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Arquivo do mês: julho 2011

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5- Dois sonhos

Dois dias antes de sair, tive um sonho: eu conversava com uma mulher na parte de cima de uma escadaria gigantesca, localizada num grande jardim. Ela era mais velha e não era tão bonita, mas gradativamente me apaixonava por seu olhar sorridente e confiante, pelas palavras escolhidas, pelas memórias preferidas. Naquele momento possuía a certeza de quem estaria ao meu lado no Cale-se para sempre.

Meu ódio foi grande por acordar e constatar o mundo onde morava aquela mulher. Mas a raiva durou uma hora, por aí…. , período em que sua fisionomia nítida ficou na minha mente, antes de borrar.

Acabei me lembrando de um conto, baseado numa experiência noturna: certa noite, num bar, conheci uma moça chamada Tarsila. Conversamos um pouco e me interessei bastante. A aproximação não poderia ter outro mote, senão a coincidência de nome com a pintora brasileira. Um tanto óbvio… bastante talvez… Mas esse cansativo processo de aproximação afetiva nunca é fácil. Sempre falamos algumas besteiras, ou qualquer coisa parecendo ser genial (mas nunca é).

Vim com um papo sobre a Tarsila do Amaral abandonada e traída, enquanto todos louvavam a experiência do marido Oswald de Andrade com a amante libertária Pagu. (Na verdade estava apenas repetindo um diálogo de um filme indiano chamado Samsara, onde há questionamento um pouco semelhante, em relação à esposa deixada por Buda no caminho da iluminação.)

O fato dela também ser artista plástica e ainda ser budista era só mais um clichê da realidade, daqueles que parecem bons demais para o mundo. Por minutos, tudo parecia que ia acabar bem. Isso se não fosse o olhar desinteressado dela ao conversar comigo e a justa discordância impaciente com minha tese de araque. Em seguida, veio a desculpa de ir procurar a amiga, ou algo do tipo.

Fiquei sentado, fumando e bebendo. Pensando na minha solidão e me solidarizando, por instantes, com Tarsila. Não a do bar, mas a da Abapuru. Nós dois, deixados. Olhava para alguma coisa no céu e tomava coragem de voltar para casa.

Tarsila (a do bar) já ia embora. Porém quando alguém a chama, nas suas costas, ela repara em mim.

*

Eu já ia embora. Aquela festa já estava chata demais e a hora de acordar chegava. Foi quando ouvi atrás de mim: -Tarsila!- Era uma amiga chamando. Ao me virar, de relance vi de novo um cara que estava me enchendo o saco com papos sobre a pintora Tarsila do Amaral. Ele em nada me cativou e eu já estava com a paciencia esgotada da noite. Mas, não sei por que motivo, fiquei impressionada com o cara sentado ali, olhando para a lua, fumando, bebendo Itaipava e olhando as horas no celular. Por segundos, me interessei e quis conhecê-lo.  Resolvi sentar ao seu lado e puxar conversa.

*

O conto terminava assim. Com Tarsila sentada ao meu lado.

É claro que a noite não acabou dessa forma. Mas foi a melhor maneira de voltar para casa… sabendo que poderia reescrever o final. A única forma de poder dormir em paz.

Ao contar isso para o Gilson, do Recursos Humanos, ele desdenhou. Disse que eu era apenas um infeliz, mendigando pena. Não adiantava explicar sobre a literatura como melhor maneira de realizar algo inexiste. Não sei. Ponderei se ele possuía alguma razão.

Quando pequeno, passava bastante tempo sozinho e não convivia com pares da minha idade. Como muitos pirralhos, lidava com mundos, cidades, lugares, personagens- as melhores formas de sobreviver e morar. (Talvez as únicas possíveis naquela época). Mas, aos poucos, fui tomando noção dessa história de crescimento e amadurecimento. Com desespero, comecei a temer pela vida adulta, prevendo o que poderia desaparecer.

