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Arquivo do mês: julho 2010

Um escritor

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Fenelon nasceu para ser escritor. Pelo menos era o que dizia a sua mãe, Maria do Céu, além do tio, um funcionário do Banco do Brasil que apreciava muito José de Alencar e Olavo Bilac. Nas festas de família recitava belos versinhos metrificados. Ganhou todos os concursos de redação na escola, sendo, é claro, escolhido o orador da turma.

Mas, no último ano do ensino médio, o tom de seus textos havia mudado consideravelmente. Podemos atribuir isto a uma série de fatores. Seus estudos em história trouxeram uma visão bastante crítica e pessimista da realidade. A exclusão, realizada pelo grupo dos mais ricos e populares, era muito cruel. Fenelon, assim como os garotos nerds e as moças gordas desajeitadas, ficava de fora das festinhas e sofria constantes humilhações. Mas as sucessivas frustrações amorosas talvez tenham sido o motivo mais decisivo da mudança temática e estilística. Primeiro foi Julieta: ruiva, pintada, sorridente. Depois Maria Izabel: baixinha, falante e com grandes seios. Por fim, seu grande amor, Selma: morena índia, olhar sensual, inteligente e com covinhas. Amores que geraram belas poesias, mas nenhum contato carnal.

O cenário da formatura estava armado e o orador preparado. O texto previamente aprovado pela turma era belíssimo e emocionante. Falava de coisas edificantes como o trabalho em grupo, a amizade e a importância dos estudos. Quando subiu ao palco, os formandos, assim como Dona Maria do Céu e a família de Fenelon, imaginavam o mais lindo dos discursos já proferidos numa formatura escolar.

O rapaz chegou reluzente e orgulhoso, começando logo a falar, o que de imediato acabou com a alegria das comemorações. Podemos citar alguns trechos do texto lido pelo orador, algo bem diferente do que todos esperavam:

“Parabéns aos que se comprometeram firmemente ao culto dedicado do próprio umbigo, conseguindo ser cegos para a maioria das pessoas à sua volta. (…) Parabéns ao autoritarismo escolar, que se não formou bons alunos, ao menos produziu bons soldados. Ou seriam ovelhas? (…) Parabéns aos professores, que fingiram ensinar alguma coisa e a todos nós, que fingimos aprender. (…)

Fenelon teve que ser escoltado pelos seguranças até a saída. Foi a maior vergonha que Dona Maria do Céu passou em sua sofrida vida. O mesmo pode-se dizer de toda a família Gomes presente.

Com dificuldades em prestar um vestibular depois da escola, Fenelon acabou trabalhando como empacotador de supermercado, para ajudar em casa. Nunca deixou de escrever seus textos: contos, artigos e poemas cheios de tristeza e revolta, que representavam toda a frustração dele em relação às pessoas, à sua vida e à existência como um todo. Por suas linhas passavam bêbados, personagens deslocados e sem rumo, lugares desoladores e desesperança total.

Sempre mandava seus trabalhos para revistas, jornais e editoras, mas nunca obtinha respostas. Depois de alguns anos recebeu o email elogioso de um jornal independente, propondo a colaboração voluntária. Passou a ter uma coluna semanal, algo que lhe deu bastante orgulho. Seus textos eram um sucesso, apesar da limitada circulação do periódico. Universitários e adolescentes depressivos, além de donas-de-casa frustradas formavam grande parte de um pequeno, mas fiel grupo de leitores.

Logo chamou a atenção de revistas descoladas, que pagavam um preço satisfatório por seus textos. Tornou-se conhecido no meio alternativo, especialmente na internet. Não demorou a chegar às grandes publicações, contratado como colunista de um importante jornal diário, quando finalmente pôde abandonar o supermercado.

Sua ironia e pessimismo tornaram-se conhecidos e temas de muitos comentários. Os leitores se identificavam e Fenelon passou a ser conhecido como representante de certo espírito contemporâneo. Agora tinha amigos, saía de casa e era assediado por algumas mulheres. Mas uma delas era especial. Certa noite reencontrou a morena Selma, aquela mesma com covinhas, hoje arquiteta. Conversaram a noite inteira numa festa e acordaram abraçados no quarto dela, exatamente como sonhara Fenelon nos cochilos das aulas de matemática. Casaram-se seis meses depois.

