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Política (Drummond)

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Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que ele sabia bons.
Sentia-se diminuído em sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso.
o rio que lá embaixo poucos se importava com ele
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.

E teve vontade de se atirar
(só vontade).

Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.

Carlos Drummond de Andrade (do livro Alguma Poesia)

*

Eu estava relendo o poema Política , de Drummond.

Hoje, quando vejo militantes do passado com cargo no Governo e dizendo “sim senhor”, lembro de todos aqueles que não se ajustaram e não se ajustarão. Aqueles que sempre colocaram os seus ideais e a defesa do povo como algo bem maior do que a fidelidade a caciques do poder. Eles estão em todos os lugares e com mais dificuldade ainda nas cidades menores. Inevitável lembrar do Amarildo Mayrink, da pequena cidade Bicas-MG, onde morei uma grande e feliz parte da minha vida ( seu blog). Antigo militante do PT, lutou a favor de várias causas: juventude, skatistas, moradores do bairro pobre da Saracura, conselhos participativos, conferências, projetos sociais e, por último, uma briga (que terminou vitoriosa) contra a poda química criminosa realizada pela Prefeitura. Por defender o que acredita, não conseguiu se ajustar aos esquemas políticos e acabou saindo do partido e do Governo. Vida longa aos que fazem História e vão contra os que insistem em manter a mediocridade do mundo.

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