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Arquivo do mês: agosto 2012

Perdoando Deus

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Uma das mais incríveis medidações filosóficas sobre o mundo, a plenitude, o amor e a inevitável realidade. “Perdoando Deus” de Clarice Lispector, na ótima interpretação de Aracy Balabanaian.

 

*Eu havia lido este conto na adolescência, mas não entendi nada na época. A amiga Eduarda Canto me recomendou essa interpretação, que li hoje, anos depois.

O momento da morte para quatro poetas

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foto: Morte de Cristo- Vittore Carpaccio

O defunto- Pedro Nava

Quando morto estiver meu corpo,

Evitem os inúteis disfarces,

Os disfarces com que os vivos,

Só por piedade consigo,

Procuram apagar no Morto

O grande castigo da Morte.

 

Não quero caixão de verniz

Nem os ramalhetes distintos,

Os superfinos candelabros

E as discretas decorações.

 

Quero a morte com mau-gosto!

 

Deem-me coroas de pano.

Deem-me as flores de roxo pano,

Angustiosas flores de pano,

Enormes coroas maciças,

Como enormes salva-vidas,

Com fitas negras pendentes.

 

E descubram bem minha cara:

Que a vejam bem os amigos.

Que não a esqueçam os amigos.

Que ela ponha nos seus espíritos

A incerteza, o pavor, o pasmo.

E a cada um leve bem nítida

A ideia da própria morte.

 

Descubram bem esta cara!

 

Descubram bem estas mãos.

Não se esqueçam destas mãos!

Meus amigos, olhem as mãos!

Onde andaram, que fizeram,

Em que sexos demoraram

Seus sabidos quirodáctilos?

 

Foram nelas esboçados

Todos os gestos malditos:

Até os furtos fracassados

E interrompidos assassinatos.

 

— Meus amigos! olhem as mãos

Que mentiram às vossas mãos…

Não se esqueçam! Elas fugiram

Da suprema purificação

Dos possíveis suicídios.

 

— Meus amigos, olhem as mãos!

As minhas e as vossas mãos!

 

Descubram bem minhas mãos!

 

Descubram todo o meu corpo.

Exibam todo o meu corpo,

E até mesmo do meu corpo

As partes excomungadas,

As sujas partes sem perdão.

 

— Meus amigos, olhem as partes…

Fujam das partes,

Das punitivas, malditas partes …

 

E, eu quero a morte nua e crua,

Terrífica e habitual,

Com o seu velório habitual.

 

— Ah! o seu velório habitual!

 

Não me envolvam em lençol:

A franciscana humildade

Bem sabeis que não se casa

Com meu amor da Carne,

Com meu apego ao Mundo.

 

E quero ir de casimira:

De jaquetão com debrum,

Calça listrada, plastron…

E os mais altos colarinhos.

 

Deem-me um terno de Ministro

Ou roupa nova de noivo …

E assim Solene e sinistro,

Quero ser um tal defunto,

Um morto tão acabado,

Tão aflitivo e pungente,

Que sua lembrança envenene

O que resta aos amigos

De vida sem minha vida.

 

— Meus, amigos, lembrem de mim.

Se não de mim, deste morto,

Deste pobre terrível morto

Que vai se deitar para sempre

Calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão

 

Os penetras escorraçados,

As prostitutas recusadas,

Os amantes despedidos,

Como os que saem enxotados

E tornariam sem brio

A qualquer gesto de chamada.

 

Meus amigos, tenham pena,

Senão do morto, ao menos

Dos dois sapatos do morto!

Dos seus incríveis, patéticos

Sapatos pretos de verniz.

Olhem bem estes sapatos,

E olhai os vossos também.

 

A hora íntima- Vinícius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

 

Lembrança de morrer- Álvares de Azevedo

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

 

Fita amarela- Noel Rosa

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho
Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém
Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

A jangada voltou só

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NCA

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Recomendo conhecer a produção do NCA (Núcleo de Comunicação Alternativa) um dos mais importantes grupos de vídeo popular do Brasil:

http://www.ncanarede.blogspot.com.br/search/label/Arquivo%20de%20v%C3%ADdeos

Foto via: http://ncanarede.blogspot.com.br/2008_05_01_archive.html

Tropicália Lixo Lógico

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Pra baixar o novo disco do Tom Zé:

http://depositfiles.com/files/a4g813x06

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Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh, baby, oh baby
A gente ainda nem começou

Gummo

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Gummo- Filme de Harmony Korine, 1997

Filme completo- http://www.youtube.com/watch?v=AkfkOjmGRQM