A vida do jovem escritor mudava consideravelmente. Estava casado com a mulher que tanto amava, dois romances haviam sido publicados, seus textos foram traduzidos para sete idiomas e estavam em importantes jornais e revistas internacionais. Ele recebeu uma ótima proposta de Hollywood e também de um cineasta francês para vender os direitos para uma adaptação. Fenelon e Selma estavam bem de vida e viajavam pelo mundo. Ele se considerava realizado como artista, pessoa e profissional.

O bom estado de espírito redundou numa considerável mudança nos textos. Escrevia de forma mais leve, alegre e engraçada. Não havia motivos para aquelas lamentações do passado. Falava sobre esperanças, pequenos e grandes sorrisos, a grandeza de uma existência feliz.

A mudança foi logo notada por todos. Os críticos o acusavam de piegas, clichê e sentimentalista, dizendo que tudo aquilo era sub-literatura e seus fãs o chamavam de traidor e vendido. As publicações, aos poucos, foram rompendo os contratos e dispensando seu serviço. O novo romance ficou mofando nas estantes das livrarias.

O dinheiro foi faltando e a vida ficando mais difícil. Selma sustentava a casa, Fenelon se revoltava com a falta de trabalho e as brigas eram constantes. Não demorou para se separarem e o rapaz cair em profunda melancolia. Meses depois, voltou a trabalhar no mesmo supermercado.

*

Para escrever este artigo precisava achar Fenelon Gomes. Gostaria de encontrá-lo para uma entrevista e saber melhor sobre aquela fascinante história. Depois de muito pular de fonte em fonte, acabei sabendo do lugar onde possivelmente poderia achá-lo: um boteco na periferia da cidade.

De longe já reconheço o escritor. Lá está ele, com um copo de cachaça em cima da mesa. Muito simpático, nos sentamos e conversamos por muito tempo. De maneira intensa, fala sobre o que pensa dos relacionamentos, da literatura, da mídia, da política e de vários outros assuntos. Conta que largou o emprego de empacotador e escreve, sob pseudônimo, contos eróticos para três revisas masculinas. Ganha uma mixaria, mas considera o suficiente para o pouco que come e o muito que bebe: cachaças baratas, sempre com o desconto e a compreensão de Roberval, o dono do bar.

Sempre muito bêbado e com um bloquinho na mão, ele passa os dias escrevendo histórias de amor e putaria, com todas as traições, mecânicos, enfermeiras e casas com lareiras a que tem direito. Trabalhos que ele considera, sem falsa modéstia, suas grandes obras-primas.

Ali no bar do Roberval, bem próximo da quitinete em que mora, tem amigos sinceros, ali conversa, pensa na vida e enche a cara todos os dias. Ali mesmo se encontra com Marília, uma bêbada um tanto suja, um tanto nervosa, mas que cede de maneira carinhosa aos seus afetos.

 

 

Gabriel de Barcelos

Jogador sincero- Marcelo Adnet

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Harvey Pekar, o arquivista

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Terminei ontem uma das melhores coisas que já li em quadrinhos. Bob e Harv é uma coletânea de trabalhos do roteirista Harvey Pekar, do American Splendor, (desenhados por Robert Crumb). O sujeito é simplesmente genial! Descobri Pekar através da cinebiografia O anti-herói americano, mas ainda não havia tido a oportunidade de ler suas HQs. Por sorte meu amigo João Manuel garimpou num sebo e compramos.

São histórias simples, quase banais, do autor ranzinza que a vida toda foi arquivista de um hospital, além de grande colecionador de discos de jazz. Não esperem grandes acontecimentos, aventuras, clímax ou piadas no final. As descrições dele são de dias comuns, como de qualquer um. Mas conversando com pessoas fantásticas, resolvendo problemas (alguns muito simples, outros não) e refletindo sobre a vida.

Então, terminado o post, procurei um link sobre o cara. Infeliz coincidência, me deparo com a terrível notícia! Harvey Pekar morreu ontem (ainda de causa desconhecida). Acaba ficando como homenagem a este homem e artista fantástico!

