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Por que um golpe agora?

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militares

Por que um golpe agora?

Chegando à reta final do processo golpista, muitas análises são feitas sobre o porquê de termos chegado até aqui. Não cabe voltar a todas estas razões, mas podemos nos perguntar o motivo de tudo ter se consumado agora. Além disso, podemos nos questionar sobre o fato da luta contra o golpe não ter se massificado, atingido uma legítima luta popular ampla nas ruas.

Poderíamos falar sobre o abandono do trabalho de base, de um processo de identificação política, politização e diálogo. A população brasileira, em especial os mais pobres, votou quatro vezes no PT para presidente. Percebeu-se uma satisfação com os resultados dos dois presidentes eleitos pelo partido e os inegáveis ganhos sociais. Mas este sentimento parece ter se consolidado muito mais como uma aprovação a um político, na lógica puramente eleitoral, do que com uma identidade política militante (diferente do que ocorreu na Venezuela, por exemplo).

Poderíamos também ressaltar o papel da grande mídia, num incessante trabalho de ataque, nestes quase 14 anos. Junto a isso, não pode ser negada a competência dos grupos de direita em se capilarizarem na internet e fora dela, muito mais conectados do que a esquerda com as plataformas e relações contemporâneas.

Contudo, é inevitável voltar à dicotomia entre a cultura, a comunicação, a política, de um lado (superestrutura) e a base material e econômica (infraestrutura), de outro. A tentativa de derrubar o PT por parte da grande mídia é antiga. A popularidade e os bons resultados sociais e econômicos do Governo impediram que o golpe final fosse dado anteriormente. Da mesma forma, os grupos da direita ainda engatinhavam na sua organização, também não logrando êxito por terem a realidade jogando contra as suas ideias.

Foi necessário um cenário de crise econômica para o discurso e a prática golpista “colarem”. A grande mídia, a direita política e o poder econômico não jogam para perder. Sabiam que este era o momento certo e estão indo até o fim. Pode-se somar a isso a capitulação de Dilma em seu segundo mandato, no chamado “estelionato eleitoral”, onde anunciou uma série de medidas de ortodoxia neoliberal, diferindo-se da imagem construída em sua campanha. Isso lhe tirou a credibilidade, a identidade política, abrindo ainda mais o caminho para o que ocorre agora, além de intensificar a crise.

O que ocorre no Brasil não se difere da situação em outros países da América Latina, que também viveram a ascensão de governos progressistas e agora se deparam com a ascensão da direita. A esquerda, em sua mitologia um tanto cristã, achou que havíamos chegado ao paraíso. Nos esquecemos do que já havia alertado Marx há mais de 100 anos: o capitalismo vive de suas crises cíclicas. Elas não só são inevitáveis, como são importantes para novos processos de acumulação do capital, para a sua própria sobrevivência.

É verdade que dentro da lógica capitalista é possível conseguir avanços sociais verdadeiros. Mas, por outro lado, devemos aceitar a limitação destas ondas, que sempre serão interrompidas economicamente (pelas crises cíclicas) e politicamente (pelo golpismo ou mesmo pela volta da direita eleitoralmente). Por isso, é preciso retornarmos à perspectiva anticapitalista internacional, algo ensaiado entre os anos 90 e 2000. Junto isso,  é essencial reinventarmos as lógicas da política representativa, baseadas no distanciamento em relação à vida cotidiana, na conciliação do poder e no verticalismo. Longe de ser algo meramente idealista, é condição essencial para a nossa própria sobrevivência histórica. Do contrário, continuaremos a ter conquistas seguidas de perdas, ilusões de consolidação democrática seguidas de golpes, no mesmo ciclo sem fim.

Gabriel de Barcelos

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