Parece confuso falar sobre isso hoje, mas não se tratava exatamente de algo imaginário. Eram imagens que eu tinha a capacidade  de ver naquela idade. Mas não tinha certeza sobre como seria a minha mente no futuro e me desesperava a dúvida em relação aos meus pensamentos de gente grande, anos depois.

Hoje, qual não é meu espanto, a minha preocupação se inverteu. Por mais que eu queira, não consigo viver a vida adulta em sua plenitude, sem imaginar situações possíveis para fatos indesejados, interlocutores imaginários ideais, filmes ou livros completos para situações não-narrativas, além de memórias não vividas e biografias paralelas. Estou condenado a apenas imaginar tudo o que eu não consigo viver de fato. Foi isso o que pensei….. ou foi o que Gilson, do Recursos Humanos, disse… Já não me lembro mais.

Ele, com toda a razão, alimentava essa opinião negativa de mim devido a algumas histórias contadas. Contraditoriamente, ele gostava muito delas, se interessava e pedia outras, mas me alertava sobre o perigo do martírio e da vitimização.

Gilson me falava todos os dias de sua filha Rosa Maria. Tinha um interesse quase científico (embora repleto de afetividade) por seu desenvolvimento, por suas descobertas: como foi o primeiro olhar para o espelho, suas conversas intermináveis, cheias de inflexões baseadas em sílabas engraçadas. Nunca esquecia de mencionar a relação de amor e ódio dela com o cão, a quem ela dedicava muito carinho, mas temia com choros histéricos, segundos depois. Cinema, teatro, mar, vovó, presente, comidinha, caixa de papelão, vaso quebrado, riso inexplicável ao ver a sala pintada de azul.

Depois de bastante tempo falando de Rosa Maria, ele me pedia para eu falar de meus contos inacabados, ou mesmo para eu repetir alguma história que ele adorava, como a da edição especial da revista dos X-Men, meu sonho de consumo com 11 anos de idade. O preço era exorbitante e, mesmo juntando moedinha por moedinha, economizando a grana da merenda, não dava para comprar. A única coisa possível a se fazer era pegar um monte de folhas de papel, grampeá-las e desenhar minha própria versão do que seria a Batalha Final

Gilson também gostava de outra história, sobre uma tarefa escolar na quarta série: Nilzete, a professora de Estudos Sociais (na época se chamava assim) ensinava sobre a estrutura urbana, ruas, avenidas, quarteirões… Ela propôs, como trabalho, sairmos nas redondezas da nossa casa desenhando mapas de tudo e entender como funcionavam aqueles espaços.

Ela disse que isso deveria ser feito junto com os pais ou responsáveis, mas obviamente achei que seria bem mais divertido fazer sozinho. Peguei o caderno e parti. Com certeza era o dever de casa mais interessante que havia feito até ali. Entendi a lógica daqueles quadrados. Entendi que se não atravessássemos a rua, dávamos a volta no mesmo quarteirão, chegávamos no mesmo ponto. Da mesma forma, saquei que se seguíssemos em linha reta, continuávamos na mesma rua. Mesmo garranchados, meus mapas eram fantásticos.

Algo de diferente começou a acontecer. Como passei a entender tudo que estava à minha volta, fui tomado de uma auto-confiança ainda desconhecida. Eu poderia desenhar os lugares e dessa forma sair por aí, com algumas cuecas na mochila, um caderno e uma caneta. Resolvi fazer além da tarefa. Comecei a ir mais e mais longe, ver locais desconhecidos e me afastar do apartamento.

Me empolgava tanto, que a possibilidade de voltar para casa foi simplesmente esquecida. Parei para perguntar o horário….. já havia se passado duas horas! O senhor do relógio de pulso me perguntou se estava sozinho, se estava perdido. Meu orgulho me fez mentir, dizendo que a minha casa estava logo ali.