Gostaria de escrever mais tarde sobre ele. Agora, como to sem tempo, deixo duas histórias que escaneei. A primeira, Dilema Hipotético,  foi a que mais me tocou, onde ele faz uma reflexão muito legal sobre a arte e o trabalho. A segunda, Almoço com Carmella, também fantástica, onde ele lembra de uma colega de trabalho malucona. Aproveitem!

 

Leia também:

Almoço com Carmella:

https://sessao.wordpress.com/harvey-pekarcrumb-almoco-com-carmella/

Polvo alemão hesitou bastante em escolher o vice de Serra

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OBERHAUSEN – Fritz Sbeltzlarger, empresário do polvo alemão que acertou todos os resultados da Alemanha nesta Copa do Mundo, revelou ontem que foi procurado há uma semana por Sérgio Guerra, presidente do PSDB. De acordo com Sbeltzlarger, o senador estava visivelmente transtornado e afirmou que “pagaria qualquer preço para que o molusco resolvesse uma questão espinhosa do seu partido”. Guerra confessou que já procurara uma cigana em Cochabamba, um guru indiano e um pajé do Alto Xingu, mas todos teriam reagido com uma gargalhada. O polvo era a última esperança, “até porque ele não ri”.

Antes que Sbeltzlarger se pronunciasse, Guerra sacou do colete diversas fotos e pediu uma “consultoria”. Sbeltzlarger não quis revelar o valor do negócio, mas fontes sugerem que a transação girou em torno de 150 mil dólares mais um cargo comissionado na gráfica do Senado para Frida Sbeltzlarger, sua tia-avó que mora em Blumenau. Já o polvo teria sido conquistado com a promessa de passar sete dias em Fernando de Noronha com tudo pago.

As fotos de todos os possíveis candidatos a vice de José Serra foram divididos em quatro grupos. Os cabeças-de-chave foram Aécio Neves, Álvaro Dias, Rodrigo Maia e o próprio Sérgio Guerra. A partir das previsões do polvo, os vencedores de cada grupo avançaram para a fase de mata-mata. Na final, o favorito Aécio Neves disputou a vaga com o azarão Indio da Costa. Testemunhas contam que, nesta hora, o polvo hesitou bastante. Chegou a fingir-se de morto, mas Sbeltzlarger deixou claro que se o animal não fizesse logo a escolha iria para a panela. Como o polvo insistisse em não se mexer, o empresário fritou ali mesmo um dos filhotes do bicho.

Quando o tentáculo do cefalópode finalmente tocou na pele morena do deputado carioca, Sérgio Guerra ficou arrepiado e teve uma epifania. Na mesma hora, tweetou que a questão estava resolvida.

Em Belo Horizonte, Aécio Neves concedeu a Medalha do Inconfidente para o polvo, e já está pensando em lançá-lo para deputado federal. “Desde que dona Risoleta morreu, ninguém fez tanto por mim”, disse o ex-governador.

Da The Piauí Herald

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André Dahmer

http://www.malvados.com.br/

Malandro é malandro mesmo

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Está disponível, no site Porta Curtas, o filme Coruja, de Máricia Derraik e Simplício Neto. O curta-metragem, de 2001, mostra o universo que cerca Bezerra da Silva nos morros do Rio e os compositores de suas músicas. Esses artistas são homens comuns, como carteiros e mecânicos, que falam dos temas que representam a voz dos que são marginalizados. O curta-metragem se tornou um longa recentemente.

Clique aqui para entrar na ficha do filme e clique em “assista”:

“A favela, nunca foi reduto de marginal
Ela só tem gente humilde marginalizada
e essa verdade não sai no jornal”
(“Trecho de “Eu sou favela”- Música gravada por Bezerra, de Sergio Mosca e Noca da Portela)

Malvados- André Dahmer

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http://www.malvados.com.br/

Jabulani para além da Copa

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Uma família num subúrbio de Rawalpindi, a cidade militar, em 2008

Todo mundo está falando da famoso Jabulani. Se ela atrapalha o chute, se foi feita com a ajuda de Kaká e outras coisas. Mas o assunto que certamente não sairá na grande mídia é a fabricação da bola. Um trabalhador recebe 0, 75 dólares por uma bola que está sendo vendida no Brasil por 400 reais. Sendo que ele produz seis destas bolas por dia. Abaixo um artigo que saiu no site do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho e um outro que eu havia escrito por ocasião de uma reportagem do Esporte Espetacular do ano passado.

