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Arquivo do mês: agosto 2013

Sobre corrupção, transporte e protestos

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USUÁRIOS LOTAM METRÔ DE SÃO PAULO

Quando as ruas eram tomadas por milhões e iniciaram-se bandeiras anti-corrupção, muita gente falou que essas reivindicações eram vazias, pois não apontavam para as verdadeiras contradições do nosso sistema político, geradoras dos problemas. Apesar de compreender a legitimidade dos diferentes sujeitos nas ruas, tendo a concordar muito com essas críticas.

Hoje, quando as ruas vão protestar contra a corrupção do PSDB no Metrô de São Paulo, vejo que muitos dos que fizeram essas críticas apenas repetem a mesma simplificação, agora com sinal trocado.

Independente de ser PT ou PSDB, o caos no transporte e a corrupção são parte do “vandalismo” do Estado e do Capital. Um enfrentamento crítico e radical ao sistema capitalista e à pseudo-democracia representativa, das portas fechadas, se faz necessário. Compreendendo que não temos transporte de qualidade, público e gratuito não por que o Estado não pode pagar, mas sim por que vivemos num sistema onde o poder econômico e político se beneficia às custas do trabalho do povo. Onde relações de poder e interesses privados agem para impedir qualquer direito social pleno. E onde o povo não pode enxergar o que acontece nos gabinetes e não tem o poder de decidir sobre os rumos políticos do país para além das eleições.

Por isso, nosso protesto não deveria ser só contra Alckmin, Cabral, Dilma e Haddad. Deve ser, antes, pelo poder popular e por uma vida sem catracas!

Gabriel de Barcelos

Para encontrarmos nossos eixos!

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Fiquei um tempo sem entrar nessa polêmica sobre o Fora do Eixo, para evitar conflitos desgastantes. Mas sinto que é importante me posicionar não para continuar brigas intermináveis, mas para tentar pensar debates que nos faça avançar. Acho que o grupo levanta questões muito importantes e que venho discutindo muito nos coletivos que participo: como financiar projetos de cultura e comunicação popular, livre, alternativa, independente? Como podemos viver desse nosso trabalho e sustentar estes projetos tão importantes na luta contra a hegemonia da classe dominante e o seu discurso único?

O vídeo acima, com o depoimento do Capilé me ajudou a concluir a minha opinião sobre o assunto. Além de todo o debate e acusações, me parece que ali está grande parte da estratégia do Fora do Eixo, (que tendo a discordar). Falo a partir do seu depoimento, para evitar acusações de calúnias e evitar a simplificação do debate.

Já participei de muitos rolês de cultura e comunicação onde todo mundo trampava de graça. Eram todas iniciativas sinceras. A diferença é que em nenhuma delas tínhamos orçamentos grandiosos, vindas de incentivo público e privado. Se houvesse, todos envolvidos teriam acesso de forma democrática a esta grana. Acredito que devemos sim criar iniciativas alternativas e independentes onde poderemos viver do nosso trabalho. E construir redes neste sentido, fora da grande indústria da comunicação e da cultura. Contudo, não vejo sentido em projetos onde há muita grana rolando (suficiente pra pagar todo mundo, como diz Capilé, no vídeo) e, mesmo assim, o artista ser desvalorizado e ter que trabalhar de graça. Façamos sim algo que é verdadeiro não só pela nossa vontade de transformar, romper, incomodar, mas que seja sincero e digno para cada indivíduo que esteja presente no mesmo trabalho.

No entanto, acho válidas as provocações feitas pelo Fora do Eixo sobre a posição conservadora de muitos artistas, que pensam muito mais no fetiche de suas obras do que no processo cultural-social como um todo. Da mesma forma, apontam que a maioria dos que criticam o Fora do Eixo não querem sair de seus empregos formais e construir algo diferente. Infelizmente, acabou-se construindo um maniqueísmo entre um sistema “fordista” cultural predominante atualmente, onde há relações tradicionais de trabalho e um “pós-fordista” (defendido pelo Fora do Eixo), onde se constituiria outros tipos de relação, baseado nas trocas, afetos e construção coletiva. Mas, o grande problema é que na forma como o Fora do Eixo opera, a estrutura alegada como “pós-fordista” deles mantém (e exacerba) as relações de exploração tipicamente “fordistas” (como bem apontou um post de Pablo Ortellado no FB)

Prefiro acreditar que uma luta de resistência não se dá apenas na ponta, no resultado, (e o o Mídia Ninja é uma iniciativa fenomenal e importantíssima para nosso momento atual), mas entendendo os próprios processos como parte constitutiva das transformações sociais. Se a provocação do FDE sobre estar “dentro” do sistema tem sentido, também é verdade que muita gente está criando formas de lutar pelo que acredita na cultura e na comunicação. Basta ver o trabalho de diferentes coletivos com cooperativas de cultura, editoras populares, produtoras de vídeo popular e outras.. Estes processos forjam a auto-organização popular e constroem outros sentidos de resistência à hegemonia cultural dominante.

