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5- Dois sonhos

Dois dias antes de sair, tive um sonho: eu conversava com uma mulher na parte de cima de uma escadaria gigantesca, localizada num grande jardim. Ela era mais velha e não era tão bonita, mas gradativamente me apaixonava por seu olhar sorridente e confiante, pelas palavras escolhidas, pelas memórias preferidas. Naquele momento possuía a certeza de quem estaria ao meu lado no Cale-se para sempre.

Meu ódio foi grande por acordar e constatar o mundo onde morava aquela mulher. Mas a raiva durou uma hora, por aí…. , período em que sua fisionomia nítida ficou na minha mente, antes de borrar.

Acabei me lembrando de um conto, baseado numa experiência noturna: certa noite, num bar, conheci uma moça chamada Tarsila. Conversamos um pouco e me interessei bastante. A aproximação não poderia ter outro mote, senão a coincidência de nome com a pintora brasileira. Um tanto óbvio… bastante talvez… Mas esse cansativo processo de aproximação afetiva nunca é fácil. Sempre falamos algumas besteiras, ou qualquer coisa parecendo ser genial (mas nunca é).

Vim com um papo sobre a Tarsila do Amaral abandonada e traída, enquanto todos louvavam a experiência do marido Oswald de Andrade com a amante libertária Pagu. (Na verdade estava apenas repetindo um diálogo de um filme indiano chamado Samsara, onde há questionamento um pouco semelhante, em relação à esposa deixada por Buda no caminho da iluminação.)

O fato dela também ser artista plástica e ainda ser budista era só mais um clichê da realidade, daqueles que parecem bons demais para o mundo. Por minutos, tudo parecia que ia acabar bem. Isso se não fosse o olhar desinteressado dela ao conversar comigo e a justa discordância impaciente com minha tese de araque. Em seguida, veio a desculpa de ir procurar a amiga, ou algo do tipo.

Fiquei sentado, fumando e bebendo. Pensando na minha solidão e me solidarizando, por instantes, com Tarsila. Não a do bar, mas a da Abapuru. Nós dois, deixados. Olhava para alguma coisa no céu e tomava coragem de voltar para casa.

Tarsila (a do bar) já ia embora. Porém quando alguém a chama, nas suas costas, ela repara em mim.

*

Eu já ia embora. Aquela festa já estava chata demais e a hora de acordar chegava. Foi quando ouvi atrás de mim: -Tarsila!- Era uma amiga chamando. Ao me virar, de relance vi de novo um cara que estava me enchendo o saco com papos sobre a pintora Tarsila do Amaral. Ele em nada me cativou e eu já estava com a paciencia esgotada da noite. Mas, não sei por que motivo, fiquei impressionada com o cara sentado ali, olhando para a lua, fumando, bebendo Itaipava e olhando as horas no celular. Por segundos, me interessei e quis conhecê-lo.  Resolvi sentar ao seu lado e puxar conversa.

*

O conto terminava assim. Com Tarsila sentada ao meu lado.

É claro que a noite não acabou dessa forma. Mas foi a melhor maneira de voltar para casa… sabendo que poderia reescrever o final. A única forma de poder dormir em paz.

Ao contar isso para o Gilson, do Recursos Humanos, ele desdenhou. Disse que eu era apenas um infeliz, mendigando pena. Não adiantava explicar sobre a literatura como melhor maneira de realizar algo inexiste. Não sei. Ponderei se ele possuía alguma razão.

Quando pequeno, passava bastante tempo sozinho e não convivia com pares da minha idade. Como muitos pirralhos, lidava com mundos, cidades, lugares, personagens- as melhores formas de sobreviver e morar. (Talvez as únicas possíveis naquela época). Mas, aos poucos, fui tomando noção dessa história de crescimento e amadurecimento. Com desespero, comecei a temer pela vida adulta, prevendo o que poderia desaparecer.

Parece confuso falar sobre isso hoje, mas não se tratava exatamente de algo imaginário. Eram imagens que eu tinha a capacidade  de ver naquela idade. Mas não tinha certeza sobre como seria a minha mente no futuro e me desesperava a dúvida em relação aos meus pensamentos de gente grande, anos depois.

