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Ligue os pontos

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I

“sabe o que é? tenho medo de quem me conhece por dentro”

“estranho sempre nos encontrarmos por acaso, né?”

 

e ela se afasta de mim com um beijo na bochecha

vai almoçar com um amigo.

E eu fico com vontade de me disfarçar de outro

só para saber…

como é ela

sem eu

sem o medo, o constrangimento.

 

quero não só decifrá-la

mas decorá-la

recitá-la.

sua obra é fechada.

e pelo mesmo motivo é aberta.

e eu

tento completá-la

num “ligue os pontos” na Teoria do Caos

 

II

estamos lá, nós dois,

sentados naquele sofá improvável.

eu te percebo.

olho para um rosto impossível.

as pernas balançam, nomes e idades são perguntados

assistimos ao primeiro filme do dia.

 

Logo mais estaremos juntos, deitados e você perguntará qual é a minha história. Nos beijaremos… hoje mesmo. Amanhã almoçaremos, nos beijaremos de novo, em frente a uma igreja. Depois leremos poemas e trocaremos siesta por sexo. Eu pedirei para ver seu desenho e sua poesia. Você abaixará a cabeça, dará um meio sorriso tímido e dirá

não

com a cabeça.

você sumirá, eu ligarei. eu sofrerei.

superarei.

 

Sentada no sofá, você diz que ficará também para os outros dois filmes. Eu vibro por dentro. Ela não sumirá mais, ufa! Por hoje, pelo menos. Não será mais um platonismo de moças do ônibus! Você me contará, dias mais tarde, que ficou lá por minha causa. E eu ficarei envaidecido. O suficiente para esconder a certeza gravitacional de que você era tão minha como a água.

– Gostou dos filmes? Você tomaria um chop comigo?

 

III

Abraçamo-nos. Terna e simplesmente por estarmos lá.

(Por quê você pensa, pensa, pensa tanto, como fez na parte II? Podemos viver somente hoje? Só com pele, sem cérebro, metafísica ou filosofia?)

Abraçamo-nos. Estamos sentados no chão e as pernas se abrem um para o outro. Encaixamos formas, acariciamos costas. Sem lembrete e sem compromisso, numa paz sem mantra. Só dessa vez você não estará preocupada com a nossa situação e eu não estarei preocupado em te perder. Você não permanecerá com a cabeça em outro lugar e eu não tentarei te convencer que fomos feitos para sonhar juntos. O carro de gás vai passar lá fora e você me aperta mais forte. E eu coloco minhas mãos abertas em seus cachos, sentindo nuca e orelha,  beijando sua testa. O cheiro. A cabeça no ombro. Estamos felizes, de fato. Não aquela felicidade que inventaram para nós, que mais parece jogo de vídeo-game. Eu não controlo e dou uma risada. Você me pergunta de que estou rindo e faz carinho nas minhas sobrancelhas bagunçadas.

E, naquele momento, eu compreendo tudo,

ou muita coisa:

a vitória sobre a morte e o infinito

é, simplesmente,

não dizer “está na minha hora”

e não pegar o ônibus.

e morar, dentro do instante único, antes que você desfoque e suma, depois de virar a esquina.

 

ciao

cia.o
int 1 oi! ciao, come stai? / oi, como está? 2 adeus! tchau!ciao, vediamoci presto! / tchau, nos vemos em breve!

 

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