 

Bola da copa é feita com trabalho aviltante

É no interior do Paquistão país pobre, e extremamente populoso, que faz fronteira com a Índia, que são feitas as bolas de futebol  utilizadas na copa do mundo, na África do Sul. As principais empresas fabricantes do mundo, quase todas grifes de multinacionais, muito conhecidas, tem suas unidades fabris na região de Sialkot, principalmente na cidade de Sambrial. Obviamente, estão no Paquistão por causa da mão-de-obra-barata mais incentivos oficiais, como impostos baixos.

O trabalhador local recebe entre 55 e 63 rupias paquistanesas por bola costurada, o que corresponde entre U$$ 0,65 a U$$ 0,75, ou entre R$ 1,17 e R$ 1,35. Num dia normal de trabalho, com jornada de 8 horas, o trabalhador consegue fazer até seis bolas, o que lhe permite uma renda de cerca de R$ 205/mês. Esse valor, para o padrão salarial brasileiro, já baixo, é uma ninharia, mas uma para a realidade do mercado de trabalho do Paquistão é muito, pois representa o dobro da renda salarial per capita, do país, que é em torno de 60 dólares americanos, mensais.

Apesar da remuneração aviltante, a jornalista Hasnain Kazim relata que o ambiente na cidade de Sambrial é de otimismo e orgulho por parte das pessoas que se mostram satisfeitas com a prosperidade local. Ela recebeu até uma delegação da FIFA, que foi inspecionar a qualidade das bolas, costuradas no padrão oficial de 08 gomos unidos. Executivos europeus também chegam, com freqüência, à cidade.

Com tradição de 100 anos na produção desse artefato, fundamental para o futebol, que então era praticado, na região, por oficiais britânicos, quando o Paquistão, integrante da Índia, era colônia da Inglaterra, as empresas paquistanesas foram aperfeiçoando sua técnica e ganharam o respeito do mercado mundial. É considerada muito boa a qualidade da mão de obra. A costura manual propicia qualidade superior no arremate.

Outro motivo de respeito para produção paquistanesa de bolas é que foi eliminado o trabalho infantil. Até dez anos atrás o país convivia com essa chaga social, sobretudo com o trabalho familiar, onde até crianças de cinco anos já auxiliavam na costura de bolas. Felizmente essa prática já não mais existe.

Mas os salários, extremamente baixos, continuam como verdadeira nódoa nas ricas grifes européias e norte-americanas de artigos esportivos. Na verdade a região de Sialkot é a primeira etapa na linha de produção. Uma bola com preço de custo de R$ 1,35, no Paquistão, é vendida em grandes lojas de departamento, em qualquer capital européia, por até R$260,00 Outros países produtores, como o Brasil, foram atingidos duramente pela produção de baixo custo, no Paquistão. Há 30 anos, em São Paulo, as indústrias de bolas, como a Drible, tinham contrato com o Conselho Penitenciário, entregando parte de sua produção para confecção, pelos presos, na penitenciária do Estado, no Carandiru, trabalho que hoje não existe mais.

Até o Brasil importa uma parte das bolas que abastecem seu mercado, vindas até mesmo da China.

Sinait 

As bolas do Paquistão

Gabriel de Barcelos

Por que o Paquistão, país sem nenhuma tradição no futebol (o críquete é o esporte mais popular) é o maior produtor de bolas do mundo?

Vou te contar uma história que já vem sendo contada há muito tempo. Ela é muito bonita e explica a força econômica desse belo país. Um militar inglês, dos tempos da colonização, jogava uma pelada por ali e teve a sua pelota furada. Ao procurar um sapateiro, conseguiu ter o problema resolvido. O nobre trabalhador dos calçados teve, então, uma brilhante idéia: “Por que não virar o maior produtor de bolas do mundo?”

Você gostou dessa história? Pois ela não foi retirada de nenhum conto fantástico e sim de uma reportagem do Esporte Espetacular, da TV Globo. O repórter Marcos Uchôa, ao que parece, acreditou nessa incrível narrativa.

O programa foi ao ar no dia 2 de agosto, mostrando a história e beleza do Paquistão, além de perguntar sobre a aparente incoerência entre o desinteresse por futebol e a liderança na fabricação do principal acessório do esporte. Não houve curiosidade em saber por que multinacionais do setor se interessam tanto em fabricar seu material por ali, nem em saber quanto ganham os trabalhadores, quantas horas trabalham e em que condições. Todas essas questões poderiam ajudar a responder a pergunta principal da reportagem.

Pessoas de todo o mundo vêm denunciando a exploração da mão-de-obra asiática pelas transnacionais. O documentário Corporation, de Mark Achbar e Jennifer Abott mostra como os trabalhadores desses países recebem centavos por produtos que custarão nos EUA milhares de vezes mais. Não sei se o repórter pensa que todos são burros a ponto de engolir o conto da carochinha, se ele acredita que o jornalismo esportivo não deve entrar nesses méritos (o que parece estranho, pois o tema tratado é, basicamente, econômico), ou se ele próprio crê em tudo aquilo. Ingenuidade e ausência de crítica, ou vontade de legitimar e mascarar um sistema econômico e seu cruel momento?

O documentário The  Corporation também está disponível para download- http://www.megaupload.com/?d=3424F4LD  (colaboração de Marcelo Reis)

Cam, Eva e a Escrava

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Gabriel de Barcelos

Noé era o grande homem sobre o nosso mundo.

Era o único digno nesta terra de erro profundo.

Deus o escolheu para salvar a humanidade.

Coube a ele acabar com todo horror e iniqüidade.

Fez aquela arca com grande trabalho braçal

e lá colocou um casal de cada animal

*

Depois de tudo acabado, foi plantar uva

e com todo direito, foi tomar uma.

Aquele vinho o fez sentir como criança.

Sem pestanejar, começou uma estranha dança.

O problema é que poderia acabar falado.

Pois, além de tudo, estava pelado.

*

O filho Cam veio ajudar no mesmo instante,

tirando seu pai daquela situação humilhante.

Mas Noé não gostou, gritou que ele não presta,

pois viu o seu pai nu, destituído de sua veste.

Depois disso Cam ouviu um sermão

e sobre ele caiu uma triste maldição.

*

Agora Canaã, filho de Cam, estava marcado,

para sempre teria que ser escravo.

Mas a maldição que foi imposta, não era só isso não,

todo o povo dele descendente iria, também, para a escravidão.

E dessa forma cometeu-se o terrível engano:

para sempre foi subjugado o continente africano.

*

Na África estavam os descendentes de Canaã, que de Noé era neto.

E a Igreja Católica achou que ter um escravo era até certo.

Com dinheiro e portando a verdade, catequizaram os gentios.

Ajudaram a escravizar, ficando com mais ouro e poderio.

E dessa forma foram destruídos, sem pesar, povos inteiros

e o negro passou a ser, desde então, prisioneiro.

*
*

Mas, devemos lembrar antes, de quando tudo surgiu da treva.

Onde foram criadas as plantas, animais, além de Adão e Eva.

“Podem comer todas as frutas do Édem”, disse Deus ao casal.

Menos aquela: a do Conhecimento do Bem e do Mal.

Foi aí que Eva viu a Serpente, faladeira e astuta:

“Você vai conhecer melhor as coisas, comendo esta fruta”.

*

Eva duvidou, mas comeu e ofereceu ao seu companheiro.

Então Adão comeu aquela saborosa fruta por inteiro.

Que mal teria, conhecer o mal e o bem?

O que Eva queria era ir além!

A fruta era uma delicia, ficaram com tesão e mais sabidos.

E não entenderam por que não poderiam ter comido!

*

Mas chegou Deus todo bravo, acabar com a alegria.

Dizendo que tudo aquilo era uma grande heresia.

“Estão expulsos do Jardim do Édem”, ele berra.

“Mulher, você agora amaldiçoou toda a Terra!”

Então, por causa da fêmea e deste passado,

Passamos a viver sempre no pecado!

