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Maria do Socorro e Roberto sentados no bar

Publicado em

Gabriel de Barcelos

Eles se amaram muito, não há dúvida! E, de certa forma, ainda se amam. Maria do Socorro e Roberto estão sentados no bar daquele fim de domingo. Quando olho para eles, a primeira coisa que me lembro é da pintura de Degas. Mas é só permanecer mais um pouco para entender que se trata de algo bem diferente. Ao contrário daquele casal entorpecido pelo absinto, no século XIX, não vejo a tristeza profunda nos olhos destes dois sentados no Bar do Pedrão. Infelizmente, o sentimento parece um pouco pior, algo como uma indiferença em relação ao cônjuge e em relação ao mundo. Eles ficam mudos, trocando umas seis palavras a cada cinco minutos, raramente com a coincidência do olhar.

Cerveja, lingüiça e mandioca na mesa. O local está cheio hoje. Homens velhos se abraçam, depois de várias doses de 51, celebrando a fraternidade masculina que existe em cada bar de esquina. Jovens jogam sinuca e se provocam por causa do futebol, enquanto alguém escolhe Zeca Pagodinho na Jukebox.

Maria do Socorro e Roberto continuam sentados, observam o movimento, mas sem grande interesse. Ela lembra da grande revelação que acontecerá segunda, na novela, da prima que vai se casar, da patroa que ela odeia e da chuva que poderá molhar toda a roupa no varal, pois o tempo começa a fechar. Roberto pensa no empréstimo que deve pagar, na revelação da novela, na filha que saiu de casa e na tinta que usará na reforma da casa. Apenas preocupações, lembretes, opiniões, nunca aspirações, projetos de vida ou algo que mude radicalmente o rumo dos acontecimentos.

Ele esconde um caso com outra mulher e já teve várias amantes durantes os 27 anos. Ela só o traiu duas vezes. Ambas durante o tempo em que Roberto trabalhou na Bahia, dando-lhes poucas notícias. Foi com o primo Sílvio, em seu orgasmo inesquecível.

Mas, se os filhos já saíram de casa, se ambos trabalhavam e podiam se sustentar, por que continuar juntos? Por que não partir para outra? Sem dúvida é difícil entender motivos e razões tão íntimas. É custoso compreender a necessidade da casa, da vida e do chão já conhecidos. Eles preferiram ficar juntos, morrer juntos.

Não sei por que, mas aquele casal me fascinava cada vez mais. Não conseguia tirar os olhos dos rostos que miravam o vácuo. Queria ser um grande amigo e ouvir, secretamente, as confissões de cada um. Saberia seus segredos mais guardados e daria conselhos inúteis, porém bem intencionados. Mas eu, com idéias modernas sobre liberdade, não conseguiria entender seus motivos, suas decisões. Nada a acrecentar para a experiência posta à mesa.

Comecei a me conformar em ser apenas um observador, indo, alguns domingos, ao mesmo lugar. Encontraria, no Bar do Pedrão, pessoas alegres e companheiras. Situações engraçadas ou comoventes. Interessantes histórias de vida e lamentações, contadas na dor diante o copo de cachaça. E, principalmente, espiava o mesmo casal que não se olhava, nem se falava, mas guardava um amor que só eles entenderiam, só eles poderiam viver.

Já estava ficando tarde. Roberto levanta, sai da mesa e vai em direção ao balcão para pagar a conta. Os dois levantam e saem aguardando a rotina da segunda-feira. Já é tarde e o Fantástico vai começar. Não se atrasem!

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  1. é, o casamento e seus mistérios… e o tempo. na minha também jovem vida prego algumas liberdades, mas ainda prefiro o relacionamento fusional, aquele da mistura entre duas pessoas. agora, o que fazer com o desejo de transar com outras pessoas, estando casado> o que fazer com o desejo, em vista da dependencia do ultimo em relação às condições financeiras e materiais> duvidas de um jovem pobre e ilustrado.

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  2. A ilusão da companhia e a frustração da inércia, mas algum conforto. Enquando todos tentam se libertar das telas de Goya.

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  3. Pingback: Crônicas do Sessão « Sessão

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