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Arquivo do mês: setembro 2010

Luta estudantil na Argentina

Estudantes secundaristas se mobilizam a um mês na Argentina, tomando as ruas e ocupando as escolas. Denunciam e  o corte de verbas, numa mobilização que vai além da educação, numa luta pela transformação da Argentina.

Muito bom este vídeo sobre o movimento:

3º Mostra Luta

Cartaz da Terceira Mostra Luta, feita por Denis Forigo, com arte do Batata.

Ficou fantástico!

cartaz mostraluta 3

Thompson e Mann

“História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter certeza nenhuma sobre a ‘história’, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.”

Hunter Thompson em Medo e delírio em Las Vegas


“Para que qualquer produto intelectual de peso possa surtir de imediato um efeito amplo e profundo, é preciso que haja uma afinidade secreta, uma coincidência entre o destino pessoal de seu autor e o destino anônimo de sua geração”

Thomas Mann em Morte em Veneza

Foucault e a anti auto-ajuda

“Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas
recusar o que somos.”

em O Sujeito e o poder

Orlandeli

http://www.orlandeli.com.br/

O debate entre as três rosas

Gabriel de Barcelos

Estavam juntas as três rosas. Não sei ao certo como elas acabaram naquele lugar, mas o fato é que estavam ali.

Iniciou-se o assunto. A primeira rosa era original de outro planeta. Vaidosa, contava como seu dono, um príncipe menino de cabelos dourados, a amava e sempre a elogiava. Estas afirmações levaram à reação indignada da rosa branca, vinda da casa de um diplomata e poeta boêmio chamado Vinícius. Já a terceira rosa, proveniente do morro da Mangueira, de outro talentoso poeta conhecido como Cartola, nada falou. Era muda, a coitada!

Disse a primeira rosa:

– Meu principezinho sempre exclamava: “Como és bonita!”, ao que eu confirmava, “Não é? Nasci ao mesmo tempo que o sol…”

A rosa branca logo respondeu:

– Não entendo por que tantos elogios! Certa vez o poeta quis cantar minha beleza e discordei no mesmo momento, chamando-o de calhorda. Exigi que olhasse melhor tudo aos seus pés. E observasse a criança faminta comendo um torrão de terra, da mesma terra que me sustentava. Igual aquela havia milhões e, com muita vaidade, ele ousara usar meu nome para fazer poesia sobre superficialidades.

Muito ofendida, a rosa do príncipe retrucou:

– Tenho alguém muito especial, que cuida de mim, limpa os matos à minha volta e coloca uma redoma de vidro, protegendo-me de ventos e do ataque dos tigres. Mas, cansado de minhas exigências e das minhas mentiras, ele resolveu conhecer outros destinos, viajando pelo universo. Isso deixou-me profundamente sentida. Até comecei a secar. No entanto, me conformei e deixei-o ir. Para minha grata surpresa, meu príncipe aprendeu muito com a jornada.

Inicialmente, ficou decepcionado ao descobrir a existência, no planeta Terra, de milhares de rosas iguais a mim. Eu havia garantido ser a única existente. Mas, com a ajuda de uma esperta raposa, compreendeu o motivo que me fazia especial e realmente única. Havia sido eu a rosa cativada por ele, aquela cujos cuidados e amores me difeririam de uma flor qualquer, em determinado lugar da Terra ou do universo. Ao voltar, percebeu a responsabilidade em relação a mim e desde então dispensa-me cuidados e me tece lindas palavras.

A rosa branca, já rubra de raiva, não tinha como concordar:

– Se o seu príncipe conheceu a Terra, viu todas as injustiças, a pobreza, a desigualdade, a exploração e a guerra. No lugar de ficar falando de nós, que temos todas as condições naturais de viver em paz e harmonia, eles deveriam dedicar o tempo deles para mudar a vida daqueles que realmente sofrem.

O debate continuou quente. Réplicas, tréplicas, poucos pontos em comum, apenas discordâncias… Em meio às exposições antagônicas das duas rosas, a atenção foi desviada quando um odor totalmente diferente invadiu o recinto. Não era cheiro de flor, mas de mulher. Um fascinante cheiro de mulher.

