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As ruas podem reacender a luta popular e estragar a foto de um Brasil-espetáculo

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Passe Livre 2

O que as manifestações dos atingidos pelos grandes eventos, o massacre indígena, o extermínio da população negra e a fúria das ruas no Movimento Passe-Livre têm em comum? Todos esses exemplos revelam um Brasil em conflito, violento e desigual, que o poder do Estado e do Capital insiste em esconder (ou eliminar) em seu espetáculo visual de perfeição e progresso. Dentro disso, vou tentar fazer algumas reflexões sobre o movimento Passe-Livre e seu potencial para provocar discussões e propostas, impulsionar as lutas sociais e tornar visíveis as nossas contradições.

Passe-Livre/tarifa zero

A primeira e mais evidente conquista do movimento é colocar em debate a questão do transporte público. Uma pauta não surge do vácuo: ela é fruto da mobilização popular e de fatos políticos que a provocam. A discussão está em todo lugar, desde veículos de esquerda, passando pelas redes sociais até a grande imprensa. Hoje à noite mesmo me surpreendeu um debate sobre o tema na Globo News. E, melhor ainda, levanta-se a bola (como eu nunca havia presenciado) da tarifa zero como possibilidade plausível para o transporte. Até mesmo Haddad teve que se pronunciar sobre o assunto.

O transporte realmente público, garantindo a mobilidade urbana para o trabalho, cultura, lazer e satisfação da arte do encontro deve ser visto como direito. Talvez poderíamos realmente estar próximos de realizar o tão falado “direito de ir e vir” bradado pela imprensa quando uma manifestação para a cidade.

Mas, sobre o tema, prefiro não me alongar mais, pois três textos se debruçam bem melhor sobre isso: o de Thais Carrança, sobre a trajetória da tarifa zero no PT, o de Célio Turino, aprofundando e embasando a ideia e o do próprio MPL.

passe livre

Organização popular

Em Juiz de Fora-MG, durante o ano de 2006,  participei bastante do movimento contra o aumento da passagem e tenho acompanhado o MPL desde então. Posso dizer que essa experiência influenciou bastante a minha formação política. E uma coisa que pode ser vista facilmente em qualquer manifestação do passe-livre é a heterogeneidade de tendências política dos militantes e a grande participação de empolgados jovens independentes, inclusive do ensino médio. Eles fornecem muita energia para o movimento e alguns deles preferem ações mais radicalizadas. Isso é perfeitamente compreensível, visto que eles percebem, ali, a possibilidade de romper com o silêncio e agir junto à força das ruas. Da mesma forma, eles não se familiarizam com a representação horizontal dentro do movimento e se recusam ser massas de manobra de algumas entidades burocratizadas da esquerda (mais sobre isso pode ser visto no documentário Revolta do Buzu, de Carlos Pronzato, sobre os primórdios do Movimento Passe-Livre, em Salvador).

O MPL, que  define-se como “autônomo, horizontal, independente e apartidário”, é um dos poucos movimentos a levar grandes massas para a rua, de forma persistente, em atos de verdadeiro enfrentamento. Felizmente, ele não cai no sectarismo e consegue congregar diferentes grupos políticos, para somar numa luta percebida por todas e todos como importante. Mas é gritante a diferença em relação à mobilização de ações como essa do MPL em contraste com  outras iniciativas de entidades e partidos de esquerda, seja de situação ou oposição. Presos a seus congressos, assembleias internas e agendas de luta muito bem definidas, acabam pouco agregando e caindo no erro de ser um fim em si mesmos.

Há de se ressaltar que grandes mobilizações como essas de São Paulo funcionam geralmente como ondas,  levantando multidões, mas terminando com grande parte voltando para casa. Neste sentido, as entidades de esquerda geralmente fazem o papel de continuar no trabalho no dia-a-dia, mantendo a chama da mobilização. Isso se dá, principalmente, devido ao apoio institucional dado aos militantes e às referências mais sólidas de quem participa de uma organização como essa. Infelizmente, a consequência muitas vezes é a cobra acabar mordendo o próprio rabo, como citei acima.

Dentro de um quadro onde grande parte da esquerda foi cooptada pelo governismo do PT e a oposição de esquerda tem grande dificuldade em construir um trabalho de formação de base massivo que saia de seus círculos, precisamos nos reencontrar dentro deste impasse. A resposta para mim só pode vir das ruas.

Brasil como espetáculo

Me desculpem se pareço romântico, mas acredito que as manifestações do passe-livre são uma oportunidade histórica. Vários dos textos que andam circulando ressaltam que a manifestação é muito maior do que a reivindicação pelo aumento de 20 centavos na passagem. Da mesma forma, pareceria ridículo dizer hoje que Maio de 68 foi uma manifestação por lutas pontuais na Sorbonne ou que a revolta na Turquia é apenas contra a derrubada de uma praça pública (ainda que tenha sido o gatilho inicial).

É interessante notar que o MPL se aproximou do Comitê Popular da Copa do Mundo e a luta dos atingidos pelos eventos. Assim como eles, vários grupos como indígenas e os jovens negros das periferia assassinados vêm sofrendo as consequências de um projeto de nação espetacular e excludente. A partir da fúria das ruas pode ser reorganizada a base da luta popular para além de uma onda. Isso depende de um projeto político permanente e a necessidade de priorizar o poder popular em detrimento de formações burocratizadas e verticais. Só assim poderemos romper com a tentativa do poder constituído de mascarar toda a violência e conflito de nossa existência em nome de uma imagem de país.

A luta do passe-livre é a revelação do conflito que ninguém quer ver, do problema jogado de baixo de um tapete. Projetos como Belo Monte, a expansão do latifúndio rumo às reservas indígenas, os planos de “revitalização” higienista nas grandes cidades,  a Copa e as Olimpíadas não são apenas ações da ordem estabelecida, mas da construção da imagem dessa mesma ordem. Nas palavras de Walter Benjamin, é a “estetização da política”, nas de Guy Debord, é o “espetáculo”, ou a  “fantasmagoria”. Nesta imagem não entram índios, sem-terras, sem-tetos, moradores em situação de rua, camelôs, catadores, homossexuais, nem os conflitos de rua.. No espetáculo do Brasil-nação todos concordam com tudo, os jovens na periferia são invisíveis e não há problemas no transporte. Estragar essa foto tão bem montada pelo Estado e o Capital é um ato político necessário, que poderá ser muito bem operado por todos aqueles que não foram convidados para a grande festa na área VIP. Basta organização, mobilização e vontade de lutar.

Nota 1: Antes de escrever esse texto, recebo a notícia de que minha amiga presa num dos atos foi solta. Não poderia terminar sem antes parabenizar a todo mundo que está nas ruas enfrentando balas de borracha e prisões. São almas repletas de coragem e dignidade. É o tipo de gente que veio nessa vida para ser protagonista da história e não viver a vida vegetativa exigida pela grande imprensa.

Nota 2: Os jovens vem se organizando bem para continuar nas ruas, minimizar os efeitos do gás e persistir. Torna-se cada vez mais urgente em todos os nossos movimentos a formação para táticas de ações de rua. Para isso, uma das coisas que recomendo é o filme Essa é a cara da democracia, retratando as bem sucedidas ações em Seattle, que barraram a reunião da Organização Mundial do Comércio em 1999.

Fotografias: MPL

Gabriel de Barcelos 

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