, trabalhadores ou proletariado, enfrentava a dos patrões capitalistas. A Revolução Francesa deu confiança a esta nova classe; a revolução industrial provocou nela uma necessidade de mobilização permanente. Uma existência decente não podia ser obtida por meio de um protesto ocasional que servisse para restabelecer a estabilidade da sociedade perturbada temporariamente. Era necessária uma eterna vigilância, organização e atividade do “movimento”- o sindicato, a sociedade cooperativa ou mútua, instituições trabalhistas, jornais, agitação. Mas a própria novidade e rapidez da mudança social que os envolvia, encorajava os trabalhadores a pensar em termos de uma sociedade totalmente diversa, baseada na sua experiência e em suas ideias em oposição às de seus opressores. Seria cooperativa e não competitiva, coletivista e não individualista. Seria “socialista”, e representaria não o eterno sonho da sociedade livre, que os pobres levam no recôndito de suas mentes, mas na qual só pensam em raras ocasiões de revolução social generalizada, e sim uma alternativa praticável e permanente para o sistema em vigor.”

Trecho de “A era das revoluções”, Eric Hobsbawm

foto: Comuna de Paris

tesoura

da mão abriu-se o sangue

a tesoura na pele

 

em segundos

desmaio,

instante indescritível

 

e acordei.

 

– Epifania?

– Não. Acidente doméstico.

nuvem

deitado na rede, vejo a mais bonita nuvem que já olhei. parece Antártida, parece cinza, parece teto de igreja, parece sólida. sem acreditar nas bobagens do padre, penso que poderia subir lá e alcançar o firmamento. se é tão bonito, por que não poderia ser verdade?

*

deitado na rede, lembrei de você. tô fumando o mesmo palheiro que você gosta. deitada ao meu lado, aqui, disse-me que não poderíamos ser namorados. você perguntou se poderíamos ser melhores amigos. eu disse que não.

outro dia indagaram-me se ainda te amo. eu disse em gerúndio: “estou desamando”

pensei no amor que me mataria e rasgaria depois que você abriu o portão e saiu. hoje você, que era essencial até para esperar um ônibus, pra virar a página de um livro, é imagem desfocando. até virar borrão. até não ser mais imagem.

e o que vivemos, viverá no esquecimento, migrará para a dimensão paralela onde estão as chaves, os isqueiros, as canetas…

*

chove.

seis da tarde ando pelo calçadão da 13 de maio. as lojas vão fechando

uma atrás da outra, no caminho.

ave maria dos comerciários!

 

e o evangélico, pregador de rua

pára por um segundo,

olha nos meus olhos

e me diz que eu poderia ser salvo.

 

o chão

molha minha meia

e eu

tiro a chuva fina da minha testa.

O silêncio ensurdecedor sobre o genocídio Kaiowá-Guarani

A Mostra Luta 5 e as remoções

A Mostra Luta chega à sua quinta edição, exibindo filmes de movimentos sociais, movimentos de trabalhadores, coletivos da periferia e realizadores militantes. São lutas sociais, denúncias, expressões e diferentes olhares sobre a realidade, de pontos de vista ausentes das mídias comerciais ou mesmo dos circuitos independentes mais conhecidos.
Realizada no Museu da Imagem e do Som, em Campinas, ela foi inicialmente uma proposta de grupos com uma importante produção, mas que não tinham lugar para exibir. Ao longo das edições, a mostra abriu inscrições para todo o Brasil, convidou diferentes produções, promoveu debates e deu espaço para diversas manifestações artísticas além do audiovisual. Através deste processo foi criado o Coletivo de Comunicadores Populares, que organiza a mostra e participa de ações de comunicação junto aos movimentos sociais.

Este ano, o evento será do dia 17 ao dia 21 de outubro e terá como tema as remoções/desocupações. Embora haja uma diversidade de temas, o foco estará nas produções que tratam das ações repressivas que vêm atingido famílias em todo o país. As ações de desocupação têm sido feito para a construção de grandes obras de eventos esportivos, usinas hidrelétricas e para servir a interesses imobiliários. Filmes como “Belo Monte: anúncio de uma guerra” (André D’Élia) “O massacre de Pinheirinho: a verdade não mora ao lado” (Coletivo de Comunicadores Populares) mostram este processo.

Junto a isso, vem sendo desenvolvido um processo higienista de extermínio do povo negro e pobre. São ações policiais e políticas urbanísticas repressoras, que excluem e matam quem não pode participar do ideário de desenvolvimento de quem tem o poder. Esta grave situação em São Paulo está em filmes como “Mães de Maio: um grito por justiça” (do próprio coletivo das mães) e “Cracolândia e o Estado higienista: a violência legitimada”, de Fernanda Eda.

Enquanto a Mostra Luta acontece, o Assentamento Milton Santos, do MST em Americana, sofre ameaça de despejo, mesmo sendo reconhecido pelo Governo Federal. A comunidade Recanto dos Pássaros (tema de um dos filmes), na periferia de Barão Geraldo-Campinas está sobre a mesma tensão. No dia 20, às 16 horas, haverá também um debate com alguns destas pessoas. Temos como objetivo denunciar, discutir e publicizar o que vem acontecendo de forma cada vez mais brutal.

Como disse certa vez Orestes Toledo, funcionário do MIS e um dos principais participantes da mostra, “o MST é também o ‘movimento- dos sem TELA’. A Mostra Luta, portanto, tenta propiciar uma possível tela para os grupos que lutam para construir uma outra sociedade e sobrevivem em sua luta diária contra as injustiças do sistema em que vivemos.

Esperamos vocês!

Veja a programação: http://mostraluta.org/

Evento no Facebookhttps://www.facebook.com/events/551552664859825/?ref=ts&fref=ts

http://comunicadorespopulares.org/

Fotografia: filme O Massacre do Pinheirinho: A verdade não mora ao lado

O que mudou?

Haussmann, 1864

Pereira Passos, 1906

Cabral/Paes/Kassab/Alckmin/Dilma, 2012..

“Haussmann tenta reforçar sua ditadura, colocando Paris sob regime de exceção. Em 1864, em um discurso na Câmara, expressa seu ódio pela população desenraizada da grande cidade. Esta cresce constantemente devido aos próprios empreendimentos de Haussman. O aumento dos aluguéis impele o proletariado para os subúrbios. Com isso, os bairros de Paris perdem sua fisionomia própria. Surge o “cinturão vermelho” operário. Haussman denomina a sim mesmo de “artista demolidor”. Sentia-se predestinado à sua obra, fato que enfatiza em suas memórias. Entretanto, provoca nos parisienses estranhamento em relação à cidade. Nela não se sentem mais em casa. Começam a tomar caráter desumano da grande cidade (…)

A verdadeira finalidade dos trabalhos de Haussmann era proteger a cidade contra a guerra civil. Queria tornar impossível para sempre a construção de barricadas em Paris.”

 (Walter Benjamin em “Passagens”)

Fotografia- documentário “Atrás da Porta”, de Chapolin e Vladimir Seixas,  que mostras as desocupações no Rio de Janeiro: Clique aqui pra ver o filme completo