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Hostilidade

(Talvez a grande paixão dos boêmios seja a possibilidade da noite. Campo livre para quem busca pessoas interessantes, com histórias de vida incríveis, alguém que falará sobre um livro ou um filme que você não conhece ou topará partir junto com você bêbado para algum lugar inusitado. A noite pode ser banal, onde você terminará no mesmo lugar onde começou, fumando, bebendo e pensando sobre você mesmo, mas pode transmutar-se  numa demonstração entrópica que lhe tirará dos eixos e o fará acordar numa casa estranha)

Eu a conheci por acaso, no bar. Ela vinha pela primeira vez à cidade, para fazer uma entrevista de emprego. Conversamos muito- tínhamos gostos e sonhos parecidos. Aos sair do bar, dispensei uma carona pra poder caminhar mais com ela e deixá-la em casa. Me despedi com aquela esperança curiosa, que articula probabilidades mil na cabeça de quem é bobo de verdade.

Uma semana depois recebo a notícia do êxito com o emprego. Começaria no outro semestre. Passamos a trocar mensagens e iniciamos uma relativa intimidade repleta de carinhos e planos. Tentei ajudá-la com questões burocráticas e logísticas para a sua chegada, além de aliviar as inevitáveis preocupações com o desconhecido. Eu prometia mostrar os melhores lugares da cidade e ela prometia me fazer entender Hilda Hilst, depois de tomarmos algumas taças de vinho.

A minha expectativa era grande e eu pensava nela quando estava triste.

Bem… não lembro como foi nosso primeiro encontro depois da sua chegada ou  talvez não saiba hoje descrever, exigindo ao texto uma elipse necessária. Mas posso dizer que algo estava diferente.

Entre nós passou a existir uma estranha hostilidade. Olhávamos com desconfiança e nossas conversas se aproximavam mais de provocações, afastando-se de qualquer possibilidade de afeto. Eu tentava ler a mente dela através de seu olhar cético e triste, adivinhando julgamentos sobre mim: “estereotipado” “desinteressante” “caricato” “chato” “vazio”. Como de fato ela apresentou uma imensa resistência à cidade, aliada a uma saudade de casa e de um antigo amor, eu representaria tudo o que ela odiaria naquele momento.

Discordávamos de tudo, de cinema à política. Eu falava sobre se abrir para o lugar e para as pessoas e ela dizia que aqui nós nos divertíamos com muito pouco. Nossos encontros foram ficando cada vez mais rápidos e raros. Se no início vivíamos brigando, no final compartilhávamos o silêncio num restaurante qualquer e eu me sentia intimidado pela sua inteligência e criticidade.

Resolvi não mais procurá-la quando percebi que a minha vontade de estar com ela atrapalhava a sua intenção de estar só e terminar suas obrigações. Mesmo com a decepção por tudo o que ela representou, retirando de mim aquela esperança de noites inteiras de conversas plenas, eu mantinha uma estranha curiosidade. Me conformei em tê-la como hipótese, até que a memória naturalmente tratasse de desfocar a imagem.

*

Ontem nos encontramos, por acaso, no supermercado. Trocamos os obrigatórios assuntos, o que você está fazendo da vida e coisas correlatas. Pensei em falar sobre a noite que vivi ontem e tudo o que conheci da cidade, talvez sobre o livro que li e saber se ela estava feliz, se encontrou um novo amor ou se tinha ido ao cinema… Falaria sobre as esperanças que tinha inicialmente e sobre as promessas que poderíamos agora cumprir.

Mas só perguntei sobre o emprego. E nos despedimos na fila do caixa.

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