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Fred Rocket

Publicado em

Gabriel de Barcelos

1-

O que estou fazendo aqui neste maldito shopping? Cadê aquele meu agente incompetente? Adolescentes coloridos e afetados, lanchonetes, dondocas histéricas…Que lugar maldito é esse?

Quem diria! Eu, Fred Rocket, um ídolo brasileiro, ter que me submeter a esta vida medíocre! Apenas uma pessoa me reconheceu hoje. Uma coroa com tintura mal-feita no cabelo. Veio conversar comigo e disse que dançou muito nos anos 60 com minhas músicas. Um pequeno instantâneo de alegria, neste país onde as pessoas não reconhecem seus artistas. Estes jovens não fazem a mais remota idéia sobre Fred Rocket.

Como pode um artista que já esteve na lista dos mais vendidos ter que fazer estes shows que deram na telha chamar de “retrô”? Ou festas para aposentados e confraternizaçõezinhas de empresas? Eu mereço tapetes vermelhos e a glória, nada menos do que isto!

Como não tenho mais aqueles lindos cabelos longos dos anos 70, acabei tendo que ir sozinho procurar uma peruca para o show do final de semana. Será numa convenção de vendedores de seguros.

Vou ao banheiro do shopping e sento na privada. Pelo buraco embaixo da porta vejo uns sapatos se mexerem e ouço a voz de um sujeito falando algo sobre a bíblia e a salvação. Não dá para cagar deste jeito! Nesta idade já não é muito fácil fazer funcionar o intestino. Resolvo, então, desistir. Como não achei o diabo da peruca, vou ligar para aquele meu agente de merda e falar para arrumar.

A única coisa que eu queria era sair dali. Mas este lugar é enorme e parece um labirinto! Demorei meia hora para achar a saída. O moço que recebe o estacionamento me confunde com o Luiz Caldas. Que ótimo!

Pego o carro e vivo os meus últimos instantes. Vendedor de laranjas, menino, malabarista, apressadinho buzinando, idiota falando no celular e atrapalhando o trânsito, ônibus escolar, homem da van gritando o destino…

Foi tudo muito rápido. Num cruzamento, não olhei direito quem vinha. Só escutei aquele barulho e senti a pancada violenta. Não senti muita dor, somente por alguns segundos. Logo depois veio a escuridão total.

2-

– O que está acontecendo? Cadê meu carro?

– Tenho uma má notícia para lhe dar. Você está morto.

– Deixe de brincadeiras. Tenho aquele maldito show para os vendedores de seguros no fim de semana. Tenho que ensaiar.

– Você nunca mais vai se apresentar. Agora viverá a eternidade.

– Já sei, já sei. Isto é aquele negócio… aquelas ridículas brincadeiras que fazem hoje na TV. Pegadinha, é isso! Pode acender tudo e mostrar as câmeras!

– Não, isso não é uma pegadinha.

– Não é?

– Não, não é.

– Então…

– Isso, acabou tudo.

– Tá certo que minha vida não era lá grandes coisas, mas eu quero viver mais. Quero voltar!

– Não tem como.

– Não tem mesmo?

– Não.

– Hmm….

– Então é isso… acabou tudo… que merda!

– Meus pêsames!

– Como pode! Ainda desta maneira!

– Infelizmente estava escrito.

– O.K, então. Mas ouvi falar que antes de morrer nós vemos toda a nossa vida passar pelos olhos.

– Tá, tudo bem, lhe concedo um flash-back integral. Durará um segundo, para que parecerá ser uma eternidade.

– Que comece logo!

– Vamos às imagens: ali você sozinho, no seu apartamento, mês passado. Não parece bem não.

– Estava muito bem. Tinha acabado de pedir uma pizza ótima pelo telefone. Não adianta vir com estas balelas de conto de Natal. Sou feliz solitário e não vou virar um velhinho sorridente e caridoso.

– Tudo bem, tudo bem, vamos adiante. Ali você brigando com sua segunda esposa. Logo depois vocês se divorciaram.

– Mas você tinha que me lembrar justo deste encosto!

– Olha aí o dia em que você saiu com ela pela primeira vez.