Mas, devemos crescer dentro dessa luta com toda a verdade em relação a cada sujeito envolvido. Para combater a sociedade do espetáculo, não podemos nos tornar um espetáculo de sinal trocado. Ao invés de “concorrer” com o poder como iguais, devemos romper, questionar, destruir. Ser baderneiros culturais como foi a grande dançarina Maria Baderna. Devemos avançar na medida em que podemos, respeitando sempre cada pessoa e sem cair na moral do trabalho do capitalismo.

Enfim.. que as críticas sirvam para que todas as partes repensem e juntos avancemos na unidade para construir processos livres contra a hegemonia cultural-ideológica daqueles que dominam a produção de discursos e o poder econômico. No lugar de considerar o FDE inimigo, prefiro pensar que tanto eles, como os seus críticos podem entropicamente sair desse debate modificados, em ações coletivas para repensarmos nossos processos. E que venham mais coletivos de mídia livre, comunicação popular, música,, teatro e cinema independentes, coletivos de intervenção urbana e muito mais! Junho de 2013 mostrou todo o nosso poder de luta e auto-organização. Que os sonhos das ruas passem a escrever a nossa história!

Gabriel de Barcelos

Trincheiras virtuais para contradições reais

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bambole

Em junho vi algo inédito dentro de minha experiência militante: uma espécie de unidade nas ruas de todo o país, levando milhões às manifestações. Não podemos negar que estas mobilizações foram de uma complexidade e tensão enormes e que o conflito entre diferentes posições políticas e táticas sempre esteve presente. Mas, para quem cresceu vendo uma esquerda e movimentos de luta sempre fragmentadados, o que aconteceu foi algo sem precedentes. Houve certa tentativa de diálogos possíveis inclusive nos espaços como assembleias e reuniões ampliadas e uma visão otimista com o processo em termos gerais.

Contudo, não era de se entranhar que as mobilizações diminuíssem seu ritmo (embora não tenham parado, muito pelo contrário). E como só é possível unidade e mobilização popular a partir da rua, as contradições dentro dessa relativa unidade apareceram cada vez mais. Foram trocados ataques entre grupos políticos e as discussões se acaloraram nessa grande rede de comentadores que é a internet. Mas, se antes tínhamos um debate mais rico sobre avanços sociais e organização popular, tivemos que nos deparar com a inevitável contradição das diferenças (PT, PSTU, Black Bloc, MPL, LER-QI, Mídia Ninja/Fora do Eixo, PSOL, anarquistas, pacifistas, independentes, etc..). Não que os conflitos não existissem antes, mas se acirram, hoje, claramente. E podem caminhar para algo mais artificial e menos orgânico.

Discordâncias, críticas e debates geraram historicamente ótimos frutos para a teoria e a prática política. Hoje a internet possibilita um importante espaço para a discussão. Contudo, muita coisa acaba ficando na análise superficial e no mero ataque sem embasamento, tanto nos textos individuais como nos produzidos por organizações. A facilidade em “postar” um conteúdo com um clique traz possibilidades interessantíssimas e transformadoras na construção coletiva de sentido. Por outro lado, a palavra reflete agora o primeiro pensamento, não passando por uma construção mais depurada de textos e ideias.  Embora a internet tenha uma importância inevitável hoje, podemos concluir que a dialética das ruas e a relação prática e orgânica na vida são bem mais mais ricas.

A motivação para escrever esse texto foi o fato de eu também ter participado dessas discussões online,  paralelo a todo o processo interessante nas ruas, que ainda segue. Olhar ceticamente para a minha própria prática e a de vários outros sujeitos me fez chegar a algumas conclusões (como as que expus acima) além de muitas perguntas:

– Se há tanta diferença de concepções políticas, como articular isso tudo? Concessão ou consenso?

– Os rumos tomados pelas mobilizações serão construídos a partir de uma síntese dos debates populares e das ações políticas ou serão uma “disputa” entre diferentes posições?

– Como se darão os espaços onde essas posições se colocarão? E como se encaminharão essas decisões?

– Grupos e indivíduos são diferentes e discordantes, mas para ir para as ruas e avançar, devemos ser muitos: como agir diante disso?

– Os rumos tomados virão de concepções e horizontes políticos bem definidos ou serão construídos no próprio processo? Ou ambos?

Responderemos juntos, na vida.

 

Gabriel de Barcelos