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Clarice

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‎(…) -na minha presa eu crescia sem saber para onde. O fato de um retrato da época me revelar, ao contrário, uma menina bem plantada, selvagem e suave, com olhos pensativos embaixo da franja pesada, esse retrato não me desmente, só faz é revelar uma fantasmagórica estranha que eu não compreenderia se fosse sua mãe. (….)

 

(…) A verdade é que não me sobrava tempo para estudar. As alegrias me ocupavam, ficar atenta me ocupava dias e dias; havia os livros de histórias que eu lia roendo de paixão as unhas até o sabugo, nos meus primeiros êxtases de tristeza, refinamento que eu já descobrira; havia os meninos que eu escolhera e que não me haviam escolhido, eu perdia horas de sofrimento por que eles eram inatingíveis, e mais outras horas de sofrimento aceitando-os com ternura, pois o homem era o meu rei da Criação; havia a esperançosa ameaça do pecado, eu me ocupava com medo de esperar; sem falar que estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir (….)

 

Trechos do conto “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector

https://sessao.wordpress.com/os-desastres-de-sofia/

 

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