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Brasil: “esse é um país que vai pra frente”

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Brazil Indian Museum Battle

 

Os mortos não podem ser enterrados e não podemos olhar para trás. Um, dois, seis operários mortos na construção, famílias removidas, jovens exterminados numa pacificação branca, de comunidades que não podem estragar o espetáculo. O vento do progresso sopra e estádios da Copa precisam ficar prontos. A morte é apenas um detalhe. Os mortos são mártires de uma causa que não escolheram. E permanecerão esquecidos quando uma bela coreografia na abertura celebrará a “união dos povos”. Assim como ficarão esquecidos durante toda a história contada pelos vencedores.

Não olhemos para trás, não enterremos os mortos, afinal, o que importa é nosso futuro redentor!

(inspirado livremente em “Teses sobre o conceito de história”, de Walter Benjamin)

 

Pra frente Brasil

O ano era 1970 e o Brasil sagrava-se tricampeão do mundo. Vivíamos o auge do período mais duro da Ditadura Militar, há apenas dois anos do Ato Institucional número 5. Não são poucas as referências ao teatro patriótico ufanista realizado em paralelo aos assassinatos, torturas, censuras e prisões do regime (como mostrado no filme Pra frente Brasil, de Roberto Farias). A propaganda de um Brasil também estava no chamado Milagre Econômico Brasileiro: uma série de medidas denominadas desenvolvimentistas que o Governo fez no o país, como a substituição de importações e obras de infraestrutura. Medidas que trouxeram crescimento a curto prazo, mas concentração de renda.

Por motivos óbvios, é impossível apontar com credibilidade o nível de aprovação de um Governo de exceção, mas, a memória oral das ruas mostra o saudosismo de parcela da população com a economia da época, em especial nas regiões urbanas. A imagem construída era de momentos gloriosos, onde o discurso hegemônico mostrava que já não mais seríamos apenas o “país do futuro”, mas estaríamos vivendo nosso desenvolvimento. Tanto pela força da censura e da repressão violenta direta, como pelo momento que o país vivia, a resistência à ditadura não conseguiu romper com o isolamento de seus focos.

O projeto ditatorial  investiu em suas faraônicas obras de infraestrutura, algumas efetivas, outras consideradas “elefantes-brancos”. Estes empreendimentos deslocavam operários para locais distantes, em empregos temporários, muitas vezes sem estrutura e possibilidade de retorno ao lar. As mesmas grandes obras também desalojavam famílias nos locais de suas construções. Junto a isso, outros processos também geraram problemas sociais graves no país, dentro do  ideal desenvolvimentista nacional: ocorreu a tentativa de “colonização” da Região Norte e outros locais, onde promessas de terra e trabalho atraíram brasileiros em condição de miserabilidade, em especial nordestinos. Além disso, o campo sofreu a chamada “Revolução Verde”, que operou a maquinização e a utilização de produtos químicos, gerou desemprego e despejou camponeses e indígenas. Era o velho latifúndio, vestido com sua nova roupa moderna, tão bem representado pela paradoxal expressão “modernização conservadora”, comum em análises da época. O legado destas iniciativas foi de pessoas sem terra, casa, trabalho ou submetidas ao trabalho escravo, impulsionando, inclusive, o nascimento de movimentos como o MST nos anos 80- consequências sociais sentidas até hoje no campo e na cidade.

 

 

Redemocratização

Depois do país viver o crescimento econômico, nos deparamos com a “ressaca” dos anos 80, com suas infindáveis crises econômicas e políticas. A recessão, junto a movimentos populares de massa, como as greves operárias (que originaram a Cut e o PT) e as Diretas-Já, cimentaram a tumba desta que foi uma de nossas mais sombrias eras. Após o conturbado período dos anos 80 e o impeachment do presidente Collor em 1992, chegaram ao poder, nos anos 90 e 2000, grupos anteriormente envolvidos no processo de democratização do país (embora de matrizes políticas discordantes).

Derivado do MDB, única oposição aceita pela Ditadura durante muito tempo, o PSDB do presidente Fernando Henrique Cardoso aprofundou o desmonte do Estado brasileiro (iniciado com Collor), através de suas privatizações e o sucateamento do setor público, eliminando direitos sociais. Em termos econômicos, apostou numa política de estabilização monetária e controle de inflação, geradora de um período de estagnação econômica e desemprego.

A partir de 2003, O PT, do presidente Lula, manteve grande parte destas diretrizes liberais, mas efetuou, também,  políticas mais amplas de combate à pobreza, obras de infraestrutura e desenvolvimento econômico (na forma do PAC- Programa de Aceleração do Crescimento) e subsídio ao setor “produtivo”. Porém, o processo dito desenvolvimentista encontrou na gestão da presidenta Dilma Roussef, iniciada em 2011, grande impulso. Um dos fatos mais simbólicos desta escolha, é a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira-PA, idealizada pelos militares, mas parada há 30 anos devido à resistência popular, em grande parte indígena. Tanto Lula, quanto o Ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, já confessaram a sua admiração pela política econômica do Regime Militar.