Os boatos falam sobre uma bela mulher de olhos tristonhos amada por Cartola, que deixou o poeta abandonado e entregue à solidão. Ele implorou pela volta da moça linda, ouvindo apenas negativas impassíveis e duras. Com medo de nunca mais sentir aquele cheiro feminino, Cartola aplicou-lhe um feitiço e roubou o aroma tão adorado, deslocando tudo para uma rosa, que guardou com muito carinho.

Constantemente Cartola esquecia da mudez da flor e se queixava sobre a paixão perdida, sem ouvir respostas. A rosa não fazia senão exalar o cheiro que reavivava a memória do grande amor.

Foi esse mesmo cheiro espalhado naquele instante, na presença das outras duas colegas. Agora a rosa branca e a rosa do príncipe permaneciam caladas diante de tal êxtase olfativo. Aquela era a participação incontestável da rosa muda no debate, discussão que ali mesmo deu-se por encerrada.

Imagem: Johana Svoboda

André Dahmer

http://www.malvados.com.br/

“O objetivo da repressão sexual é fabricar indivíduos adaptados para a sociedade autoritária”

Por que o sexo é reprimido?

Regina Navarro Lins: O objetivo da repressão sexual é fabricar indivíduos adaptados para a sociedade autoritária


Selma tem 57 anos. Recatada, por conta da rígida educação religiosa que teve, o sexo nunca foi uma coisa simples para ela. Muito dedicada aos filhos e ao marido, teve uma grande surpresa quando ele, após 37 anos de casamento, lhe comunicou que desejava se separar e saiu de casa. O ex-marido, feliz com a nova mulher, passou a evitar contatos com ela. “Sofri demais, por muito tempo, cheguei a pensar em suicídio. Quando estava um pouco melhor, conheci um novo vizinho. É um viúvo, gentil e carinhoso. Gostou de mim e saímos algumas vezes. Fiz muitas fantasias de reconstruir a minha vida, mas quando sugeriu que fôssemos à sua casa, o mundo desabou. Fiquei achando que ele estava me confundindo com uma mulher fácil. A partir de então, achei melhor me afastar.”

Muitos, ao lerem o caso de Selma, dirão que isso não existe mais, que atualmente ninguém se comporta dessa forma. Não sei não. Você acredita mesmo que hoje exista liberdade sexual? Que as pessoas busquem desenvolver ao máximo o prazer? Apesar de um grande número de homens e mulheres buscar relações sexuais mais livres, respeitando os próprios desejos, uma grande parcela da população ainda se submete a valores morais anacrônicos, sem nenhum questionamento.

O sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que a maioria não sabe diferenciar o que realmente deseja do que aprendeu a desejar. Quantas vezes você ouviu uma amiga afirmar, após ter ficado de carícias e beijos a noite inteira com um homem, que não foi ao motel porque não sentiu vontade? Ou um amigo dizer que não está a fim de sair com determinada mulher, quando no fundo o medo é de falhar a ereção?

A repressão sexual é um conjunto de interdições, valores e regras estabelecidas pelo social para controlar a sexualidade das pessoas. O maior perigo da repressão sexual é quando, de tão bem-sucedida, não se percebe sua existência. Por meio da educação, os valores e as proibições sociais são assimilados de tal maneira que, depois de internalizados, se expressam sob a forma de culpa e vergonha. E a ideia de que há no sexo algo de pecaminoso é absurda, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora. Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. E dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço. Por conta de todos os preconceitos, se vive como se sexo não existisse, e ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto.

Na verdade, a repressão sexual é um enigma estranho e paradoxal. Se todo ser humano sente prazer com estímulos sexuais, por que então, o tempo todo e em toda parte, sempre existe alguém tentando restringir a liberdade sexual das pessoas? Uma explicação possível está no fato de que, quanto mais se amplia, aprofunda e diversifica a vida sexual, com mais coragem, vontade e decisão se vai vivendo. Transgredir e contestar as regras impostas pode, portanto, tornar as pessoas “perigosas”.

W. Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século XX, vai mais longe ainda. Ele afirma que a repressão sexual da criança torna-a apreensiva, tímida, obediente, “simpática” e “bem comportada”, produzindo indivíduos submissos, com medo da autoridade. O recalcamento — resultado da interiorização da repressão sexual — enfraquece o ‘Eu’ porque a pessoa, tendo que constantemente investir energia para impedir a expressão dos seus desejos sexuais, priva-se de parte de suas potencialidades.

Portanto, conclui Reich, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar indivíduos para se adaptar à sociedade autoritária, se submetendo a ela e temendo a liberdade, apesar de todo o sofrimento e humilhação de que são vítimas. James W. Prescott, respeitado neuropsicólogo e pesquisador americano, concluiu que uma personalidade orientada para o prazer raramente exibe condutas violentas ou agressivas e que uma personalidade violenta tem pouca capacidade para tolerar, experimentar ou desfrutar atividades sexualmente prazerosas.

Ao contrário de outras culturas, em que alcançar o máximo de satisfação no sexo é importante, a nossa cultura judaico-cristã valoriza mais o sofrimento, considerando-o uma virtude. O prazer é visto com maus olhos. Se você quiser comprovar, basta fazer uma experiência. Quando chegar amanhã ao trabalho, conte uma desgraça, daquelas bem cabeludas. Diga como está sofrendo e como viver é difícil. Garanto que todos vão se mobilizar, ficar ao seu lado, tentando ajudar de todas as maneiras. Daqui a uma semana, faça o oposto. Conte como está feliz, diga que teve uma noite maravilhosa, de intenso prazer sexual. Mas se prepare. Seus colegas vão tentar disfarçar, mas se afastarão com risinhos irônicos e passarão a te olhar diferente, de um jeito meio crítico.

Não é de admirar, portanto, que tanta gente renuncie à sexualidade ou que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura seja de tão baixa qualidade. Na maioria das vezes ela é praticada como uma ação mecânica, rotineira, desprovida de emoção, com o único objetivo de atingir o orgasmo o mais rápido possível. Resulta daí ser o desempenho bastante ansioso, podendo levar a um bloqueio emocional e a vários tipos de disfunção, como impotência, ejaculação precoce, ausência de desejo e de orgasmo, sem falar nos casos mais graves de enfermidades psíquicas. É preciso descomplicar o sexo.

Há algum tempo, perguntei a diversas pessoas o que elas pensavam a respeito da repressão sexual. Aí vão algumas respostas.

João Ubaldo Ribeiro (escritor)
Ainda existe muita repressão. Essa frase do Nelson Rodrigues, muito citada, ilustra bem isso: “Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém.” O grau de repressão é altíssimo, inclusive da pessoa com ela mesma.

Elza Soares (cantora)
Fui muito atacada durante a minha relação com o Garrincha, mas não me arrependi de estar amando, não. Mas eu fazia comparações. As sociedade foi muito preconceituosa por eu ser mulher, negra e pobre, e denunciar a hipocrisia.

Lula Vieira (publicitário)
O sexo é reprimidíssimo, por ser uma coisa muito libertária. As religiões e os poderosos acham que sem reprimir o sexo não há possibilidade de domínio político ou social. A primeira preocupação de qualquer religioso é cuidar do sexo. A repressão sexual é uma forma de dominar.

Luiz Mott (antropólogo, fundador do Grupo Gay da Bahia)
Há pesquisas rigorosas que comprovam grandes semelhanças psicológicas entre pessoas racistas, machistas e homofóbicas. Todas ostentam personalidade do tipo autoritária, com graves dificuldades em conviver com a “alteridade”. Em termos de religião, via de regra tendem ao fanatismo; em política são fascistóides. O Brasil é o campeão mundial em assassinatos de homossexuais!

José Ângelo Gaiarsa (psicoterapeuta e escritor)
Bom, a pedra de toque na repressão sexual é: “mãe não tem xoxota”. Veja bem, fala-se em liberação sexual, mas mãe não tem xoxota.

http://delas.ig.com.br/colunistas/questoesdoamor/por+que+o+sexo+e+reprimido/c1237769305667.html