Quanto mais andava, mais me perdia. O que João e Maria fizeram não seria o mais adequado para manter a limpeza urbana.

Eu possuía tanta confiança nos meus mapas! Não era possível o que estava acontecendo!

O trabalho de casa aventureiro terminou com uma viatura da polícia, uma mãe desesperada e um castigo.

Mais ou menos no mesmo período eu vi um episódio do Snoopy onde Charlie Brown disputava uma corrida. Surpreendentemente, o eterno perdedor começava a se distanciar e ficar primeiro. Em sua mente passavam todas as suas derrotas e frustrações da breve vida e lhe vinha, de dentro, o prazer de finalmente conseguir vencer. Estava sozinho e triunfante.

Não lembro exatamente do texto, mas sim do seu sorriso pouco usual e o vento no rosto. Era só ele junto à sua vitória.

Mas a alegria vai acabando, quando ele percebe algo estranho. Charlie descobre o motivo de estar só: errou a direção. Corria, na verdade, para o lado oposto à linha de chegada.

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4- A fuga

O bebê tinha certeza sobre algo estranho acontecendo. A mãe chorava e olhava para alguns artigos pessoais. Ela só possuía uma mala pequena e se desesperava. Ora parava e observava, ora começava a juntar, freneticamente e desorganizadamente as coisas, jogando-as para dentro. No meio de tudo estavam fotos de debutante junto com documentos essenciais.

O bebê percebia uma agitação, queria chorar. E chorou.

Na televisão passava o desfile das campeãs do Carnaval. Tudo era colorido. Ele adorava ver aquelas penas se mexendo sem sair do lugar, em cima de bonecos e carros gigantes. Ficou mais calmo.

A rodoviária estava cheia.

Sua mãe, sempre linda, estava feia agora. Cara inchada de chorar e apanhar. Sabia que tinha a ver com aquela moço mau, que todo mundo chamava pelo nome de papa papapa, ou algo parecido. Mas o papá de comer era bom, aquele não era. Aquele dava medo. Fica feliz de ir embora.

Sabia que tudo ficaria bem, passou a amar rodoviárias.

Viu vaquinhas, campos verdes…. tudo passando rápido. Chorava pela vaquinha abandonada. Olhou para a mãe, mamou, dormiu.

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3- A festa

A minha saída foi motivada por uma séria de fatores e não cabe aqui enumerar todos. Gostaria de falar sobre alguns momentos onde a certeza se manifestou.

Um deles, sem dúvida, foi ao juntar as coisas da festa. Ao colocar os móveis de volta no lugar, recolher as torradinhas, pastinhas e queijos. Ao retirar aquelas bolas brancas da parede. Não foi uma confraternização totalmente fracassada, afinal minha Tia Sofia havia comparecido. Os outros trinta convidados não puderam vir, dando os mais diferentes álibis. Mas Tia Sofia estava presente.

Arrumamos a casa juntos, conversando um pouco sobre a família. A tia foi tomar banho e pôr o pijama, afinal não saía mais ônibus do terminal a essa hora. Vimos o programa do Ronnie Von, que ela adora. Dava risadas e lembrava da época da Jovem Guarda. Você sabe querido? Os meninos hoje vão lá no salão e pedem para fazer penteados com franjas enormes, agora. Igualzinho o Ronnie Von usava. Eu achava engraçado ela rindo sozinha disso. Vemos televisão comendo torrada com pastinha e vinho….. Jô Soares, depois um filme no Corujão sobre um policial americano que tentava vingar o companheiro. Tia Sofia não passou da parte um e a levei para o quarto. Eu assisti tudo, mesmo já sabendo qual seria o final.

Nos despedimos e ela foi para o salão. Eu estava de folga naquele dia e fiquei em casa, ouvindo música e pensando.