 

Copa, desenvolvimentismo e espetáculo

O Brasil retornou, então, ao espetáculo do crescimento e da promessa de um país grande. Este rumo chamado desenvolvimentista não é apenas consequência da aliança do Governo com o empresariado, elemento facilmente percebido, por exemplo, na participação de empreiteiras financiadoras de campanha nas grandes obras do Governo e outros tipos de relações escusas. Mas é, também, parte de uma antiga confiança na burguesia nacional como motor de desenvolvimento do país, ideologia capitaneada historicamente por setores da esquerda brasileira. Indo na mesma direção, a aliança do Governo com o latifúndio, que hoje ganha o moderno nome de “agronegócio”, faz parte tanto do pragmatismo das alianças políticas, como do projeto econômico do Governo. O agronegócio concentra terras, prioriza a exportação, não produz alimentos e não colabora para a segurança alimentar, nem gera empregos, mas contribui para engrossar as estatísticas do econômicas, em seu modelo agroexportador. Por isso, para o Governo, pouco importa que ele gere conflitos fundiários, cause desastres ambientais e opere o extermínio indígenas (com apoio do Estado), afinal, a reforma agrária, a preservação ambiental e a demarcação indígena se tornaram empecilhos dentro do “projeto maior” do Estado e do Capital,.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas, que serão realizadas em 2014 e 2016, são o paralelo mais claro do retorno ao espetáculo nacional da ditadura. A concretização das obras do evento insere-se num ideal higienista mais amplo, que inclui diferentes projetos elitistas, onde os pobres são apagados, deixando espaço aberto para a especulação imobiliária e transformam a cidade num banco de negócios. Para concluir estes empreendimentos, 150 mil pessoas estão sendo despejadas de suas casas, sete operários morreram (até agora), assim como vem se endurecendo a repressão à população pobre e negra, com a realização de chacinas e outras truculências em diferentes comunidades. 

 

 

A defesa dos partidários do Governo do PT aponta para os benefícios trazidos pelos programas sociais, a queda do desemprego e o crescimento econômico. De fato, é impossível fechar os olhos para os avanços trazidos pelo Bolsa-Família, assim como pelos ganhos gerais operados em termos de emprego e redução da pobreza. São benefícios reais na realidade do trabalhador, que provavelmente garantirão vitórias  eleitorais futuras, daqueles que legitimamente se sentem contemplados. A ênfase numa política social é um diferencial entre o desenvolvimentismo de agora e o de outrora. Contudo, nem  todas as  medidas do campo econômico podem ser vistas de forma separada. A afirmação social vem muitas vezes do poder de consumo e não nas conquistas de direitos sociais como saúde, educação e transporte. A queda do nível de desemprego é impulsionado pelo boom da construção civil, resultado da especulação imobiliária e das grandes obras, assim como pela terceirização e precarização do trabalho.

Mas, assim como na época da Ditadura, a satisfação atual  com resultados do país caminha lado a lado com violentas medidas de exceção. Se na Ditadura os êxitos do Estado não permitiam tempo para pensar naqueles que eram torturados e assassinados, agora não temos tempo de pensar no terrível massacre indígena atual, nos Amarildos assassinados, nos despejados de Belo Monte e nas adolescentes prostituídas em Altamira, na perseguição às rádios comunitárias, ou mesmo na repressão às greves em obras como Jirau. Se antes tínhamos “Deus, família, propriedade” e a ideologia “moral e cívica”, hoje temos a aliança do Governo com religiosos de extrema-direita que impedem avanços em termos de direitos humanos e subvertem o Estado Laico. Se antes havia o AI-5, agora temos a Lei Anti-Terrorismo, que está para ser aprovada e a Portaria do Ministério da Defesa que estabelece o uso das Forças Armadas para a “garantia da Lei e da Ordem”.  Se antes éramos “o país que vai pra frente”, hoje somos o “país de todos”.  A máquina não pode parar e não podemos contar os mortos. No melhor estilo maquiavélico, pedem-nos para esquecer de tudo em nome de algo “maior” (como bem representado no desprezo da grande imprensa em relação às mortes dos operários dos estádios, afinal, os estádios precisam ficar prontos, para ganharmos nossa taça e nossa redenção). Quando ainda hoje colhemos os frutos podres do projeto militar de desenvolvimento, retorna-se ao mesmo projeto, cujos efeitos ainda aguardamos. O “pra frente Brasil” e o “país que vai pra frente” surge, na verdade, como eterno retorno, como a cobra que insiste no erro de morder o seu próprio rabo.

 

Não vai ter copa!

Um ano após os grandes protestos em 2013, temos um ano de Copa do Mundo, que podem reacender (ou continuar) as lutas. Diferentes  frentes de luta popular têm feito um trabalho de organização e mobilização, com grande potencial para evidenciar as contradições desse espetáculo e talvez incomodar a festa. A oposição de direita, assim como os quadros de situação petista-governista, querem transformar tudo numa disputa político-partidária. De um lado, aqueles que querem apenas atacar adversários políticos com fins eleitorais e, de outro, aqueles que criticam as manifestações populares para manter intacta a imagem da presidenta. Ao contrário do que pensam alguns intelectuais, a história não cabe dentro de uma gaiola de laboratório, (com resultados controláveis) e as  manifestações de massa são algo de impossível previsão. Para os que acreditam no desvio desta marcha destruidora da Copa e do desenvolvimentismo burguês, fica a esperança de que um novo projeto, de poder popular e direitos amplos para o povo, esteja sendo forjado na luta resistente e revolucionária das ruas.

O lema “não vai ter copa” surgiu das vozes populares das manifestações de 2013. Não trata-se de uma previsão de futurologia e sim de uma bandeira, um norte radical necessário. A luta popular vai conseguir impedir a Copa? Não podemos saber. Mas somente a organização e a ação popular poderão permitir que a imagem perfeita deste “Pra frente Brasil” seja quebrada, fazendo que as vozes silenciadas sejam impostas, mostrando um Brasil que não cabe na imagem perfeita da “Lei e da Ordem”.

 

 

 

Uma resposta »

  1. Eu lí para aprender mais.

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