*
*

Anos depois, na senzala, a negra leva chibatada.

E pelo nhozinho é horrorosamente estuprada.

Ela pensa como este mundo é cruel!

Qual a razão de não existir para ela o Céu?

Chorando, sofrendo, ela pensa com toda dor no coração:

“Se não conheci Cam e Eva, por que cair em mim esta maldição?”

Estou errado, não tenho carro

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Gabriel de Barcelos

Estou errado, não tenho carro. Não existe lugar nas cidades para quem não tem carro. Hoje o natural é ter um automóvel. Se você não conseguiu comprar o seu, provavelmente é um incompetente. Você, então, está contra a maré. Está errado!

Quando falamos de um parque, imaginamos um local público, para diversão, prática de esportes, sociabilização, caminhadas para pensar, um pouquinho de natureza… Acima de tudo, um espaço público. Em Campinas, no Parque Portugal (Lagoa do Taquaral), você terá bastante dificuldade para transitar a pé no entorno. Com uma série de cruzamentos, rotatórias e um grande fluxo de veículos em alta velocidade, é muito arriscado atravessar. Imagine com uma criança! Não existe sinal, passarela e, como em quase todas as ruas, os carros não respeitam a prioridade do pedestre na faixa.

Isso se repete em toda a cidade de Campinas. Num cruzamento onde passo todos os dias (Avenida Santa Izabel com Gilberto Pattaro- Barão Geraldo), o sinal nunca está aberto para o pedestre. Quando fecha uma mão, abre imediatamente outra para os carros. Resta ao pedestre a corrida para tentar chegar vivo do outro lado.

Não quero fazer disso uma reclamação pessoal. Acho bem chato o uso da internet para isso. Só coloquei estas observações, pois penso que fazem parte de uma questão bem mais ampla, que pretendo escrever melhor depois. Sabemos a situação caótica das cidades, todo o trânsito, mortes e outros problemas gerados pelos automóveis. Isso sem falar dos danos ambientais, um dos mais graves delitos cometidos por estas máquinas.

Obviamente não estou aqui falando da extinção dos carros, mas sim de uma mudança de paradigma. Não sou simpatizante das soluções individuais, do tipo “faça a sua parte”. Isso é idealista e nunca resolverá o problema. Lutemos, então, por políticas públicas que repensem a cidade, os espaços e pense nos pedestres, ciclistas, deficientes, crianças, além de outros. E que, se necessário, limite a quantidade de automóveis transitando nas ruas, pois não há mais espaço para todos eles.    

Mas estamos bem longe disso. Infelizmente, as pessoas ainda acham que a luta ecológica é resumida a um monte de gente abraçando árvores e mico-leões. Na verdade, trata-se de algo bem maior. É a construção de uma outra sociedade, sócio-ambiental, onde repensaremos a relação entre o indivíduo e o meio-ambiente, o espaço urbano, a produção industrial, a agricultura, o comércio. Um lugar onde contestaremos o determinismo e evolucionismo do desenvolvimento tecnológico (ele é sempre bom?) e haverá outro tipo de relação coletiva.

Vivemos uma tendência contrária, cada dia mais. A candidata Dilma Roussef e seu desenvolvimentismo destruidor é o maior símbolo disso. A destruição do Código Florestal está, também, neste sentido. Estamos colocando em prática um projeto fracassado, desde a Ditadura Militar (talvez antes). Mais carros, hidrelétricas, poluição, latifúndios, mecanização. Mais povos expulsos, como indígenas, ribeirinhos, camponeses e quilombolas, mais gente indo viver marginalizada nos grandes centros. Mais pobreza, destruição, poluição, caos…

Enquanto isso nós, incompetentes que não conseguimos ter um carro, andamos por estas cidades sem planejamento, sem emprego, com violência, tentando nos esquivar dos carros, perdidos num lugar onde não ter a sua máquina particular constitui-se como crime. Já chegamos ao dia em que andar a pé tornou-se algo anti-natural, onde pessoas valem menos do que números do PIB na manchete do jornal e onde se torna mais seguro caminhar parado numa esteira da academia (com ar condicionado e segurança) do que andar simplesmente na rua, ver pessoas e participar do mundo.