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O último kavernista apresenta: sessão das cinco

Publicado em

Gabriel de Barcelos

No ano passado, Raul Seixas recebeu aquela que talvez tenha sido a sua maior homenagem. Na Virada Cultural de São Paulo, um dos palcos (belamente montado na Luz) se dedicou à interpretação de todos os seus álbuns, através de vários músicos. Foram 24 horas de Raul!

Eu assisti a uma boa parte, permanecendo do fim da noite até uma grande parte da manhã. Mas, infelizmente, acabei perdendo o show que eu mais queria ir: Edy Star fazendo Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta: Sessão das 10, histórico disco coletivo de Raul, Edy, Míriam Batucada e Sérgio Sampaio. Mas Raulzito, lá de cima e os organizadores, cá na Terra, me deram outra chance, que espero não perder. Edy voltará a fazer a apresentação do ano passado. Ele estará às cinco da manhã, do dia 16 de maio, no Boulevard São João, acompanhado novamente pela Caverna Guitar Band.

Mas por que o meu fascínio e de muitos fãs, por este disco? Subestimado pela crítica e pelo público, este álbum marginal é um dos mais interessantes já gravados no Brasil. Mas vamos à História: O ano era 1971 e Raul trabalhava na gravadora CBS. Existem duas versões sobre a realização do trabalho. A primeira, mais conhecida, é do próprio Raulzito.Em entrevista, ele afirma que se aproveitou da ausência do diretor-presidente da empresa, juntou os outros três músicos, fazendo um disco totalmente anárquico e com uma dose de experimentação que não agradaria os diretores. Descoberto o feito, teria sido sumariamente demitido. Outro fato interessante é que ele teria mandado importar uma harpa egípcia, para ser utilizada em apenas um acorde de uma das músicas.

Pois bem… esta versão, bem mais interessante e condizente com o espírito underground da obra é desmistificada pelo único sobrevivente dos Kavernistas, Edy Star. Segundo o músico, tudo foi feito sob a supervisão dos manda-chuvas da CBS e Raulzito não foi demitido, apesar do fracasso retumbante do disco. Como Raul gostava de inventar (ou enfeitar) passagens de sua história (como o suposto encontro com Lenon), não é de se estranhar que seja realmente mentira a sua versão. Mas, ainda assim, prefiro acreditar naquela narrativa mais anárquica e cinematográfica.

Grã-Ordem Kavernista”, ainda segundo Edy, foi influenciado por “Sgt. Pepper’s,dos Beatles, Frank Zappa e pela Tropicália, sons que dominavam a cabeça de Raulzito na época. Ele chamou, então, Sérgio Sampaio, que canta sozinho duas faixas e co-assina com Raul a maioria do álbum. Os dois fazem, também, dueto em três canções. Duas músicas são cantadas por Míriam Batucada e outras duas por Edy Star (que afirma ter músicas não creditadas, por causa da censura e o medo de seu nome). Raul completa cantando duas sozinho. 

O disco tem uma diversidade enorme de estilos, tudo num grande tom de gozação com a visão romântica do Rio de Janeiro e com as modas da época. Junto a isso são feitas vinhetas, com falas dos artistas, interpretando algumas situações. São estas as faixas (com links para todas as que eu achei):

1-Êta Vida (Raul Seixas/Sérgio Sampaio, cantada pelos dois) – 2:28

O disco começa com um anúncio circense, que anuncia “o maior espetáculo da terra”. Depois inicia-se a música em grande alto-astral carnavalesco, numa letra que satiriza o Rio de Janeiro, de onde o baiano Raulzito e o capixaba Sergio Sampaio “querem se mandar”.

2- Sessão das Dez (Raul Seixas, cantada por Edy Star) – 2:44

Uma vinheta satiriza as compras à prestação, depois se anuncia a homenagem aos bohemios da velha guarda, neste belíssimo e romântico bolero, que dá nome ao disco. A voz forte e impostada de Edy é perfeita para a música. Novamente as referências ao Rio, na letra.

3- Eu Vou Botar Pra Ferver (Sérgio Sampaio/Raul Seixas, cantado pelos dois) – 2:25

Na vinheta, um diálogo nonsense dos compositores sobre ídolos da juventude. A música  é um delicioso e agitado baião-rock, como outros já feitos por Raul.

4- Eu Acho Graça (Sérgio Sampaio, cantada por ele) – 2:49

 A vinheta inicial satiriza o movimento hippie. A canção é frenética e cuidadosamente arranjada por Sérgio.

 5- Chorinho Inconsequente (Sérgio Sampaio e Erivaldo Santos, cantado por Miriam Batuada) – 1:56

 Uma das mais belas faixas do disco, o choro é interpretado pela fantástica voz de Míriam Batucada. Sobra para os hippies, novamente, a zoação da vinheta de abertura.

6- Quero Ir (Raul Seixas/Sérgio Sampaio, cantado pelos dois) – 2:20

 Novamente um baião-rock fantástico! O incômodo com a metrópole do Rio de Janeiro e a vontade de voltar para casa volta a aparecer na letra.

 7- Soul Tabarôa (Antônio Carlos/Jocáfi, cantada por Míriam Batucada) – 2:44

É a única faixa que não é composição dos músicos do disco. É uma deliciosa mistura de ritmos, com diferentes instrumentos, onde se destaca uma rabeca danada! A  letra cita esta mistura, falando do soul “musis”, junto com o “bate-chinelo, bate-pé, bate-gibão”, além do próprio nome da  canção, que mistura soul com tabarôa. Lembra bastante algumas canções do Tom Zé. O tema da cidade grande está presente de novo.

8- Todo Mundo Está Feliz (Sérgio Sampaio, cantado por ele) – 2:56 

 Uma vinheta engraçadíssima, com uma entrevista jovem, abra esta faixa. O rock é uma sátira ao clima celebratório setentista, onde acredita-se que na Terra está todo mundo feliz. De quebra misturam-se discos voadores e referências a Caetano (“eu não tenho nada a ver com isso” de seu famoso discurso no festival). A brincadeira com esta alegria é uma importante característica dos kavernistas, tanto em relação à exaltação cultural do Rio, como do espírito hippie do período.

9- Aos trancos e barrancos (Raul Seixas, cantado por ele) – 2:27

Grande samba composto e interpretado por Raul, com o tema principal do disco: o realismo da vida carioca contrastando com suas tão cantadas “maravilhas”.

10- Eu Não Quero Dizer Nada (Sérgio Sampaio, por Edy Star) – 3:06

Música defendida com dor por Edy Star com arranjos mais psicodélicos, aproximado-se bem da Tropicália.

11- Dr. Paxeco(Raul Seixas, cantada por ele) – 3:11

Sem dúvida a mais próxima do que predominaria na carreira de Raul, que apenas começava.

12-Finale (vinheta) – 0:29

O circo anuncia o seu fim, marcado por uma descarga de vaso sanitário. Não poderia ser mais típico do auto-deboche do grupo.

É uma pena que o disco não figure em nenhuma lista dos melhores da música brasileira e nem ao menos nas relações de álbuns do período tropicalista. Mas, enfim… os fãs kavernistas reconhecem a importância que ele tem. Para aqueles que conhecem e amam esta relíquia da nossa música, resta  esta oportunidade única que nos foi dada, nesta sessão das cinco, no Boulevard São João. Aí vai uma prévia do que foi o ano passado. Edy Star, com Sessão das Dez:

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