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Arquivo do mês: fevereiro 2010

O perigo da história única

Palestra muito interessante da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Ela disserta sobre o que chama de ” o perigo da história única”. Para ela, o estereótipo não é problema por ser mentira, mas por ser a história única  ligada a um povo. Mas vale mais a pena ver a própria falando…

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

Silas em São Dimas de Dentro (parte I)

Silas é um bom homem. Funcionário público, é correto, trata todos bem no trabalho, apesar de não manter grandes intimidades ou amizades. Mora sozinho, numa quitinete que alugou mobiliada.

Às terças-feiras vai à sessão das dez no velho cinema perto da repartição. Seu apartamento é próximo dali, também. Apesar de ter um pouco de medo de assalto, vai à sessão porque gosta dos filmes que passam neste horário. A sala de exibição está praticamente vazia hoje. Quer dizer, sempre está vazia! Normalmente vão as mesmas pessoas, que Silas já conhece de nome. “Seu” Malaquias é ferroviário aposentado, cinéfilo inveterado e afirma já ter visto quatro mil filmes, o que Silas duvida muito. Mas sempre faz cara de impressionado toda vez que ouve sobre a grande lista. Vai lá, também, o casal Ignácio e Maria do Carmo. Ambos são alcoólatras, ele com algumas passagens por hospitais psiquiátricos. São, em geral, simpáticos e conversadores, mas brigam agressivamente, de vez em quando. Para completar o time dos assíduos temos Dona Valquíria, professora de matemática, solteirona, militante de organização maoísta nos anos 70, oito anos exilada no México. Aquela era, praticamente, a única família de Silas, pessoas com quem trocava apenas algumas palavras e encontrava em meio àquelas poltronas furadas.

Além do cinema, saía de casa apenas nos passeios durante as tardes de domingo, onde fazia um lanche na mesma confeitaria e, depois, se sentava na praça logo ali em frente, onde lia o jornal. Entre as notícias, observava as crianças e os idosos, as empregadas e os evangélicos que pregavam, o cego que tocava um violão com cordas arrebentadas e os pombos, claro, sempre os pombos.

Vamos ver, então, Silas, o que noticia o jornal…. “assalto na farmácia, atriz da novela fez escova inteligente, político pode ser cassado”. Enfim, parece tudo no mesmo lugar, pensou o funcionário público. Quando já ia dobrar as folhas, viu um informe publicitário daquela rede de livrarias famosa: “concurso literário: seja você, também, um autor”. Na hora vieram à mente de Silas todos os sonhos da juventude de ser escritor. Todos os contos, o romance em manuscrito, tudo o que sonhou ser. Mas, quem sabe agora? Será esta a oportunidade? O vencedor de melhor Romance ganha o lançamento da obra com edição de luxo! Será que concorro?

Mas…. Silas não havia olhado um detalhe, em letras menores. O tema do concurso era “minhas memórias”. Putz! Que droga! Silas simplesmente não tinha nenhuma grande memória digna de nota. Sua infância foi dentro de um apartamento, brincando com seus playmobills. Sua adolescência, igualmente monótona, onde a maior parte do tempo estava lendo quadrinhos e indo na matinê do velho cinema. Em alguns segundos viu sua chance perdida.

Foi, então, para casa. Pensou na sua fama como escritor. Pensou em toda outra vida que poderia ter. Seria a sua chance de fazer tudo diferente. A televisão estava ligada, mas ele pouco prestava atenção no que estava passando. Mais ou menos via que havia uma banda de fanfarra, tocando numa típica pracinha do interior mineiro. Não sabia exatamente do que se tratava. Algumas coisas foram fazendo sentido na cabeça de Silas, mas ele ainda não sabia o que era. O que essas imagens estão relacionadas com o que estou pensando? Viajou mais um pouco naquela música e naquelas imagens… Peraí! Já sei! Mas, será? Uma insight lhe veio à mente. O que será que aconteceria se eu inventasse minhas memórias? Ou melhor, se eu vivesse o passado que nunca tinha vivido!

No dia seguinte pensava compulsivamente naquela idéia um tanto desonesta, mas fascinante para a sua cabeça. No trabalho, enquanto organizava uma planilha, Silas entrava, algumas vezes, no Google e pesquisava cidades mineiras. Procurava, pelas fotos, a imagem que havia presenciado na televisão. Coretos, igrejas, bandas, estátuas, mercerarias… cada imagem era o ponto de aproximação que imaginava. Minas Gerais era o lugar para suas memórias. Uma cidadezinha lá no interior deste formoso estado, num lugarejo que foi feito para se passar uma bela infância e adolescência.

A idéia inicial de Silas era usar aquelas imagens que ele havia salvo no pen drive para a inspiração de sua bela narrativa. Mas nada saía de sua mente criativa. Foi quando tomou a radical decisão: passaria o próximo fim de semana em São Dimas de Dentro, cidade que mais chegou perto das imagens seus sonhos.

Ônibus, estrada….Silas é acordado pelo cobrador. Moço, moço! São Dimas já chegou!

(continua…)

Silas em São Dimas de Dentro (parte II)

Gabriel de Barcelos

Mais duas vezes Haruo Ohara

Mais duas coisas, voltando ao assunto deste japonês que tem me impressionado muito.

Primeiro, descobri um curta-metragem que está sendo feito sobre Haruo Ohara, com o lindo nome Pausa para a neblina. Este é o blog do filme:  http://pausaparaaneblina.blogspot.com/. Promete muito!

A segunda coisa é que descobri uma outra foto maravilhosa. Totalmente dentro do espírito mágico de Haruo. (clique nas fotos para aumentá-las)

 

O destino anônimo de sua geração

“Para que qualquer produto intelectual de peso possa surtir de imediato um efeito amplo e profundo, é preciso que haja uma afinidade secreta, uma coincidência entre o destino pessoal de seu autor e o destino anônimo de sua geração”

Thomas Mann em Morte e Veneza

Haruo Ohara

Haruo Ohara chegou aqui no Brasil em 1927. Imigrante japonês, ele permaneceu no interior de São Paulo até 1933, quando foi morar em terras adquiridas em Londrina, no Paraná. No ano seguinte se casou, numa relação que lhe deu nove filhos. Seus meninos foram temas recorrentes de sua grande paixão a partir de 1938: a fotografia. Além disso, o cotidiano na plantação de café, frutas e flores estiveram sob suas lentes, num olhar sempre lírico sobre a natureza, a infância e o trabalho.

Esta foto abaixo não só é a minha favorita dele, como é uma das imagens que mais me impressiona. A escada parece que vai para o céu, como se existisse uma dimensão de sonhos, paralela. E a menina (provavelmente filha de Haruo) cai segurando um guarda-chuva, como se saísse desse outro universo, enquanto aquele que deve ser seu irmão, a observa. A maneira como o mato está focado e a sensação de profundidade é impressionante.

Abaixo eu coloquei algumas das minhas fotos preferidas deste genial fotógrafo, que morreu em Londrina, em 1999.