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2- O bebê

O bebê olhava os outros assim: com os olhos arregalados. Ele parava e olhava para a moça e para o rapaz de forma assustadora, como um gato ou uma Esfinge. Mas pouquíssimos se assustavam de fato, afinal era apenas um bebê. Perdiam mais tempo fazendo guti-guti e apertando suas bochechas.

Reparava cada um em separado, investigava. Alguns torciam para serem escolhidos, outros não queriam. O olhar do bebê era de choque com aqueles seres estranhos que descobria agora.

Tudo mudara para ele nos últimos tempos. Aquela vida onde era o centro do universo, onde tudo orbitava em seu entorno, era sim muito boa. Comida vinha sem esforço, através de um cano. Flutuava numa água gostosa e recebia todos os cuidados sem sair do lugar. Se preocupava apenas em crescer rapidamente. O mundo da luz era mais complicado e o esforço começava em abrir os olhos, descolando aquelas pálpebras.

Apesar de algumas dificuldades iniciais, aquele universo era tão assustador quanto interessante. Resolve olhar com força de raio-X do Super-Homem, com força de hipnotizador. Mira em cada cabeça, em cada olho. Se choca com movimentos bruscos, assim como também se assusta com gritos e cores berrantes. Vibra com cabelos, com narizes. Repara em orelhas grandes, em línguas engraçadas.

Seu interesse fisionômico é maior até do que o do pintor-retratista, aquele que corre o risco de ir para a forca se não fizer um quadro fiel da família real. Talvez por saber que poderá morrer, também, sem entender bem aquele monte de traços, que formam alguma coisa à sua frente. Figuras que depois, mal sabe ele, ganharão tantos nomes diferentes na sua concepção de adulto. Por isso, se desespera quando algum colo o leva para longe de um rosto. Justamente daquela feição cujo interesse havia sido despertado. Por isso vai torcendo o pescoço, até se despedir daquela coisa, até não conseguir enxergar mais.

Fragmentos-folhetins para um projeto em construção (1)

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1- O bairro

Não sabia há quantos dias estava andando,

muito embora sentisse a importância de tudo aquilo,

muito embora não soubesse, com certeza, a razão de fazer aquilo.

Na verdade, só naquele dia parou para tentar contar o tempo de viagem, exatamente quando entrava num bairro amigável. Uma rua com bar, vizinho, praça. Pela primeira vez se sentiu tranquilo para pensar no que havia feito até ali. Da mesma forma, se sentiu à vontade para entrar no bar, comprar uma lata de cerveja e sorrir com cara simpática para desconhecidos.

Sentiu-se bem para, momentaneamente, não mais andar como um romeiro, andarilho, pagador de promessa. Sentiu que gostaria de andar como um homem e sua lata de cerveja, dando goladas, fazendo ahhhhs, assobiando alguma coisa sem lembrança de refrão. Parecia estar feliz, ou apenas confortável.

O homem meio sujo, de barba grande, se aproximou de Juliana e Gisela. A bicicleta de Juliana era azul e seu vestido era branco, já a de Gisela era rosa com cestinha vermelha, mesma cor de seu vestido. Juliana tinha cinco anos e Gisela seis, ou vice-versa. Começaram uma conversa engraçada e inusitada sobre brinquedos, fantasmas, vídeo-cassetadas e jogos de queimada.

De longe, uma voz feminina gritava Gisela e Juliana. Gritava alto mesmo! Mais baixo, a voz comentava o motivo de estar longe das suas filhas: se estava bebendo no bar, deixando suas filhas mais afastadas, era justamente para não dar o mal exemplo de vê-la bebendo. Grita mais uma vez. O homem se sente constrangido e percebe o medo com a presença de um estranho barbudo com uma lata de cerveja barata na mão. Ele se despede. Vai embora rápido, até o bairro acabar.

El empleo

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Uns dias com o blog parado, pois to sem internet. Para dar sinal de vida, vou disponibilzar esta magnífica animação de Santiago ‘Bou’ Grasso. Em breve tem novidade