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Jabulani para além da Copa

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Uma família num subúrbio de Rawalpindi, a cidade militar, em 2008

Todo mundo está falando da famoso Jabulani. Se ela atrapalha o chute, se foi feita com a ajuda de Kaká e outras coisas. Mas o assunto que certamente não sairá na grande mídia é a fabricação da bola. Um trabalhador recebe 0, 75 dólares por uma bola que está sendo vendida no Brasil por 400 reais. Sendo que ele produz seis destas bolas por dia. Abaixo um artigo que saiu no site do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho e um outro que eu havia escrito por ocasião de uma reportagem do Esporte Espetacular do ano passado.

 

Bola da copa é feita com trabalho aviltante

É no interior do Paquistão país pobre, e extremamente populoso, que faz fronteira com a Índia, que são feitas as bolas de futebol  utilizadas na copa do mundo, na África do Sul. As principais empresas fabricantes do mundo, quase todas grifes de multinacionais, muito conhecidas, tem suas unidades fabris na região de Sialkot, principalmente na cidade de Sambrial. Obviamente, estão no Paquistão por causa da mão-de-obra-barata mais incentivos oficiais, como impostos baixos.

O trabalhador local recebe entre 55 e 63 rupias paquistanesas por bola costurada, o que corresponde entre U$$ 0,65 a U$$ 0,75, ou entre R$ 1,17 e R$ 1,35. Num dia normal de trabalho, com jornada de 8 horas, o trabalhador consegue fazer até seis bolas, o que lhe permite uma renda de cerca de R$ 205/mês. Esse valor, para o padrão salarial brasileiro, já baixo, é uma ninharia, mas uma para a realidade do mercado de trabalho do Paquistão é muito, pois representa o dobro da renda salarial per capita, do país, que é em torno de 60 dólares americanos, mensais.

Apesar da remuneração aviltante, a jornalista Hasnain Kazim relata que o ambiente na cidade de Sambrial é de otimismo e orgulho por parte das pessoas que se mostram satisfeitas com a prosperidade local. Ela recebeu até uma delegação da FIFA, que foi inspecionar a qualidade das bolas, costuradas no padrão oficial de 08 gomos unidos. Executivos europeus também chegam, com freqüência, à cidade.

Com tradição de 100 anos na produção desse artefato, fundamental para o futebol, que então era praticado, na região, por oficiais britânicos, quando o Paquistão, integrante da Índia, era colônia da Inglaterra, as empresas paquistanesas foram aperfeiçoando sua técnica e ganharam o respeito do mercado mundial. É considerada muito boa a qualidade da mão de obra. A costura manual propicia qualidade superior no arremate.

Outro motivo de respeito para produção paquistanesa de bolas é que foi eliminado o trabalho infantil. Até dez anos atrás o país convivia com essa chaga social, sobretudo com o trabalho familiar, onde até crianças de cinco anos já auxiliavam na costura de bolas. Felizmente essa prática já não mais existe.

Mas os salários, extremamente baixos, continuam como verdadeira nódoa nas ricas grifes européias e norte-americanas de artigos esportivos. Na verdade a região de Sialkot é a primeira etapa na linha de produção. Uma bola com preço de custo de R$ 1,35, no Paquistão, é vendida em grandes lojas de departamento, em qualquer capital européia, por até R$260,00 Outros países produtores, como o Brasil, foram atingidos duramente pela produção de baixo custo, no Paquistão. Há 30 anos, em São Paulo, as indústrias de bolas, como a Drible, tinham contrato com o Conselho Penitenciário, entregando parte de sua produção para confecção, pelos presos, na penitenciária do Estado, no Carandiru, trabalho que hoje não existe mais.

Até o Brasil importa uma parte das bolas que abastecem seu mercado, vindas até mesmo da China.

Sinait 

As bolas do Paquistão

Gabriel de Barcelos

Por que o Paquistão, país sem nenhuma tradição no futebol (o críquete é o esporte mais popular) é o maior produtor de bolas do mundo?

Vou te contar uma história que já vem sendo contada há muito tempo. Ela é muito bonita e explica a força econômica desse belo país. Um militar inglês, dos tempos da colonização, jogava uma pelada por ali e teve a sua pelota furada. Ao procurar um sapateiro, conseguiu ter o problema resolvido. O nobre trabalhador dos calçados teve, então, uma brilhante idéia: “Por que não virar o maior produtor de bolas do mundo?”

Você gostou dessa história? Pois ela não foi retirada de nenhum conto fantástico e sim de uma reportagem do Esporte Espetacular, da TV Globo. O repórter Marcos Uchôa, ao que parece, acreditou nessa incrível narrativa.

O programa foi ao ar no dia 2 de agosto, mostrando a história e beleza do Paquistão, além de perguntar sobre a aparente incoerência entre o desinteresse por futebol e a liderança na fabricação do principal acessório do esporte. Não houve curiosidade em saber por que multinacionais do setor se interessam tanto em fabricar seu material por ali, nem em saber quanto ganham os trabalhadores, quantas horas trabalham e em que condições. Todas essas questões poderiam ajudar a responder a pergunta principal da reportagem.

Pessoas de todo o mundo vêm denunciando a exploração da mão-de-obra asiática pelas transnacionais. O documentário Corporation, de Mark Achbar e Jennifer Abott mostra como os trabalhadores desses países recebem centavos por produtos que custarão nos EUA milhares de vezes mais. Não sei se o repórter pensa que todos são burros a ponto de engolir o conto da carochinha, se ele acredita que o jornalismo esportivo não deve entrar nesses méritos (o que parece estranho, pois o tema tratado é, basicamente, econômico), ou se ele próprio crê em tudo aquilo. Ingenuidade e ausência de crítica, ou vontade de legitimar e mascarar um sistema econômico e seu cruel momento?

O documentário The  Corporation também está disponível para download- http://www.megaupload.com/?d=3424F4LD  (colaboração de Marcelo Reis)

Uma resposta »

  1. Gabriel, este filme, “A corporação”, está disponível para download:
    http://www.megaupload.com/?d=3424F4LD

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