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O lugar das coisas

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Que idiota esse nick Rapunzel! Entrar num chat foi algo do fundo do poço, pensa e fala baixinho.

Desconecta e volta a fazer o frila que tem que entregar amanhã.

Ela mora sozinha e, em sua quitinete, a vizinhança é diversificada e excêntrica, para usar eufemismos. Um dia já se apresentou como desenhista, agora se envergonha em dizer isso. Ir para a cidade grande, alugar um apartamento e tentar a vida com arte era bonito, mas não era algo real. Faz freelances em diagramação e entrega papéis de dia.

Quer dormir, dormir, dormir. Sua cabeça explode, parece que seu cérebro está afogado, boiando em conhaque. Pesada, pesada. Não se mexe. Fica na cama, luz apagada. Já foi caprichosa um dia, agora olha para o lado e vê as dezenas de garrafas jogadas. Toda vez que olha para a bagunça imagina sua mãe chegando, olhando tudo com cara de reprovação, falando das roupas, da sujeira, da perna sem depilar. A sua mãe fica na cabeceira da cama, lembrando que é impossível viver sem auto-flagelação.

Lembra dos flashes de ontem, do momento mágico onde encontrou aquele carinha lindo, com feição de misterioso e olhar perdido. Começaram a se beijar no momento em que se viram. Parecia filme. Até que os dois perderam o equilíbrio e caíram no chão, ela com a garrafa de conhaque na mão. Ela vai atrás dele, grita pela rua, faz escândalo. Até perceber a mão cortada e ver que o melhor a fazer era voltar para casa e acabar o desastre. Ela manda um e-mail pela manhã e ele responde desencana de mim, de verdade, só fiquei com você por que estava bêbado. Idiota! Pegue todo o seu mistério clichê e enfie no seu cú, seu escoto de merda!

Sempre que se movimenta, seu estômago vai até à garganta. Prefere deitar. Amanha termino o frila. Não consegue ver televisão, nada. A cabeça pulsa e martela cada vez mais forte. Vomita na privada, volta. Come arroz com batata palha e volta para a cama.

Não pensa nem na morte. Quer que tudo acabe, embora não saiba bem o quê deve acabar.

Ela só quer agora ser salva! Só isso! Quer que alguém, ou algo a salve. Foda-se a auto-ajuda! Não quero saber dessa história de que só eu mesma posso me salvar. Eu quero que alguém entre por essa porta e mude tudo, me faça suspirar, chorar, me desesperar. Alguém que me sequestre para um lugar bem longe. Alguém que me salve e arruine a minha vida ao mesmo tempo. Alguém por aí? Alguém quer me salvar? Você me ouve? A pessoa virá sim. Trará pão para tomarem café juntos, a pegará pela mão para fazer surpresa de algum lugar charmoso da cidade. Uma parte desconhecida, que terá algum motivo para ser especial.

Por favor! Só consegue ver séries e desenhos na TV. Não quer mais pensar em nada. Começa a achar divertidas as risadas automáticas das séries americanas. Quer rir junto. Alguém ri com ela. Sim, não estou em condições de me envergonhar por ser patética.

Mensagem toca no celular, desespero e esperança…. procura, procura, não acha, tira tudo, vai fazendo uma bagunça ainda maior, jogando tudo numa pilha de coisas. Lembra do banheiro. É lá que está:

Abre e vê

A Vivo informa: seus créditos promocio…

(…)

Ao menos lhe deram um enterro digno

Seu quarto foi o mesmo por quarenta anos. Um pequenino, nos fundos.

Analfabeta, foi a única dos filhos a não ir à escola. Como apenas ela era mulher, o pai tinha medo que escrevesse cartas para os rapazes.

A mãe morreu no parto e depois do infarto do pai, Tia Zumira a deixou com uma boa família. Foi morar lá com 13 anos. Lavava, passava, cozinhava, cuidava do nenê. Todos insistiam sempre em dizer que “era como se fosse da família”. Sorria tímida, mas dizia poucas palavras.

Largou a sua última boa companhia aos 15, uma boneca ganha provavelmente em algum dia das crianças. Passou a preferir a novela, a única hora em que ninguém ousava chamá-la.

Nunca namorou, nem se deitou com homem. Quando as empregadas da vizinhança se juntavam para falar obscenidades, ela corava.

Uma vida dedicada a servir, a fazer tudo para os outros. Para ela própria, cuidava no máximo de costurar uma roupinhas. Apesar de tudo amava Juliana, que cuidou até a moça sair de casa, para a faculdade. Talvez ela tenha substituído a boneca.

Não sei quais eram seus sonhos, nem que mundos imaginava. Deveria tê-los, com certeza. Morreu de Tuberculose aos 62 anos.  Deram-lhe um enterro digno e falaram repetidamente: “Era como se fosse da família”.

(..,)

Ele pede

Poeta vagabundo passa pela puta e pede

Uma trepada, só uma. Dou poesia em troca.

E lá poesia enche barriga?

Mas enche a alma, nobre senhorita.

Minha alma já entreguei para o Diabo, por que Deus não quis.

E o corpo?