Hoje, qual não é meu espanto, a minha preocupação se inverteu. Por mais que eu queira, não consigo viver a vida adulta em sua plenitude, sem imaginar situações possíveis para fatos indesejados, interlocutores imaginários ideais, filmes ou livros completos para situações não-narrativas, além de memórias não vividas e biografias paralelas. Estou condenado a apenas imaginar tudo o que eu não consigo viver de fato. Foi isso o que pensei….. ou foi o que Gilson, do Recursos Humanos, disse… Já não me lembro mais.

Ele, com toda a razão, alimentava essa opinião negativa de mim devido a algumas histórias contadas. Contraditoriamente, ele gostava muito delas, se interessava e pedia outras, mas me alertava sobre o perigo do martírio e da vitimização.

Gilson me falava todos os dias de sua filha Rosa Maria. Tinha um interesse quase científico (embora repleto de afetividade) por seu desenvolvimento, por suas descobertas: como foi o primeiro olhar para o espelho, suas conversas intermináveis, cheias de inflexões baseadas em sílabas engraçadas. Nunca esquecia de mencionar a relação de amor e ódio dela com o cão, a quem ela dedicava muito carinho, mas temia com choros histéricos, segundos depois. Cinema, teatro, mar, vovó, presente, comidinha, caixa de papelão, vaso quebrado, riso inexplicável ao ver a sala pintada de azul.

Depois de bastante tempo falando de Rosa Maria, ele me pedia para eu falar de meus contos inacabados, ou mesmo para eu repetir alguma história que ele adorava, como a da edição especial da revista dos X-Men, meu sonho de consumo com 11 anos de idade. O preço era exorbitante e, mesmo juntando moedinha por moedinha, economizando a grana da merenda, não dava para comprar. A única coisa possível a se fazer era pegar um monte de folhas de papel, grampeá-las e desenhar minha própria versão do que seria a Batalha Final

Gilson também gostava de outra história, sobre uma tarefa escolar na quarta série: Nilzete, a professora de Estudos Sociais (na época se chamava assim) ensinava sobre a estrutura urbana, ruas, avenidas, quarteirões… Ela propôs, como trabalho, sairmos nas redondezas da nossa casa desenhando mapas de tudo e entender como funcionavam aqueles espaços.

Ela disse que isso deveria ser feito junto com os pais ou responsáveis, mas obviamente achei que seria bem mais divertido fazer sozinho. Peguei o caderno e parti. Com certeza era o dever de casa mais interessante que havia feito até ali. Entendi a lógica daqueles quadrados. Entendi que se não atravessássemos a rua, dávamos a volta no mesmo quarteirão, chegávamos no mesmo ponto. Da mesma forma, saquei que se seguíssemos em linha reta, continuávamos na mesma rua. Mesmo garranchados, meus mapas eram fantásticos.

Algo de diferente começou a acontecer. Como passei a entender tudo que estava à minha volta, fui tomado de uma auto-confiança ainda desconhecida. Eu poderia desenhar os lugares e dessa forma sair por aí, com algumas cuecas na mochila, um caderno e uma caneta. Resolvi fazer além da tarefa. Comecei a ir mais e mais longe, ver locais desconhecidos e me afastar do apartamento.

Me empolgava tanto, que a possibilidade de voltar para casa foi simplesmente esquecida. Parei para perguntar o horário….. já havia se passado duas horas! O senhor do relógio de pulso me perguntou se estava sozinho, se estava perdido. Meu orgulho me fez mentir, dizendo que a minha casa estava logo ali.

Quanto mais andava, mais me perdia. O que João e Maria fizeram não seria o mais adequado para manter a limpeza urbana.

Eu possuía tanta confiança nos meus mapas! Não era possível o que estava acontecendo!

O trabalho de casa aventureiro terminou com uma viatura da polícia, uma mãe desesperada e um castigo.

Mais ou menos no mesmo período eu vi um episódio do Snoopy onde Charlie Brown disputava uma corrida. Surpreendentemente, o eterno perdedor começava a se distanciar e ficar primeiro. Em sua mente passavam todas as suas derrotas e frustrações da breve vida e lhe vinha, de dentro, o prazer de finalmente conseguir vencer. Estava sozinho e triunfante.

Não lembro exatamente do texto, mas sim do seu sorriso pouco usual e o vento no rosto. Era só ele junto à sua vitória.

Mas a alegria vai acabando, quando ele percebe algo estranho. Charlie descobre o motivo de estar só: errou a direção. Corria, na verdade, para o lado oposto à linha de chegada.

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