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100 Anos do Cinema do Povo e do Cinema Militante

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comuna (1)

Em 2013 completam-se 100 anos da formação o grupo francês Cinema do Povo. Formado majoritariamente por anarquistas, pode ser considerado o marco inicial do cinema militante. Embora o tema da política esteja desde o início da arte cinematográfica, o Cinema do Povo foi o primeiro grupo organizado, vinculado às lutas sociais, que tentou produzir filmes próprios. Este tipo de cinema já teve vários nomes: cinema político, cinema militante (popularizado, principalmente, nos anos 60), chegando até ao cinema de quebrada, vídeo popular e videoativismo. Muita coisa aconteceu a partir daquele grupo que se uniu em 1913 e é importante lembrarmos dessa história. Para isso, vou compartilhar um trecho das minhas pesquisas, além de 3 vídeos do Cinema do Povo

Nas periferias operárias do início do século XX abraça-se o cinema. E a massa segregada, formada pelo desenvolvimento das cidades e do parque fabril é o sujeito coletivo que define o cinema e as imagens como referência na construção simbólica da modernidade e da cidade. Para compreender este processo, é importante conhecer como se deu o reconhecimento dos sujeitos sociais oprimidos no período do século XIX, dentro das relações econômicas e as implicações culturais e de visibilidade deste processo. Ali marca-se o surgimento da chamada “consciência de classe” no proletariado. E é quando o operário entra em cena que modificam-se os processos de visibilidade. Esta consciência é  fruto das transformações do capitalismo e dos levantes operários do século XIX. Para o historiador Eric Hobsbawn, “(…) o movimento operário proporcionou uma resposta ao grito do homem pobre. Ela não deve ser confundida com a mera reação coletiva contra o sofrimento intolerável.

(…) O verdadeiro novo no movimento operário do princípio do século XIX era a consciência de classe e a ambição de classe. Os “pobres não mais se defrontavam com os “ricos”. Uma classe específica, a classe operária, trabalhadores ou proletariado, enfrentava a dos patrões capitalistas. A Revolução Francesa deu confiança a esta nova classe; a revolução industrial provocou nela uma necessidade de mobilização permanente. Uma existência decente não podia ser obtida por meio de um protesto ocasional que servisse para restabelecer a estabilidade da sociedade perturbada temporariamente. Era necessária uma eterna vigilância, organização e atividade do “movimento”- o sindicato, a sociedade cooperativa ou mútua, instituições trabalhistas, jornais, agitação.”[1]

A classe trabalhadora sabia qual era o seu lugar no sistema, buscava ações de enfrentamento e visibilidade e propunha um outro tipo de sociedade: “seria cooperativa e não competitiva, coletivista e não individualista. Seria ‘socialista’[2] (…)”

Para Lukács, na presença da consciência de classe há uma contribuição dentro de uma luta pelo visível. Segundo ele, “é somente com a entrada em cena do proletariado que o conhecimento da realidade social encontra seu acabamento: com o ponto de vista de classe do proletariado, um ponto é descoberto a partir do qual a totalidade pode ser visível.[3]

O nascimento das imagens cinematográficas, já no fim do século XIX, não pode ser pensado fora destas mudanças culturais, econômicas e urbanísticas do período. A cultura moderna foi cinematográfica antes mesmo do cinema existir e seu aparecimento foi “algo inevitável e redundante”, como apontam Schwartz e Charney[4]. Para estes autores, a cidade e a “circulação de corpos e mercadorias” permitiram a formação da modernidade. Uma quantidade de objetos, velocidades e opções para atenção e o consumo, além da diversidade de pessoas. Temos agora uma centralidade do corpo, objeto de “visão, atenção e estimulação”. Essencial também é compreender a importância no espaço urbano de um “público, multidão, ou audiência de massa”, onde a recepção cinematográfica constrói-se coletivamente. O entretenimento das massas tem relação com a nova configuração geográfica periférica da classe trabalhadora, vinda com as reformas urbanas. Circos, feiras, music halls e outros tipos de shows atraíam a população pobre nas periferias operárias na virada do século XIX para o século XX. As atrações era comediantes, aberrações, artistas circenses e outros. Junto a isso, também estavam eventualmente os aparelhos precursores do cinema, como a lanterna mágica e fenascópio. Os primeiros filmes do kinetoscópio, aparelho individual de exibição cinematográfica criado por Edison, circulavam em ambientes considerados vulgares para a ordem estabelecida, onde o álcool, o sexo eram constantes.[5]

Mas a experiência da sala coletiva do cinematógrafo, a partir de 1895, com o cinematógrafo dos Lumiere, predominará. O cinematógrafo se torna uma diversão barata e muito popular em bairros operários, lado a lado com outras atrações presentes nos ambientes de entretenimento. O cinema gera muito preconceito e pouco interesse nas elites, que preferiam freqüentar lugares mais conceituados como óperas e balés. Duas décadas depois, torna-se algo considerado “sério” para as classes mais altas, com a modificação das temáticas e a preocupação com um chamado “cinema de arte” .

