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6- Jésus

Mariana subiu serelepe as escadas, dando um quase pulo para dentro do ônibus. Estava com as amigas, seu top vermelho e um gostoso barrigão para fora. Os olhos-poltronas começaram a levá-la ao pelotão de fuzilamento, mas ela não reparou. Ao menos parece não ter reparado.

– Coitada! Tão nova! –

Ria das histórias de Patrícia, falando daquele menino que beijava muito mal.

– Onde esse mundo vai parar? 16, 15…14? –

Arrumava o cabelo da Paulinha, perguntando o que ela ta passando. Ficou muito bom!

– Isso é culpa dos pais, que não dão mais educação! No meu tempo não tinha dessas sem-vergonhice! –

Paty, sua maluca! Vamos saltar no próximo!

*

A senhora sabe que eu gosto que tá esfriando sabe? Quando a gente fica velho é muito desgastante o calor. Sair de casa é um esforço grande! Mas muito frio também não é bom, não. Ficamo meio enferrujado ne? E tem o resfriado também. Eu não acredito naquela vacina não, a senhora acredita? Tudo começa a ficar mais difícil com idade! A senhora sabe que tô fazendo 65 anos? Nem é de velho, talvez. Eu não acho, pelo menos. Eu fiz aniversário ontem, na verdade. Ah sim.. obrigado! Muito gentil da parte da senhora. Como eu ia dizendo, ontem eu fiz 65. Resolvi comemorar hoje, andando de graça de ônibus, metrô e pagando meia no cinema. A sessão do filme que eu quero ver é muito tarde sabe? Eu adoro cinema, mesmo! Só que os filmes de hoje são uma grande porcaria! O único filme que me interessou passa só bem tarde. Resolvi ficar passeando pela cidade, pelas cores, pelos terminais… por aí. Ficar indo e voltando, olhando a janela, vendo as pessoas….É… isso aí …………………………………………………………………………………………………………….

………………………………………………… ai ai!…………………………………………………………….

…………………………………. la-la-la-la-la-la-la- por-onde-for, quero ser seu paaar..

…………………… a senhora me dá licensa, que tem uma corrente de ar melhor ali daquela lado. Tenha uma boa tarde!

Eu tô demorando para perceber que ninguém gosta muito de conversar com um velho! Estou bem conservado, modéstia à parte, mas sou um velho. Não me considero um velho. Mas estou exercendo o privilégio de um, ao andar de graça. Portanto sou um. Ao menos para o Estado.  As pessoas às vezes fingem que te dão atenção, mas é algo meio de caridade. Estão pensando, na verdade, no próximo capítulo da novela, mas dizem um sim.. e fazem alguma pergunta forçada, balançando a cabeça positivamente. Melhor ficar na minha, olhando a janela.

Muito engraçado isso! A porta faz um reflexo estranho ao passar pelas pessoas na calçada. O ônibus, ao seguir em frente, reflete as pessoas em sentido contrário. É como se uma multidão urbana estivesse andando de costas. Que belo efeito para um filme! Por que não me tornei cineasta? Poderia abrir um filme com essa imagem! Seria uma metáfora de algo. O retrocesso da sociedade, ou algo assim. Vou dar essa idéia para alguém. Vou anotar e mandar para aquele diretor que me correspondo por email Será que ele ainda tem raiva de mim? Não vejo nada demais criticar um filme e dizer que ele tem potencial para fazer melhor. É o que chamam por aí de crítica construtiva.

Aquele ali andando de costas é igualzinho ao Jésus. hahahahah Jésus, que figuraça! Por onde andará aquele pinguço?

Conheci o Jésus no AA. Ambos estávamos lá obrigados. Ele, como exigência para participar de um programa social da Prefeitura. Já eu, havia prometido para Gilson, funcionário do setor de Recursos Humanos da empresa onde trabalhava. Gostava muito de Gilson, sabe? Era um grande amigo. Eu não ouvia nada do que eles falavam no AA e fazia um grande teatro na hora de de dizer o: oi, meu nome é fulano… e também tinha a certeza de que não ia parar de beber. Mas o meu respeito pelo cara me fez ir e mentir. Talvez para manter uma paz no trabalho também. Um emprego de merda e sabia que Gilson fazia um papel de merda para controlar os funcionários. Mas acho que todos estávamos no mesmo barco furado, apesar de estar um pouco mais furado na popa, claro (pois eu ganhava bem menos).

Mas falávamos mesmo era de Jésus…. Um sujeito muito bom! Ironicamente, saíamos sempre do AA todas as terças-feiras e íamos direto para o bar (bem longe, para ninguém desconfiar). Algumas vezes comprávamos uma boa cachaça no supermercado e íamos até à escadaria da igreja beber e conversar. Ele fazia sempre a piada sem graça com seu nome: estou na casa certa, só o acento é que está no lugar errado. Depois soltava uma gargalhada alta, que às vezes era seguida de uma tosse pigarreada de Derby. Falávamos de futebol, mas também muito de cinema antigo, que ele adorava, como eu, especialmente as comédias de Chaplin, O gordo e o Magro e Mazzaropi. As vezes falávamos sobre a família dele, porém pouco sobre a minha. Os problemas de Jésus já davam assunto suficiente para muitas horas de prosa.

Ainda lembro da última vez que vi aquele cachorro maravilhoso! Em determinado momento da vida, resolvi sair da casa onde morava. Estava em depressão, bebendo muito com muitos problemas. Pensava há alguns anos, mas decidi que aquela era a hora. Iria viajar para encontrar minha prima Luciana e a intenção era montar uma vídeo-locadora. No caminho, eu passaria na cidade onde estava morando Jésus. Nos ligamos e combinamos numa praça.

Na época em que nos conhecemos, ele trabalhava como pintor de parede. Agora era catador de sucata, ou catador de material reciclável, como insistia em dizer.

(…)

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