O corpo tem que trabalhar para pagar a dívida com o cafetão.

Aceito um beijo

Tudo bem, feito.

e o versinho?

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O poema é, então, cantado no improviso mais belo feito em toda aquela noite do Centro da Cidade

O poema a faz prosa e o beijo faz um vagabundo mais prosa ainda.

Ele sai feliz e cambaleante. Um carro para na perto da calçada. A luta continua e o dia insiste em amanhecer.

(…)

A mecha

Sento no ônibus e vejo a mecha por cima da poltrona da frente. Uma mecha vermelha. É longa, é longa. Cai devagar, fio por fio e se acomoda no estofado. Aceito docemente a hipnose. Podia ficar só nisso, mas não fica não, meus senhores! Uma mão se apoia na poltrona. É lisa, magra e pequena. Unhas pintadas de claro ficam lado a lado com aquele cabelos que gritavam para mim. A mão começa a apertar vagarosamente, com elegância, a parte de trás da poltrona, vai mexendo dedos de forma sensual, sexual, como se estivesse mesmo num instante de amor. Como num movimento cuidadoso, ela reclina a cadeira e vai ao meu encontro. A mecha quer me abraçar! Está a centímetros da minha boca! Tiro a câmera fotográfica e finjo mirar a paisagem da janela. Ela se vira, se apresenta, senta ao meu lado, conversamos, transamos como animais na casa dela e assim foi por 10 noites seguidas….Não, naaaao! Vejo que está acompanhada na poltrona….Um rapaz distinto, penso eu, que está agora dando as mãos para ela. Guardo a câmera com medo de apanhar. Vou embora, passo no corredor, fico com vergonha de olhar para o lado e ver o rosto da mulher do próximo que ousei cobiçar, mesmo que tenha sido a cobiça de apenas uma parte, ou duas (acho que Moisés não especificou sobre a cobiça de uma parte em seu mandamento). Dou meu adeus à mecha, já do lado de fora do ônibus. Foi bom enquanto durou. Imagino seu rosto e desejo que seja feliz a partir da próxima parada.

(…)

Existe sim

Ele ouviu toda a história de amor livre, boemia, liberdade. Passou a viver pelos bares, conhecendo pessoas que pareciam, o tempo todo, apontar caminhos revolucionários. Até que conheceu ela, por quem se apaixonou, amou, casou. Por mais que achasse fascinante as histórias de muitos amores e aventuras, entrou de cabeça na monogamia e foi feliz. O amor eterno é reacionário pra cacete, mas existe sim, pensou baixinho.

(…)

Ela falou que se chamava Vanessa

Pegou meu braço no meio da festa, trouxe o vidro de tinta, molhou meu dedo e levou até à parede. Brincava de pintar a parede do bar. Achei graça e fiz qualquer coisa, só para participar daquela brincadeira. Logo mais ela chamaria outro menino e faria a mesma coisa. Senti ciúmes, quarenta segundos depois de tê-la conhecido.

Ela dizia ser encrenca,  mas  ia inevitavelmente me interessando. Pequena e morena, naquele capuz parecia um menininho, ou uma menina molecona, como outras tantas que conheci na escola. Um ser estranho naquele ambiente, de uma infância que não combinava. Conversamos.

Fiquei fascinado por sua figura e quero saber mais, quero beijá-la. Ela fala da Bíblia, logo antes de tomar mais um gole. Diz que já leu tudo e me fala algo bonito do Antigo Testamento. Eu falo que gosto mais do Novo, talvez para impressioná-la. Mais tarde dirá que já foi crente, não lembro se antes ou depois de transarmos. Ela fala animada de várias coisas e eu fico com riso no rosto, como um babão, reparando na sua alegria. Ela fala do trampo, da sua história. Temos histórias parecidas. Ela tem 23 anos e desconfia de mim.

Sua carência dói na gente. Quando vou para o banheiro, pede que deixe o gorro de garantia que não vá embora. Quando dá o telefone, ela cobra que seja de verdade. Eu a peço em casamento e ela me apresenta como namorado para o menino que fila um pouco daquilo guardado na sua bolsa. Me pergunta o que vi nela. Penso que idiotas não veriam tudo isso de maravilhoso nela. Quantas feridas para ela ficar assim na defensiva? Guardo o que penso para mim.

Ela me quer como companhia, como alguém que finalmente poderá ouvi-la-. Já eu quero beijá-la. Você só quer isso né? Digo que não, que esse é um momento lindo, que desejo beijá-la cada vez que ela fala algo de maravilhoso.  E me beija. Eu me sinto mal um pouco. Nem tanto. Tudo o que eu disse era uma mistura de desculpas para poder tocá-la com muita verdade. Se eu não a beijasse, ela sumiria agora.

Não lembro de pegar seu telefone. Só eu dou o meu para ela ligar para mim. Eu espero. Ela não liga domingo. Não liga segunda. Não liga terça. Não liga quarta. Não liga quinta. Não liga sexta. Fico desesperado!

Ela nunca ligou.

Gabriel de Barcelos

Uma resposta »

  1. Um texto verdadeiro de alguém que sentiu. E sente.

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