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Como pode apodrecer algo que já nasceu condenado?

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ciclovia

Na política prendem-se e derrubam-se uns, voltam outros, criam-se novos personagens. O espetáculo dos falsos moralizadores ganha holofotes e o sistema vai se regenerando, pronto para um novo ciclo, onde permanecerá intacto em sua estrutura. Há muitos séculos fazer rolar cabeças na praça pública é uma ação catártica para lavar a alma e manter o estado das coisas.

A palavra corrupção vem de “apodrecimento” “deterioração”. Como se algo bom em sua origem fosse posteriormente degenerado. Nada mais falso. O sistema político não é podre, não sofreu nenhum processo destrutivo. Ele na verdade funciona perfeitamente, mas para a manutenção do poder de algumas pessoas e grupos. Para a maioria da população ele já nasceu condenado em sua estruturas, nas suas bases,  como a ciclovia que caiu no Rio, ou a “ponte para o futuro” de Temer.

Uma Reforma Política, ainda muito longe de acontecer, poderia ser apenas um dos pontos de partida. Mas somente uma transformação total dos sistemas e culturas políticas, junto às transformações econômicas, poderia estancar o eterno retorno de tragédias e farsas. A insatisfação de povos em todo o mundo com este estado de coisas foi percebido em 2013 no Brasil. Grande parte da esquerda institucional desdenhou, a direita e a grande mídia usaram, como gênios do mal que são, esta inconformidade para fazer valer seus interesses.

É verdade que a política feita no envolvimento direto com a vida cotidiana é uma centelha insurgente, como a dos estudantes secundaristas que ocuparam e geriram as suas escolas. Neste momento, a esquerda está nas ruas, no papel histórico que lhe cabe. O momento atual, onde vivemos um processo de golpe, pode ser de recuo para garantias contra retrocessos, mas também é oportunidade de contestarmos o eterno retorno a que somos condenados. Sejamos realistas: desejemos o possível necessário frente à barbárie, mas também o “impossível”, negado por aqueles que decretaram o fim da História.

Gabriel de Barcelos

Foto: Custódio Coimbra

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