Já na primeira exibição do cinematógrafo dos Lumière está presente a saída dos trabalhadores da fábrica, em seu ritmo cotidiano, seus corpos e movimentos. Ali está a imagem que caracteriza os centros urbanos industriais. Em meio a tantas discussões atuais da crítica e teoria de cinema sobre classe social e representação, é interessante observar que as primeiras imagens foram justamente de dois industriais (os Lumière) registrando seus funcionários. Contudo, as diversões de massa como o cinema eram vistas como anestésicos para as lutas sociais. O cinema, que a partir dos anos 10 alcança grande profusão em várias partes do mundo e ganha agora sua autonomia nas salas de exibição próprias, é apontado como um grande inimigo. Como mostra Machado[6] este cinema não refletia as aspirações da classe operária mais politizada e organizada da sociedade, que o considerava mais um ópio do povo. Uma das poucos exceções é Le cuirassé Potemkin, realizado por Ferdinand Zecca em 1905, no mesmo ano do motim no encouraçado que tematizaria o clássico de Einsenstein duas décadas depois.

O autor ressalta, no entanto, que os grupos políticos eram conservadores do ponto de vista cultural e reproduziam em suas artes as mesmas práticas das classes dirigentes. Seis anos anos, em 1899, Meliés fazia um dos primeiros filmes de tema político: L’affair Dreiffus, de Meliés (veja, abaixo, o vídeo). O caso é contemporâneo ao filme e marcou o nascimento do próprio conceito de intelectual. Trata-se da injusta condenação por espionagem do oficial Dreyfus pelos tribunais franceses, com claras motivações antissemitas. O caso veio mais fortemente ao debate público após uma série de cartas enviadas pelo escritor Émile Zola aos jornais, denunciando a injustiça. Num período onde interesses de Estado estavam envolvidos, a pendenga durou alguns anos até a total reabilitação do oficial. A história foi determinante na construção da figura deste chamado intelectual, alguém que usa o espaço público a favor de algo que considera verdadeiro e justo, através de um engajamento necessário. [7]  

Cinema do Povo

Mas foi em 1913 que se formaria o primeiro grupo organizado de um cinema operário. No I Congresso da Federação Comunista Anarquista Revolucionária, em Paris, um grupo de militantes franceses se reuniu num comitê e começou a debater o cinema. Se algumas pessoas ainda viam os jornais e os livros como meios privilegiados para a educação, a potência das imagens cinematográficas perante o povo não podia ser ignorada pela maioria da militância. Observam que a “propaganda por meio da imagem é a propaganda por excelência, a propaganda que impacta os cérebros e corações.” [8] Eles citam as funestas contribuições das produções comerciais na formação do imaginário popular, “produtos jogados aos montes todas as noites nos cinemas das periferias”[9]. Muitos anarquistas avaliavam criticamente a abordagem preconceituosa do povo e dos movimentos populares. Os líderes sindicalistas, por exemplo, eram mostrados como vagabundos e bêbados. [8] Mas, para eles, não adiantava apenas reclamar. A conclusão apontava para necessidade da produção própria, fazer o próprio cinema. “Criar, para e por nós filmes e defender nossas idéias de justiça social por meio da imagem”.

A decisão foi construir um cinema impessoal, realizado de forma cooperativa.[9] Já havia um histórico, dentro do movimento de trabalhadores, de tentar registrar e divulgar as imagens das lutas sociais. Mas, infelizmente, ao se associar a grandes produtores e exibidores, esses filmes acabaram sendo vulneráveis nas mãos de empresários e dos aparelhos de repressão, que utilizaram os registros em investigações contra lideranças dos movimentos. Por outro lado, já havia uma crescente sindicalização de trabalhadores do cinema, como os projecionistas. Alguns desses fatos mostraram a necessidade de produzir  filmes à margem do grande cinema comercial, com produções que não mais condenariam e estereotipariam os trabalhadores, mas apoiariam as suas lutas.[10] Dois meses depois dessa conversa nasceria o  Cinema do Povo.

Cerca de vinte pessoas fazem parte inicialmente do grupo, que negava o sectarismo e reunia militantes de diferentes posições políticas como socialistas e antimilitaristas. Como acontece em praticamente todo agrupamento político, as discordâncias se fazem presentes, o que pode ser visto nas opiniões em relação à participação no processo eleitoral, que separavam anarquistas e socialistas. Estavam presentes intelectuais, artistas e operários.  Além do apoio nas mobilizações operárias, os filmes lutariam contra a guerra e “todas as iniquidades sociais”. [11]

