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Dante vencendo montanhas

Publicado em

Gabriel de Barcelos

Existem muitos obstáculos no seu caminho? A caminhada parece ser cada vez mais longa? Você tem como meta chegar ao ponto mais alto? Subir, cada vez mais? Venha, então, ao auditório do Hotel Monaco,às 16 horas deste domingo. Lá poderá presenciar a palestra “Vencendo Montanhas”, do famoso montanhista Dante Medeiros, aquele que conquistou alguns dos cumes mais altos do mundo. O esportista estará lançando o livro, de mesmo nome, e explicará aos presentes alguns dos pontos básicos para se alcançar o sucesso, vencer os objetivos e alçar vôos mais altos. Tudo baseado em suas experiências, no limite da morte, em perigosas subidas. Escolha entre continuar na base da montanha ou começar a escalada rumo à felicidade! Não perca esta oportunidade!


Dante lê, pela primeira vez, o texto do convite. Faltam dez minutos para começar a falar. Está sentado ainda na platéia, tomando uma água com gás e olhando as pessoas se ajeitarem nas cadeiras. Engravatados barrigudos, em sua maioria.

Começa a prestar a atenção numa funcionária muito atraente do hotel. Pesadamente maquiada e com uma saia justa que ressaltava grandes qualidades, ela depositava um jarro de água na mesma mesa onde logo ele se sentaria. É uma primeira conexão possível, pensa Dante. O montanhista percebe na jovem a grande semelhança com a ex-noiva, Virgínia. Tinha os mesmos cabelos castanhos claros cacheados e o mesmo nariz pontudo, assim como o semelhante jeito de andar rápido.

Lembra do dia em que a conheceu, no casamento de um velho amigo da escola. Depois disso foram cafés, cinemas, noites de sexo, pizza e conversas idiotas ou geniais. Três meses depois já moravam na mesma quitinete, depois num dois quartos. Dante trabalhava como gerente de uma loja de sapatos de dia e fazia faculdade de Economia à noite. Virgínia era professora de flauta. Conseguiam pagar as contas e viver felizes.

As coisas começaram a mudar quando Dante conheceu Saulo, aquele que lhe apresentaria o montanhismo. Como não tinha dinheiro, o novo amigo bancou-lhe os primeiros gastos com cursos, viagens e materiais. Mas logo veio a necessidade de tirar dinheiro do próprio bolso e o início da discórdia entre ele e Virgínia. Sentiu a necessidade de gastar a herança da mãe, guardada na poupança. A grana seria, como havia sido previamente combinado, utilizada para o futuro casamento. Os argumentos anunciados por Dante foram inúmeros. Falava de uma carreira promissora, até de uma voz interna que lhe exigia que conquistasse os pontos mais altos. O relacionamento terminou num banco verde, embaixo de uma Mangueira, lugar onde eles costumavam ir para namorar.

– Senhor Medeiros, o evento atrasará um pouco, talvez 15 minutos.
– Obrigado.

Começou a folhear o livro que publicara e ver algumas fotografias. Lembrava dos momentos em que cada foto havia sido tirada. Pensou nas nevascas, nos dedos que não mexiam, no medo dos animais, na solidão, no tempo em que pensou na vida. Abriu a página na imagem duma pequena casa, em meio a um rochedo. Para os leitores, aquela imagem não fala coisa alguma de específico, pois Dante não menciona nada em seu texto. Mas foi lá onde passou duas semanas, quando estava bastante afetado pelas intempéries do caminho e onde acabou morando, por quatro meses, ao voltar da escalada. Lá vivia Sarah, mulher adorável, absolutamente gentil, cansada pelo tempo e o trabalho, mas com uma sensualidade séria. Era viúva e morava com seus dois filhos. Lá os dois viveram momentos sublimes, numa vida que Dante desconhecia. Acordava cedo, cuidava da horta, brincava com as crianças, caçava a carne do jantar e transava todas as noites como um adolescente. Mas chegou o inevitável dia da despedida, fato que muito entristeceu Sarah. Já o alpinista sabia que estava abandonando algo impossível para ele, que não fazia parte de sua vida real.

Voltou para a cidade, resolveu pegar o diário e escrever as suas memórias. Seu primo, diretor de uma editora de livros de auto-ajuda, convenceu-o a pesar o tom motivacional, fazendo um livro perfeito para o mercado editorial. Vencendo montanhas foi um sucesso de vendas, após uma agressiva estratégia de marketing e a sua vida passou a ser freqüentar este tipo de evento onde estava agora. Dante já até imaginava Virgínia, que não via há nove anos, dizendo:

– Mas você sempre odiou livros de auto-ajuda!

Sentia-se um lixo em imaginar o que sua ex-noiva poderia estar pensando dele. Como sua saída para ganhar o mundo e viver de sonhos poderia ser encapada num produto barato daqueles! Renunciou a tanta coisa por isso?

Proferiu sua palestra como se estivesse numa câmara de torturas, mas manteve o rosto confiante ao qual seu primo lhe recomendara. Respondeu às perguntas que julgava absolutamente imbecis, de pessoas por quem não conseguia sentir nenhuma estima. Pacientemente, teve que suportar aqueles que lhe procuraram depois, os pedidos de email e os jornalistas. Não quis ir à confraternização organizada pela editora. Preferiu pegar um taxi para algum lugar, ao qual nem ele sabia onde seria. Dentro do carro, pensou como seria estar casado com Virgínia, morando com Sarah no casebre ou numa próxima desafiadora escalada. Decidiu ir à praia ver a noite sobre as ondas.

Depois de sofrer nos seus pensamentos em todo o caminho até lá, senta num quiosque e toma um sorvete. Naquele momento sente um estranho e misterioso prazer. Consegue esquecer seus arrependimentos e saudades. Se esvazia da culpa e dos medos sobre o futuro. Delicia-se com aquele sorvete e a brisa marítima no rosto, olha as pessoas caminhando e correndo e, obviamente, observa o horizonte. Sente vontade de viver para sempre naquele instante, sensação melhor do que a conquista da montanha mais alta.

Resolve entrar areia adentro, molhar os pés, depois as mãos, os joelhos, o rosto, até sumir, completamente, naquele mar que hoje estava especialmente frio.

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