– Ela estava linda! Nós dois tínhamos terminado nossos casamentos. Já havíamos tido um caso na época da Jovem Guarda. Que saudade daquele tempo! Pois é.. Casar com Esmeralda foi uma tentativa de recomeço. Uma segunda chance. Grande ilusão!

– Mas vocês passaram bons momentos juntos não?

– Sim, com certeza! Acabou um dia. Sobrou só o ódio de um pelo outro. Mas meu grande amor foi minha primeira esposa, Marcela.

– Por que Marcela se matou?

– Não quero falar sobre isto, nem ao mesmo pensar neste assunto.

– Nem agora?

– Nem agora.

– A lá você ganhando o seu primeiro show de calouros!

– Foi emocionante esta apresentação!

– Olha a sua formatura, você  na escola, você esperando o Papai Noel…

– Eu era uma gracinha!

– Você dando seus primeiros passos, sua mãe limpando sua merda, seu parto, fecundação, olha o espermatozóide vencedor da maratona, agora a parte que…

– Pula isso, pelo amor de Deus!

– Mas foi lindo ein! Seu pai deu três!

– Poupe-me dos detalhes!

– Sim, tudo bem.

– Então é isso?

– Isso o quê?

– A vida: um breve espaço entre uma gozada e um acidente de carro.

– Aprendeu rápido!

– Que vida medíocre esta que eu vivi!

– Não foi medíocre de maneira nenhuma! Você teve fama, amou mulheres, conheceu países!

– Sim, mas terminei meus dias fazendo shows para aposentados e eventos corporativos. Há algumas horas eu estava procurando uma peruca num desgraçado de um shopping….. Que cara é essa que está fazendo? Em que está pensando?

– Estou decidindo algo…

– O que é? Diga logo!

– E se você voltasse?

– Como assim voltar? Mas eu voltaria como? Eu seria um orangotango ou um aborígene na Austrália, algo assim?

– Não é reencarnação. Seria retornar e concluir de maneira digna a sua vida. Tudo isso que estamos vivendo seria uma experiência de quase-morte.

– Muito obrigado, mas não quero.

– O que está dizendo?

– Não quero voltar. Ande logo com os anjinhos tocando harpas e os campos floridos!

– Mas você tem a chance de terminar bem esta bela vida!

– Não quero voltar para toda àquela desgraceira! Mudei de idéia!

– Pense no que pode fazer diferente!

– Estou decidindo…

– Pense bem!

– (….)

– Vamos!

– Tudo bem, eu vou!

3-

O cantor Fred Rocket continua desaparecido

Fabíola Abranches

Jornal O Informativo

Continua sem paradeiro o cantor de rock Fred Rocket, que desapareceu a dois meses do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O músico sofreu um acidente ao sair de um shopping no centro da cidade, no dia 15 de janeiro e estava internado em estado grave. No dia seguinte ele não foi mais encontrado no leito, iniciando um grande mistério sobre a sua localização.

Fred Rocket foi visto pela última vez na manhã do dia 16 de janeiro, pela enfermeira Roseli Ferreira. Segundo ela, o quadro dele era estável, permanecendo inconsciente e sem demonstrar nada de incomum. É um grande mistério para os médicos o fato de alguém naquele estado conseguir sair dali. Segundo o clínico geral João Roberto Machado, não existia nenhuma possibilidade de melhora a curto prazo, sendo impossível o músico sair de lá por conta própria. A Polícia Civil, que investiga o caso, levanta a possibilidade de seqüestro.

Mas, durante este período de busca, algumas pessoas, de diferentes lugares do mundo alegaram ter visto Fred Rocket. A família Pitangueira, que passou férias no Taiti, disse ter comido frutos do mar num novo restaurante aberto por um ex-músico brasileiro. Para eles, trata-se do astro da Jovem Guarda. “Era um moço muito simpático e ainda nos fez uma cortesia, oferecendo uma cachaça brasileira”, disse a representante de vendas Eliane Pitangueira.

Em Calcutá, Índia, a seita conhecida como Atma-jnana anunciou a descoberta da 15º reencarnação do seu líder e fundador Amal Amal, um brasileiro que mudou-se recentemente. Através de algumas fotos, é possível ver grande semelhança entre o “iluminado” e o músico brasileiro.

