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Arquivo do mês: setembro 2013

Colo

Você não

me acolhe mais

no seu colo

 

não mais me encontro

entre suas coxas

 

sofro, liberto

sem retorno

 

do parto

onde nunca cheguei.

O “eu” (centro) e a periferia

Tuca Vieira
 
“Desde a ociosa reflexão de Descartes, a teoria de cima insiste na primazia da ideia sobre a matéria. O ‘penso logo existe’ definia também um centro, o ‘eu’ individual, e o outro como uma periferia que se via afetada pela percepção desse ‘eu’: afeto, ódio, medo, atração, repulsa. (…)” 

(Subcomantente Insurgente Marcos. Trecho retirado de Nem o centro nem a periferia: sobre cores, calendários e geografias)

Lembro dessa citação , ao ler a maioria dos trabalhos sobre o audiovisual popular (tema de minha pesquisa). Me parece que, dentro dos estudos de cinema (assim como em outros estudos da área de artes e cultura), o que é produzido pelos movimentos populares é sempre visto como a “voz do outro”. Essa visão pressupõe a existência de um “centro”, ou um “sujeito central” e outro que é a “periferia”, “o outro”. E a posição desse outro, é colocada à margem, de forma decorativa e dócil, mantendo sempre a prioridade de um “centro” enunciador dos discursos.

 
Gabriel de Barcelos
 
Foto: Tuca Vieira (Bairro Paraisópolis)

Internet: Utopia e Distopia

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É de fato profético o livro 1984 de George Orwell. O que ele não poderia prever (e isso está claro na carta onde ele explica as motivações do livro) é que a concretização do “Big Brother” viria não de Estados autoritários clássicos, como os nacionalismos, fascismos e stalinismos, mas na evolução do modelo liberal. Vários autores, como Fukuyama, advogam a favor do neoliberalismo defendendo um desenvolvimento tecnológico ilimitado que só seria possível dentro desse sistema. Não tenho certeza se essa afirmação é verdadeira. Mas é fato que somente uma economia liberal rica como a dos EUA poderia criar os melhores e mais sofisticados instrumentos de vigilância e controle.

A internet é, ao mesmo tempo, a utopia e distopia de nosso tempo. Com o discurso de liberdade total e fluxo de informações, ela também pôs em prática um modelo sem precedentes de controle pelas grandes corporações, pelos Estados Nacionais, mas com uma sala de monitoramento central nos EUA, que orientam todo o precesso. Hoje, o inimigo mais poderoso vem de um autoritarismo muito mais competente, que Milton Santos chamou de “Globaritarismo”. E o caminho do capitalismo, ao contrário do que o discurso único hegemônico defende, é a barbárie.

Hitchcock e a psicose de criar

Alfred Hitchcock já estava com 60 anos, vivia o clímax de sua carreira e os jornalistas questionavam “por que não pararia no auge?” Já as produtoras queriam um filme nos moldes de “Intriga internacional”, que seria sucesso certo.O velho Alfred, contudo, vivia uma crise existencial e estética, não queria apenas ser o que esperavam dele e desejava se sentir vivo, um cineasta que ainda poderia produzir obras-primas. Ele decide, então, adaptar um livro inspirado na história de um serial killer obcecado pela mãe. A imprensa o desdenhou, questionando o motivo de um realizador de tão “bom-gosto” filmar uma sanguinolenta história “barata”, sobre um psicopata entranhado num hotel de beira-de-estrada.

Ninguém aceitou financiar o seu filme e ele hipotecou a sua casa pra realizá-lo. A história, como todos sabem, resultou numa das maiores obras-primas do cinema, “Psicose”. O filme “Hitchcock” dirigido por Sacha Gervasi e estrelado por Antony Hopkins, conta esta história. Apesar de algumas imperfeições, ele é uma bem-vinda reflexão sobre o papel do artista. George Orwell afirmava que “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.” O mesmo pode se dizer do cinema e da arte como um todo. Hitchcock assumiu uma posição entre o romantismo e a vanguarda e nos faz perceber a eterna necessidade de fugir às confortáveis expectativas do sistema. Da mesma forma, mostra a importância de assumir aquilo que é honesto e sincero dentro de nossos desejos e pulsões criadoras, transformadoras, por mais que tentar reprimir essa vontade seja condição essencial do que nos cerca.

Entre

Quero apenas o espaço
entre a ideia que me parece genial
e o tempo em que ela se perde no ar
em projetos não realizados

O espaço entre o beijo do primeiro encontro
e a expectativa de tudo o que poderia ser entre nós
viagens imaginadas
e o sorriso eterno de nossa despedida

Quero o céu que só eu vi
e que ao correr para descrevê-lo no papel
não acho nenhuma palavra possível
e viro do lado, pois cochilar

seria a minha maior contribuição para a humanidade.

Gabriel de Barcelos