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Olhando janelas, preso a cadeiras: Janela Indiscreta

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“Cada época sonha não apenas a próxima, mas ao sonhar, esforça-se em despertar”- Walter Benjamin

Motivado por uma palestra sobre Hitchcock, decidi rever Janela Indiscreta. Ao assistir hoje o filme de 54, percebemos a analogia um tanto óbvia  com a contemporaneidade. Isso se dá na observação das janelas dos vizinhos por parte do fotógrafo interpretado por James Stewart (que conduz toda a narrativa) e o universo das novas tecnologias, em especial a internet e todo ambiente de vigilância e espetáculo onde convivemos com esta visão de tantas “janelas”. Não acredito no determinismo da tecnologia, ou seja, num modo social determinado unicamente por novas técnicas. O “estar” no mundo contemporâneo é produto  de uma relação dialética: de um lado, os sonhos e inquietudes produtoras de novas mediações e, do outro, nossas afinidades e choques com os dispositivos já existentes. Existe uma frase corrente entre os fãs de ficção científica que diz: “a ficção científica não prevê o futuro, inventa o futuro” (Não sei qual é o autor, quem souber, escreva nos comentários). Esta máxima pode ser aplicada também à obra-prima de suspense de Hitchcock, cineasta que entendeu como ninguém nossas angústias ou mesmo perversões. Janela Indiscreta, portanto, é o instantâneo de um processo pelo qual estamos fortemente submersos até os dias de hoje.

Está claro na obra de Hitchcock a sua engenhosa habilidade em utilizar as relações constituídas no próprio processo cinematográfico, tais como a espectorialidade, o olhar, o voyeurismo e o ponto-de-vista. O diretor usa sua habilidade cinematográfica se valendo destes recursos tanto para fascinar o público e prender sua atenção, como para provocá-lo em suas mais íntimas paixões. Mas, ao assistir Janela Indiscreta, o que mais me toca em relação aos dias de hoje está menos nas janelas que o fotógrafo Jeffries observa do que nas condições objetivas que definem o lugar de observador do protagonista (ele está preso na sua cadeira e em seu apartamento por conta de um acidente). Ao olhar as diferentes histórias, emolduradas pelas janela dos vizinhos, ele se depara com o possível assassinato de uma mulher por seu marido. Como eu afirmei num poema, desde quando descolamos as pálpebras no nascimento, passamos a existir fora de nós mesmos. Olhar o mundo é fascinante e difícil. E ver  pressupõe a responsabilidade e possíveis consequências de uma imagem que não será mais apagada de nós. Numa das mais incômodas cenas do cinema hitchcokiano, Lisa, a namorada de Jeff (interpretada por Grace Kelly) é atacada pelo vizinho suspeito de assassinato, ao procurar pistas em seu apartamento. Isso acontece por que ela vai até o outro lado resolver a situação. Lisa é quem toma uma atitude que rompe com a inércia da observação. Preso a uma cadeira, o fotógrafo nada pode fazer a não ser se contorcer e observar o risco corrido pela garota. Seria “ver” algo oposto a “agir” ou “viver”?

Como trabalho e pesquiso com a militância e ativismo na comunicação, este tema me toca especialmente. Todos que utilizam o olhar para o mundo com câmeras, fotografias e palavras para denunciar e lutar por mudanças sociais passam pela sensação de que pouco podem fazer. Vemos as diferentes desgraças na internet, presos à nossa cadeira. A vontade cada vez maior de olhar as janelas múltiplas do mundo, de dentro de nossos lares contrasta-se com a sensação de impotência perante os problemas pelos quais nosso olhar não é poupado. Atravessar a barreira da rua, indo ao encontro do perigo, parece ser o impulso necessário. Se Jeff era um fotógrafo aventureiro viajante, descobre em casa um dispositivo interessante através de seu binóculo, onde pode ver diversas narrativas dos apartamentos. Nós, fascinados pela internet, fazemos dela um fim nela mesma e nos deparamos na contradição entre possuir uma importante lente para o multiplicidade do mundo e uma cadeira que nos impede de atravessar a barreira do apartamento. Nosso vício voyeurista nos parece arrebatador, nos instiga, motiva, ao mesmo tempo que nos imobiliza. Não acho que esse dilema será resolvido tão facilmente e o filme de Hitchcock é um bom convite para pensar essa e outras questões contemporâneas.

Gabriel de Barcelos

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