No México, um foco de guerrilha foi iniciado no Vale de Puebla através do grupo “Brigada de Libertação do Povo”. Um dos líderes do movimento é um brasileiro de longos cabelos cacheados. O repórter Javier Perez, da agência de notícias México Express, acompanhou a dia-a-dia do acampamento montado pelos guerrilheiros. Ele conta que à noite, nas festas realizadas no local, o brasileiro canta e distrai os militantes. Perez não tem dúvida que este seja o músico brasileiro desconhecido.

Josiane Silva, de Jundiaí- São Paulo garante ter visto Fred Rocket tocando violão no Metrô de Nova York. Já um vendedor, que não quis se identificar, afirma ter encontrado o cantor num prostíbulo em Florianópolis. “Ele estava bastante alcoolizado, mas parecia estar se divertindo bastante com uma morena alta”. A polícia garante que continuará a investigação, mas afirma que ainda não encontrou nenhum indício mais concreto do paradeiro.

Popular, agressivo e atropofágico

Frederico de Maria Souza, o Fred Rocket, nasceu em São Paulo, capital, no dia sete de novembro de 1944. De família humilde, sua mãe era costureira e seu pai ferroviário.

No início dos anos 60, ainda bem jovem, começou a cantar em casas noturnas e participar de programas de auditório nas principais rádios da cidade, além de programas de TV. Seu rock agitado e dançante, junto às suas músicas românticas conquistaram logo o público jovem, tendo ele participado, também, da Jovem Guarda e do movimento de rock paulistano dos anos 60. Era famoso por suas roupas coloridas e performances exageradas.

Em 1965 lançou seu disco de maior sucesso, “Liberdade Bronzeada”, com a faixa “Eu quero é entrar na sua”, que permaneceu por um mês entre as mais tocadas do rádio.

Considerado um cantor brega para a grande maioria da crítica especializada, a música de Fred Rocket foi alçada à categoria de genialidade pelo movimento tropicalista, no final dos anos 60. O rock star paulistano foi uma grande inspiração para os artistas da Tropicália, que buscavam nele as atuações performáticas e a mistura de sons do rock com ritmos como o bolero. Para Gilberto Gil, “Rocket era o resumo do que queríamos: popular, agressivo, antropofágico!”

Mas, a partir de meados dos anos 70, o cantor encontrava cada vez mais dificuldade de emplacar um sucesso, desaparecendo, aos poucos, da cena artística. Seus trabalhos, desde a década de 80, estavam limitados a algumas festas dos anos 60 e apresentações em eventos corporativos. Segundo vizinhos, ele demonstrava, ultimamente, profundo mau humor e grosseria.

Contudo, depois do desaparecimento, a procura por CDs, filmes e livros relacionado à figura de Fred Rocket cresceu 440%. Os downloads de suas músicas estão no topo da internet brasileira, o assunto sobre o seu desaparecimento é o mais comentado no Twitter e seus vídeos os mais visualizados no You Tube. O culto ao astro do rock está crescendo tanto, que a sua casa foi invadida e pertences seus roubados, alguns indo parar em sites de leilões virtuais.

Para homenagear o ídolo, alguns músicos farão um show no Sesc Avenida Paulista, com covers das suas principais músicas. Entre os convidados estão Gilberto Gil, Tom Zé, Erasmo Carlos, Wanderléa e Arnaldo Antunes. O diretor de teatro Gerald Thomas irá interpretar o texto “Email para a operadora Tim”. Segundo ele, “através desta mensagem raivosa de Rocket para a operadora de celular, o artista mostra sua genialidade no uso das palavras, deixando aparecer raiva e poesia, fazendo de um pequeno celular que não funciona um motivo para quebrar os limites da simples linguagem”.

O show começará às 22 horas.

»

  1. Caraca, Gabi…ADOREI esse conto. Nada surpreendente para quem sempre fez arte com as palavras. Beijos orgulhosos. Renata

    Responder
  2. Gabriel,

    Você tem problemas mentais graves. Procure tratamento o quanto antes.

    Abração

    Responder

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