Lotado no Bairro 17 de Paris, mais especificamente na Casa dos Sindicalizados, o Cinema do Povo era financeiramente dividido em 800 partes sociais de 25 francos. Cada cooperado tinha direito a, no máximo, 15 partes, embora todos só tivessem direito a um voto. Metade iria para o fundo coletivo, 20% para a luta contra o patronato e apoio às vítimas da repressão e os 30% restantes para os cooperados. [12] O grupo fez filmes de ficção como o longa Les misères de l’aiguille (As misérias da Agulha, 1914), onde é retratado o drama da mulher operária, além de atualidades como Les obsequies du citoyen Francis de Pressensé (O funeral do cidadão Fracis de Pressensé, de mesmo ano), onde acompanhamos o funeral do combativo presidente da Liga dos Direitos do Homem. Ainda em 1914 tivemos um prenúncio da montagem intelectual que seria tão usada pelo cinema político na representação dos contrastes sociais: o filme L’hiver! Plaisir des riches! Souffrances des pauvres! (Inverno! Prazer dos ricos! Sofrimento dos pobres!). Nele vemos, numa montagem paralela, os ricos se divertindo numa pista de patinação enquanto os pobres sofrem numa fila para pegar comida. Mas a produção mais importante do grupo foi La commune : cuidadosa reconstituição dos fatos que marcaram a Comuna de Paris. [13] Destaca-se no grupo a figura do ator e diretor Armand Guerra, que depois também vai fazer parte do cinema anarquista na Revolução Espanhola.

Isabelle Marinone, em seu livro Cinema e Anarquia, diz que “A experiência do Cinema do Povo marcou o nascimento do ‘cinema militante’ de base associativa” na França. [14] Mas podemos nos arriscar a dizer que essa foi a primeira experiência do cinema militante tal qual conhecemos hoje. Nele estão presentes todas as características que marcam um grupo como esse até hoje: a produção de base coletiva, a inconformidade com as imagens veiculadas pela mídia comercial em relação ao oprimido e a vontade de construir meios alternativos de produção e circulação, para se contrapor aos meios comerciais. Esta experiência guarda semelhanças tanto com os grupos surgidos no pós-maio de 68, (Grupo Medvedkine, por exemplo)  como os diferentes coletivos que aparecem hoje, de vídeo popular, vídeo-ativismo e outros movimentos que se utilizam do audiovisual como ferramenta. A história do cinema militante/político/popular/ativista é longa desde então e dura até hoje nas centenas de coletivos que lutam por uma outra imagem e representação das lutas socias. Mas, em todos estes grupos, vemos uma mesma partida. Surge de mentes que se juntam, discutem a produção das imagens hegemônicas, se organizam, lutando para produzir e exibir um cinema próprio e uma outra representação a partir daqueles que não possuem o poder econômico, político e simbólico.

Gabriel de Barcelos

Atualização: Este texto fez parte do processo de escrita da minha tese de doutorado, chamada “Cinema Militante, videoativismo e vídeo popular: a luta no campo do visível e as imagens dialéticas da história”, que defendi em agosto de 2014, na Pós em Multimeios da Unicamp. Para lê-la, clique aqui 


[1] Eric J. Hobsbawn, 1977, Paz e Terra, São Paulo, A era das revoluções: Europa 1789-1848
[2] Ibidem
[3] Luckacs, George. História e Consciência de Classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Pág 40
[4] Charney, Leo. Schartz, Vanessa. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2001. [5]  Machado, Arlindo. Pré-Cinemas e pós-cinemas. Campinas: Papirus, 2007 [6] Ibidem
[7]  Sobre a construção da figura do intelectual e a discussão sobre o seu papel hoje, ler  Novais, Adauto (org.):  O silêncio dos intelectuais. São Paulo: Cia da Letras, 2006 [8]  Anônimo. Le Cinema du Peuple, sociéte coopérative anonyme à personel et capital variables. In: Le  Libertaire, Paris, 13 septembre 1913. Citado por MARINONE, Isabelle. Cinema e anarquia: uma história obscura do cinema na França (1895-1935). Rio de Janeiro: Azougue, 2009
[9] Marinone, Isabelle. Cinema e anarquia: uma história obscura do cinema na França (1895-1935). Rio de Janeiro: Azougue, 2009
[10] Ibidem
[11] Ibidem
[12] Anônimo. Le Cinema du Peuple, sociéte coopérative anonyme à personel et capital variables. In: Le  Libertaire, Paris, 13 septembre 1913. Citado por MARINONE, Isabelle. Cinema e anarquia: uma história obscura do cinema na França (1895-1935). Rio de Janeiro: Azougue, 2009. p. 60
[13] Marinone, Isabelle. Cinema e anarquia: uma história obscura do cinema na França (1895-1935). Rio de Janeiro: Azougue, 2009
[14] Ibidem
[15] Ibidem
[16] Ibidem
[17] Ibidem Foto: filme La Commune (1914)
Abaixo, alguns dos filmes do Cinema do Povo (colaboração Biblioteca Terra Livre) e o filme L’affaire Dreyfus, de Melies

 

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