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Arquivo do mês: dezembro 2012

ar condicionado

Na noite rua

tropeço

na grade

espaço.

 

Ladra o cachorro

grita a propriedade.

 

Comida  no shopping

filas.

Como tempos de guerra

felicidade.

 

Na área VIP

não entramos.

Longe da ribalta

chique apartheid

 

Não tenho o ingresso

não sei de nada.

 

Na cidade

tá calor.

Nos cômodos?

Ar condicionado.

 

Refresca-se tudo

exceto o quarto

da empregada.

Eu pergunto

ela poetiza

eu passageiro

ela poetisa.

 

(Ela

pergunta

 

e eu

não poderia).

 

TÍTULO:

Zeugma

ou Sem nome

ou O relatório final sobre eu e ela

ou O relatório final sobre mim e o que inventei sobre ela

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“Quero o inapreensível. É espantosa essa luz que escapa, levando a cor consigo. ”

Claude Monet

 
“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes – e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.”

(…) Clarice Lispector (em Água-viva)

 

Pintura- “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet